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	<title>Fernando Boppré</title>
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	<description>Currículo, produção e blog</description>
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		<title>Férias: porque eu prefiro os dias inúteis*</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Jan 2012 19:43:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Por um lado, o sujeito enfrenta um ano inteiro cujos dias dedicados ao trabalho são chamados de “úteis” – o que me faz pensar que, por esta lógica, os finais de semana e feriados seriam inúteis. Para se adequar ao ritmo do mundo do trabalho, que quase nunca coincide com o seu próprio, o mesmo sujeito trata de estabelecer alguns hábitos. Por exemplo, o modo como se desloca ao trabalho ou como pronuncia “bom-dia”; o horário que costuma acordar, almoçar e assim por diante.</p>
<p>As férias, por outro lado, desregulam os comportamentos estabelecidos que se tornaram, por força da repetição, rotina (muitas vezes compreendida como enfado, cansaço, recorrência). Assim – e somente assim – torna-se possível acordar mais tarde sem culpa, ir à praia em pleno dia de semana, restar-se absolutamente inerte sobre um sofá ou então, no caso do Carnaval, sair às ruas com máscaras e pouca roupa sem correr o risco de parecer louco ou indecente. Para muitos, as férias parecem devolver o sabor adocicado de viver. E mesmo para aqueles que não têm direito às férias, o Carnaval é outro momento para essa apoteose do ser.</p>
<p>Penso que há um mecanismo pendular em funcionamento. As pessoas costumam encarar o calendário com uma lógica cristã. Isso porque o imperativo moral, primeiro, ordena muito trabalhar – ação que leva ao sofrimento já que todo excesso pode ocasionar a dor. Somente depois é que o sujeito pode alcançar o justo direito de gozar da existência. Por sinal, para o cristianismo essa redenção final, quase orgástica, ocorrerá tão-somente quando o paraíso for instituído após o Julgamento Final.</p>
<p>Férias, como se diz com a graça do idioma: “Ficar de pernas para o ar”, “sombra e água fresca”. Ou, como diria a destrambelhada Emília, em todos os meses de abril (quando eram proclamadas as férias gerais, inclusive para a negra Tia Anastácia, no Sítio do Pica-Pau Amarelo): a ordem é lagartear! A boneca de pano de Monteiro Lobato exercitava um verbo esquisito (lagartear) ao invés do substantivo (lagarto) porque queria tornar humano um procedimento animal: descansar de modo retumbante, sem maiores preocupações, simplesmente deixar-se estar. Para se curtir as férias é preciso se des-programar, tornar-se um pouco animal e um pouco Emília.</p>
<p>O senso comum diria: “sair da rotina”. Fazer uma viagem tem sido a solução mais recorrente da modernidade. Há aqueles que vivem para viajar (uma condição utópica de nossos dias: viajar sempre e não precisar trabalhar). Abandonar o conforto do lar para se aventurar em outras paragens. É pena que viajar se tornou sinônimo de turismo nos dias de hoje. O turismo, de modo geral, é uma prática e um pensamento inócuo, uma indústria voltada para o deslocamento de imensos contingentes populacionais de um lado para o outro do globo terrestre, sem fazer com que esses trajetos possibilitem quaisquer efeitos intelectuais ou espirituais – salvo exceções.</p>
<p>Uma viagem bem poderia ser o momento para se vivenciar as diferenças de um outro que habita uma realidade distinta daquela do viajante. Contudo, cada vez mais, em termos turísticos, viajar é sinônimo do mesmo: se for à França é preciso ir ao Museu do Louvre (sendo que muitas vezes o indivíduo jamais pisou em um museu na sua própria cidade de origem), se você estiver em Buenos Aires deverá conhecer a Recoleta. O sujeito já sai de casa com um caminhão de compromissos e não deixa o acaso de um percurso tomar conta daquele momento. Sem falar naqueles que dizem conhecer um país após terem passado um ou dois dias lá: tinham “pouco tempo” porque era necessário conhecer outros países. Retornam com centenas de fotos enfadonhas e um repertório limitado de histórias. </p>
<p>O cineasta alemão Wim Wenders realizou recentemente no Brasil a exposição “Lugares, estranhos e quietos”. Gigantescas fotografias ocupavam um andar do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Cada uma delas havia sido tirada em um local diferente do planeta. No texto de abertura, ele narrou que quando chegava em qualquer cidade (Wenders é um viajante assíduo por conta de seu trabalho como cineasta) e alguém lhe informava que bastava virar à direita para encontrar um famoso ponto turístico, ele tomava o caminho oposto. Seu olhar estava interessado pelas coisas menos grandiloquentes de uma cidade. Seus cliques destacam coisas mínimas e quase invisíveis; o banal instalado em uma imensa superfície coberta pela imagem fotográfica. </p>
<p><strong>Além do mais</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>As Férias do Sr. Hulot, de Jacques Tati</strong></p>
<p>Uma sugestão: se houve um homem do cinema, esse foi Jacques Tati. Seus filmes eram poesias em movimento, marcados pela compreensão precisa da relação entre as imagens e os sons. O riso surge pela sutileza e a atuação do próprio Tati encarnando o ingênuo personagem do Sr. Hulot é um dos pontos altos de todas as suas obras. Talvez, o autor mais brilhante da cinematografia (evidentemente, isso fica por conta da minha modesta opinião). Para quem não o conhece, fica aqui a dica. Aqueles que já o conhecem, um convite para revê-lo. Por sinal, existe um site interessantíssimo dedicado ao cineasta, chamado a “Cidade de Tati”: <a href="http://www.tativille.com/">http://www.tativille.com</a> </p>
<p><strong>Guia de viagem</strong></p>
<p>Se eu fosse um guia de viagens em Florianópolis, recomendaria o seguinte percurso: 1º) Estreito: apanhe uma fila na ponte. Descontraia. Ligue o som. Afinal, o que é uma hora de sua vida? Dirija-se ao bairro do Estreito, mais precisamente ao Balneário. É ali que moram os velhinhos – ou seja, grande parte da sabedoria desta cidade; 2º) Feiras: visite uma feira de bairro. As pessoas contam histórias ótimas, compram frutas frescas e biscoitos caseiros deliciosos (a maior iguaria brasileira, na minha opinião, não é a feijoada, mas sim os biscoitos de feira); 3º) Não fique apenas nessa Ilha vaidosa, há outros locais tão interessantes quanto Florianópolis. Vale a pena conhecer Jaguaruna, Laguna, Imbituba, Palhoça, entre outros locais próximos.</p>
<p><strong>Ócio criativo</strong></p>
<p>Recentemente, o Governo do Estado de Santa Catarina trouxe o filósofo Domenico de Masi para proferir palestras e consultorias sobre o dito “ócio criativo” aos tupiniquins. A idéia era embasar o turismo catarinense. Bastava conversar com um índio de qualquer etnia que ele teria muito mais a dizer sobre o assunto. Porém, como falar em italiano é mais chique do que qualquer idioma indígena, até que faz algum sentido. O resultado é a forma de turismo que hoje se pratica pelas bandas de cá – algo entre o abjeto e o estúpido – e jantares regados com champanhe entre o então governador Luiz Henrique da Silveira e o ilustre pensador. Talvez não por acaso, a bebida predileta nas areias de Jurerê Internacional seja o champanhe/espumante. É a bebida que supõe a exceção, que traz consigo a idéia de ser ingerida apenas em momentos muito especiais, que produz a fantasia de que se é diferente em meio à maioria.    </p>
<p><em>* Texto originalmente publicado na coluna &#8220;Penso&#8221; do caderno &#8220;Cultura&#8221; do  jornal Diário Catarinense, no dia 21 de janeiro de 2012.</em></p>
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		<title>Quase lá*</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Dec 2011 17:31:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Alô alô, irmão, como vão as coisas? Penso que ao ler essas linhas, o inverno já será certeza por aí. É bem possível que a neve seja sua parceira em forma de paisagem pelos próximos meses. Espero que o branco não canse demais seus olhos porque a nossa avó, disse-me ontem, falando sobre você: “Ele [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Alô alô, irmão, como vão as coisas? Penso que ao ler essas linhas, o inverno já será certeza por aí. É bem possível que a neve seja sua parceira em forma de paisagem pelos próximos meses. Espero que o branco não canse demais seus olhos porque a nossa avó, disse-me ontem, falando sobre você: “Ele não fala muito, mas basta ele me olhar, com aqueles olhinhos, que eu sei o que está sentindo, o amor que tem por mim”. Essa é a preceptora ancestral que nos ensinaram a chamar de avó: corpo miúdo, sabedoria imensa.</p>
<p>Eu e você ainda somos esboços desse saber e fazer da avó. Ainda não conseguimos acreditar que o mesmo deus que fez o mundo correr é aquele que o fará parar abruptamente. E se procurarmos sentido para isso jamais encontraremos nada além do que o acaso. Afinal, jogar dados é sempre uma experiência ganhadora posto que afirma suficientemente o poder do acaso ao invés de torná-lo probabilidade.</p>
<p>Veja lá: você teve caxumba, eu catapora. Você trabalha com computadores, eu com palavras. Seus cabelos são crespos, os meus raros. Você gosta do Japão, já eu da cidade de Tubarão. Se colocarmos japoneses e tubarões imersos no oceano, veremos o quão próximos podem ser coisas distoantes porque o mundo, quando se presta a isso, compõe arranjos improváveis (como a maior parte dos versos de Jorge Benjor). É apenas preciso estar atento para poder vivê-los.</p>
<p>Mano, aqui no Brasil as pessoas, em coro, continuam a reclamar de tudo. Queixam-se das metrópoles não planejadas, da corrupção endêmica, do trânsito caótico (esquecendo-se que elas próprias são parte dos congestionamentos). Milhões de e-mails disparados, folhas de jornais impressas, conversas travadas em torno do assunto, enfim, um aparato histérico que faz o mundo se tornar um lugar cada vez mais demandante e menos agradável para se viver.</p>
<p>Quem de nós tem uma vida planejada? E mesmo aqueles que acreditam nisso, qual planejamento se fez suceder exatamente àquilo que dele se esperava? Não seria demais esperar das cidades que construímos aquilo que não somos e nem jamais poderemos ser? Décadas atrás, o besouro John Lennon, sacou da letra de suas músicas uma frase cuja potência ainda hoje reverbera (posto que vez ou outra, geralmente nos momentos ruins, infelizmente, ela é lembrada). O zunido dizia: “a vida é aquilo que nos acontece enquanto você está planejando o futuro”. Muitos sentiram a verdade da frase mas a esqueceram diante do primeiro semáfaro aberto que os impeliu a seguir na direção de sempre. Sim, poucos de nós aprendem a dizer não.</p>
<p>Conta-se que o colombiano Héctor Abad Gómez, médico, professor e ativista dos direitos humanos, foi assassinado em 1987, em Medellín, justo no dia em que carregava no bolso o seguinte poema de Jorge Luis Borges cuja folha branca ficaria manchada de sangue: </p>
<p><em>“Já somos a ausência que seremos / </em><em>A poeira elementar que nos ignora / </em><em>e que foi o ruivo Adão e que é agora / </em><em>todos os homens e aqueles que seremos. / </em><em>Já somos na tumba as duas datas / </em><em>do princípio e do término, o caixão, / </em><em>a obscena corrupção e a mortalha, / </em><em>os ritos da morte e as elegias (&#8230;)”</em></p>
<p>Para enviar este texto para você, tive que esperar. Ele só foi impresso no dia 24 de dezembro de 2011, no caderno Cultura do Diário Catarinense. É meio parecido com aquele filme que você adora, “De Volta para o Futuro”, onde a personagem deve esperar uma carta enviada há mais de cem anos. Isso porque tenho a sensação de que o que escrevo já estava pronto, apenas esperando eu percebê-lo em algum lugar do corpo.</p>
<p>O dia em que o jornal que você tem agora em mãos for distribuído aqui no Brasil será véspera de Natal. Três dias atrás foi o solstício de verão no hemisfério sul, quando o dia mais longo gerou a noite mais breve do ano. É impressionante como ao descrevermos um mundo quase perfeito – de ritmos constantes, nascedouros ininterruptos, coisas assim – passamos a acreditar que é possível tornarmo-nos a sua imagem e semelhança. Em vão, imaginamos estratégias para mais viver. Inventamos deuses porque neles projetamos “aqueles que tudo podem”. Para legitimar esse gesto insano, passamos a cultuá-los (talvez como forma de jamais esquecermos de um grande erro).</p>
<p>É verão por cá, irmão, é vez do sol retomar a primazia do posto, tornar-se imperativo. Brilho tanto, a esquentar até o bico dos passarinhos, ninhos sobre telhados e casas e postes e árvores e terrenos baldios. Arrebatam jardins com cantorias, bater de asas, cores e correria muita. Na primavera tomei o primeiro banho de mar. A água até que estava quente, mas do lado de fora um vento frio zoava pescoços, entortando-os feito ferragem de construção.</p>
<p>A casa não cresceu, a barriga não vingou, o sorvete de menta continua no congelador. E eu com a impressão de que o breve está dentro de mim, de que o silêncio é a melhor mirada para contemplar a finitude e a eternidade. Feliz ano novo, querido. Em 2012, meu plano é não ter planos. No máximo, continuarei a escrever banalidades para você, da próxima vez por e-mail para não ter que gastar folhas tantas de jornal. Fique bem, faça o bem. Abraços do irmão mais novo.</p>
<p>p.s.: Veja só que passagem linda de Gilles Deleuze (por sinal, o mesmo que pensou aquela ideia sobre o jogo de dados que escrevi acima): “Na vida há uma espécie de torpeza, de fragilidade física, de constituição débil, de gagueira vital, que constitui o encanto de cada um. Aqueles que não têm encanto não têm vida, estão como que mortos”.</p>
<p>p.s. do p.s.: De modo geral, oferecemos dicas daquilo que conhecemos. Hoje vou fazer o contrário. Vou indicar um livro que não li. O título é “A ausência que seremos”. Ele foi escrito por Héctor Abad Faciolince, filho do médico colombiano assassinado que comentei acima. </p>
<p>p.s. do p.s. do p.s.: Esta carta é endereçada a você mas, quem sabe, sirva para aqueles que porventura nos leem nas páginas do Diário Catarinense. Afinal, todos somos irmãos: quem escreve, quem lê o que os outros escrevem, e até que não nada lê, não é mesmo?</p>
<p><em>* Carta publicada na coluna &#8220;Penso&#8221;, do caderno Cultura, do jornal Diário Catarinense de 24 de dezembro de 2011.  </em></p>
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		<title>Queijo continuum</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Oct 2011 23:31:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Com o passar do tempo, a  vida sucede em trejeitos inarredáveis. Faz do ordinário algo improvável. Assim se largam no mundo sujeitos  esquisitos que nem parecem nascidos de materno ventre. Alimentava-se de queijos desde criança;  ao passo que irmão, de linguiças e presuntos. Vegetarianos pais incentivavam  hábito monográfico do filho primeiro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Com o passar do tempo, a  vida sucede em trejeitos inarredáveis. Faz do ordinário algo improvável. Assim se largam no mundo sujeitos  esquisitos que nem parecem nascidos de materno ventre. Alimentava-se de queijos desde criança;  ao passo que irmão, de linguiças e presuntos. Vegetarianos pais incentivavam  hábito monográfico do filho primeiro e legavam ao outro, precoce  transgressor, o plano segundo. Anos a passar, corpos se alongam e  cada qual desenha na lousa da existência comportamentos padrões – como  se fosse possível assim conferir um aspecto <em>continuum</em> para algo  tão breve quanto uma vida. Ele velho ainda a gostar de queijos. Em  geladeira, caixa com tabletes de todo tipo. O tempo livre inspirou jogo  todo-próprio onde ele se divertia em misturar queijos diversos, em  tamanhos equânimes e precisos. Esmerava-se em redimir imperfeições,  furos, em construir esculturas minimalistas em pequena escala, cubos  perfeitamente exatos. A diferi-los, apenas as cores, impasse logo  resolvido com tinta digerível e inodora que conferia o mesmo padrão de  cor para cada pedaço. Em mesa ampla, negra e com iluminação direcionada,  dispunha dos pedaços de queijo sobre o plano,  fechava os olhos para delegar ao tato a responsabilidade primeira de  contato, quase sacro, junto ao corpo breve devorar.</p>
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		<title>Penso Bienal, nem pensar (ainda)*</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Sep 2011 23:23:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A abertura da sexta edição da Bienal do Vento Sul em Curitiba e da  oitava Bienal do Mercosul em Porto Alegre, no mês passado, fez ressurgir  o velho complexo de inferioridade no meio cultural local: “Seremos  sempre o ‘zero’ da BR-101?”, perguntam-se atônitos, alguns artistas,  gestores e produtores culturais diante da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A abertura da sexta edição da Bienal do Vento Sul em Curitiba e da  oitava Bienal do Mercosul em Porto Alegre, no mês passado, fez ressurgir  o velho complexo de inferioridade no meio cultural local: “Seremos  sempre o ‘zero’ da BR-101?”, perguntam-se atônitos, alguns artistas,  gestores e produtores culturais diante da carência de eventos análogos  pelas bandas de cá.</p>
<p>Em Santa Catarina, uma bienal seria um  desastre anunciado para as contas públicas tal qual a Copa do Mundo de  2014 no Brasil. O Balé Bolshoi, instalado em Joinville, não deixa de  prestar ótimos serviços em relação àquilo que se propõe. Contudo, será  que vale realmente o montante dos recursos públicos investidos a cada  ano? Não seria melhor criar escolas locais, em diversas cidades,  democratizando o acesso à dança? Em contrapartida, inúmeros projetos  culturais de instituições de utilidade pública, com mérito cultural e  contrapartidas sociais reconhecidamente comprovadas, carecem do mínimo  apoio, nesta terra de ninguém que se chama Santa Catarina.</p>
<p>É  preciso, antes de qualquer coisa, colocar a casa em ordem. E, para  tanto, é fundamental abolir a lógica dos eventos e fomentar museus,  centros culturais, financiar bolsas e residências artísticas, estimular a  formação, a preservação, a pesquisa, a produção e a circulação. E isso  se faz por meio de editais públicos transparentes.</p>
<p>Por isso, é  salutar a ausência de uma bienal em no Estado, já que não deixa de ser  uma espécie de Rock in Rio das artes visuais. A analogia pode ser um  tanto grosseira, mas uma bienal fomenta o estabelecido, dificilmente  consegue propor experimentações, estímulo aos coletivos ou projetos  educativos duradouros. É onde o mainstream se encontra, o mercado se  aquece, os artistas e curadores engordam seus currículos, as companhias  aéreas vendem mais bilhetes e as colunas sociais ficam repletas de  fotografias constrangedoras.</p>
<p>Em uma bienal, o discurso da  curadoria – que seleciona os artistas, trabalhos e os organizam no  espaço – tende a achatar aquilo que há de singular em cada proposição  artística. Engendra-se uma unidade conceitual insustentável para um  conjunto de obras díspares. Ao final de qualquer bienal, a sensação é  que a lógica que a sustenta é tão somente de ordem econômica: fomenta-se  galerias, o turismo, as livrarias, os restaurantes, menos a  capilaridade do circuito artístico.</p>
<p>Eventos desta natureza  respondem por uma lógica superlativa em descompasso com a produção  artística que tem se dedicado a elaborar uma poética que dê conta da  fragilidade, da ruína e da dimensão absolutamente oca que se transformou  o viver na contemporaneidade (para citar alguns que já se foram, basta  lembrar Bispo do Rosário, Leonilson e Mira Schendel). Não obstante, a  lógica dos grandes eventos que tomou de assalto a produção cultural  brasileira considera o ápice de uma carreira a realização de um  longa-metragem, um grande espetáculo teatral ou, no presente caso, a  participação em uma bienal de artes (uma noção romântica do que é ser  artista baseada, talvez, no status dos antigos Salões de Paris).</p>
<p>Para  uma bienal, é preciso esforço sobre-humano, orçamento milionário,  serviços de contabilidade, patrocinadores que pouco ou nada se  relacionam com a proposta em questão. Saudades do tempo em que se  montavam exposições de um dia para o outro, pela simples vontade e  necessidade de fazê-las, sem se preocupar com a retórica exigida pelas  leis de incentivo à cultura. Neste momento, vale lembrar o circo (não  por acaso, em processo de decadência), que tem muito a ensinar:  instala-se em uma cidade, faz erguer a lona e logo o picadeiro está  pronto para a diversão.</p>
<p><strong>Além do mais&#8230; Com pouco, faz-se muito</strong></p>
<p>No  ano passado e neste ano, exposições e iniciativas interessantíssimas  ocorreram e não necessariamente dispenderam grandes recursos. A artista e  pesquisadora Lucila Vilela realizou o projeto Casa, com a articulação  entre as artes visuais, o teatro, a música, a dança e o audiovisual (é  possível conferir o catálogo virtual em <a href="http://www.interartive.org/casa.html" target="_blank">www.interartive.org/casa.html</a>).  Recentemente, em Joinville, Fernando Lindote realizou uma impressionante  exposição individual que ocupou o Museu de Arte de Joinville (MAJ). O  Instituto Meyer Filho, em Florianópolis, tem promovido uma excelente  programação. Em Chapecó, artistas visuais com trabalhos consistentes se  organizam em uma associação para promover mostras, formações e outras  atividades.</p>
<p><strong>A poética do pouco</strong></p>
<p>Alguns artistas partem do pouco, do quase nada. Um deles é Carlos  Asp. Certa vez, disse que não era preciso voltar ao gênero da paisagem  nas artes visuais porque, segundo ele, “eu já estou nela”. Em seus  desenhos, ele fala do céu, do azul, do mar verde, das pedras negras na  areia grossa. Asp escreve. Eu também. Este texto é um desenho para  cegos.</p>
<p><em>* Texto originalmente publicado na coluna &#8220;Penso&#8221; do Caderno Cultura, do Diário Catarinense, em primeiro de outubro de 2011.</em></p>
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		<title>a g r i d o c e</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Aug 2011 01:07:22 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Ela, pequenos incidentes construção inacabada envolvidos noite e silêncios. Ele, tecer bonecas negras porque de branco já farinha e governos. Cigarros na cobertura de algo que sequer insiste. Decidiram romper porque laços nem mais vestidos. Tão-somente agridoce é que o céu existe.
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Ela, pequenos incidentes construção inacabada envolvidos noite e silêncios. Ele, tecer bonecas negras porque de branco já farinha e governos. Cigarros na cobertura de algo que sequer insiste. Decidiram romper porque laços nem mais vestidos. Tão-somente agridoce é que o céu existe.</p>
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		<title>Estar tênue vazio</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Apr 2011 01:39:10 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Cerca de uma esquina
a força que faz seguir                 naquele sentido
potente e presente.
Naquela mesma esquina
força alguma que poderia imaginá-la
desde coisas que não mais lá estão:
um cachorro morto há 23 anos,
a escarradeira da antiga loja de tecidos,
um poste desativado pela iluminação subterrânea.
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cerca de uma esquina</p>
<p>a força que faz seguir                 naquele sentido</p>
<p>potente e presente.</p>
<p>Naquela mesma esquina</p>
<p>força alguma que poderia imaginá-la</p>
<p>desde coisas que não mais lá estão:</p>
<p>um cachorro morto há 23 anos,</p>
<p>a escarradeira da antiga loja de tecidos,</p>
<p>um poste desativado pela iluminação subterrânea.</p>
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		<title>Simpatia</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Apr 2011 01:33:14 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Atenção: simpatia infalível para conquistar o seu amor. Leia essa (se é que você já não a conhece&#8230;): “Numa sexta-feira de lua crescente, após às 21 horas, despetale uma rosa vermelha e escreva em cada uma delas, com um espinho da própria rosa, o nome da pessoa amada. Após isso, atire as pétalas em água [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Atenção: simpatia infalível para conquistar o seu amor. Leia essa (se é que você já não a conhece&#8230;): “Numa sexta-feira de lua crescente, após às 21 horas, despetale uma rosa vermelha e escreva em cada uma delas, com um espinho da própria rosa, o nome da pessoa amada. Após isso, atire as pétalas em água corrente e espere o resultado”. Uma simpatia é uma jogada com o improvável. Surge no instante em que a lógica racional não mais dá conta do real. Uma crise, um fracasso, uma doença, um desamor: qualquer situação pode servir de pretexto para uma simpatia que, em última instância, promete instaurar uma ficção no lugar de uma realidade não desejada (afinal, o que é a arte senão, em parte, este esforço insano ao longo dos séculos?). Geralmente, o corpo é o objeto central de uma simpatia. Quem faz uma simpatia deseja alterar a relação de um corpo com a realidade, seja para o bem, seja para o mal (como ocorre nas sempre úteis <em>mandingas</em>). Para tanto, é preciso seguir a risca uma espécie de livro de receitas que fornece as instruções para uma sequência de ações muitas vezes desconexas. Diego de los Campos se utilizou nestes vídeos do <em>stop-motion</em> (técnica de animação cinematográfica onde o modelo – no caso, o próprio artista – é fotografado quadro a quadro). Com humor, leveza e despretensão, talvez as principais características da trajetória de Diego, surge diante de nossos olhos lances improváveis em torno de seu autoretrato que, a todo instante, flertam com o apagamento da memória e identidade do próprio artista.</p>
<p>Acesse abaixo, um dos vídeos da exposição.</p>
<p><span style="color: #0000ff;"><a href="../wp-content/uploads/2011/04/purgue-a.wmv">purgue a</a></span></p>
<p>&#8212;</p>
<p>Texto redigido para a exposição &#8220;Simpatia&#8221;, do artista Diego de los Campos, no Museu Victor Meirelles, de 27 de abril a 23 de junho de 2011.</p>
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		<title>Lição de casa: imaginar um herói sem caráter</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Feb 2011 23:34:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ele será baixo mas sempre usará salto alto. Atleta, forjará cegueira ou amputará o ante-braço só para competir com os para-atletas. Comprará flores brancas e as tingirá de vermelho para entregar à mulher amada. Literato, traduzirá a obra completa de Proust em três dias e alegará falta de tempo – e a ausência do ante-braço. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ele será baixo mas sempre usará salto alto. Atleta, forjará cegueira ou amputará o ante-braço só para competir com os para-atletas. Comprará flores brancas e as tingirá de vermelho para entregar à mulher amada. Literato, traduzirá a obra completa de Proust em três dias e alegará falta de tempo – e a ausência do ante-braço. No dia em que decidir homenagear alguém (ainda pairam dúvidas se ele será capaz disso), terá um filho com nome de Quincas para não ter que chamá-lo de Machado. Ainda assim, votará no Serra em todas as eleições. Esquecerá o pai no estacionamento do hospital no dia em que ele tiver um ataque cardíaco. Agrícola, plantará feijões em xícaras e colherá imensas melancias. Orações em hebráico para despistar os árabes. Terá diabetes para economizar nos doces, deixará de tomar leite para investir em queijos. Andará em aviões por sentir medo de zepellins. Alimentará tartarugas com pedaços de outras tartarugas.</p>
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		<title>O poder do pensamento ou Pequeno guia de meditação budistas com os Caça-Fantasmas</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Feb 2011 22:56:22 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Revi &#8220;Os Caça-Fantasmas&#8221; na TV, dia desses, no maior divertimento. O filme tem uma passagem genial. Na porção final, o mundo está em perigo e somente os Caça-Fantasmas podem salvá-lo. Os quatro (anti-)heróis se deparam com uma deusa sumeriana (sabe-se lá de onde a referência à Suméria surgiu no roteiro) nas alturas de um edifício [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.fernandoboppre.net/wordpress/wp-content/uploads/2011/02/stay-puft-marshmallow-man.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-435" title="stay-puft-marshmallow-man" src="http://www.fernandoboppre.net/wordpress/wp-content/uploads/2011/02/stay-puft-marshmallow-man.jpg" alt="" width="240" height="200" /></a>Revi &#8220;Os Caça-Fantasmas&#8221; na TV, dia desses, no maior divertimento. O filme tem uma passagem genial. Na porção final, o mundo está em perigo e somente os Caça-Fantasmas podem salvá-lo. Os quatro (anti-)heróis se deparam com uma deusa sumeriana (sabe-se lá de onde a referência à Suméria surgiu no roteiro) nas alturas de um edifício em NY. O ser monstruoso ordena que eles escolham a forma do ser que virá para aniquilá-los. Basta imaginá-lo para que a deusa sumeriana ganhasse a forma deste pensamento. Dr. Venkeman, o mais sabido deles, ordena que os Caça-Fantasmas pensem em nada. A solução budista por ele encontrada no calor do momento é simples: esvaziem suas mentes. Assim, o monstro ganhará a forma do vazio, ou seja, de nada. O que Dr. Venkeman não pensou é que o imaginário ocidental é povoado por imagens de todos os tipos e que seus colegas não eram exatamente as pessoas mais indicadas para se dizer: &#8220;Não pense em nada&#8221;. Em poucos segundos, o desastrado (e certamente esfomeado) Ray acaba pensando em algo: eis que surge um monstro de marshmallow (por sinal, um dos monstros mais graciosos da história do cinema, o que nos leva a pensar o quanto o cinema norte-americano ganhou em escatologia e perdeu em poesia nos últimos anos ao contratar para seus <em>castings</em> figuras deploráveis como o Godzilla). Em tempo: sorte que Ray pensou em algo simpático e doce. Já imaginou se ele pensasse em Nietzsche ou em Ronald Reagen? O perigo e a potência do pensamento nunca estiveram tão bem retratados no cinema.</p>
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		<title>Extra!!!</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Feb 2011 22:27:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Cinco pães explosivos foram descobertos na Printemps-Haussmann, em Paris. O leitmotiv é antigo: um grupo terrorista afegão reivindicou a ação e exige que o governo francês retire as tropas. Contudo, o que há de nouveau nessa ação é a idéia de um improvável recheio no sanduíche dos parisienses. Esse é o maior crime, maior do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cinco pães explosivos foram descobertos na <em>Printemps-Haussmann</em>, em Paris. O <em>leitmotiv</em> é antigo: um grupo terrorista afegão reivindicou a ação e exige que o governo francês retire as tropas. Contudo, o que há de <em>nouveau</em> nessa ação é a idéia de um improvável recheio no sanduíche dos parisienses. Esse é o maior crime, maior do que uma possível explosão da loja <em>très chic </em>onde foram encontrados os explosivos. A verdadeira profanação dos terroristas foi enfiar as bombas no meio das <em>baguettes</em>! A identidade francesa possui valores inegociáveis, disse Nicolas Sarkozy noutro dia, e a <em>baguette</em> é um deles. Nessa cidade, onde em cada duas esquinas, três vendem sanduíches de <em>baguette</em>. Por todos os lugares, comem-se sanduíches: na escada-rolante, nas praças, andando nas ruas, nos museus, dentro do metrô, nos colégios e, nas horas vagas, dentro das casas. A grande virtude, o talento implícito neste plano terrorista, a poética dessa gente desconhecida e barbuda vinda do Oriente, foi justamente a criação de uma metáfora providencial em forma de uma <em>baguette</em> explosiva: o que enche a boca dos franceses, iria explodir os seus miolos.</p>
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