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	<title>Fernando Boppré</title>
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	<description>Currículo, produção e blog</description>
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		<title>Bispo do Rosário: Longa é a arte, tão breve a vida*</title>
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		<pubDate>Sat, 14 Apr 2012 19:40:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um artista é capaz de desafiar o silêncio esmagador suscitado pela ausência de um corpo. A arte bem poderia ser compreendida como um fazer contra o aspecto inexorável da morte. No dizer de Hipócrates, “ars longa, vita brevis” (“a vida é curta, a arte é longa”). Se não é possível vencer o ocaso, eis que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um artista é capaz de desafiar o silêncio esmagador suscitado pela ausência de um corpo. A arte bem poderia ser compreendida como um fazer contra o aspecto inexorável da morte. No dizer de Hipócrates, <em>“ars longa, vita brevis”</em> (“a vida é curta, a arte é longa”). Se não é possível vencer o ocaso, eis que é criada uma série de testemunhos sobre o viver em forma de imagens, textos, sons ou mesmo a partir de objetos, do intelecto, seja o que for. É isso que ficará em meu lugar quando eu for morte e silêncio. Há um flerte com a eternidade em cada obra de arte, em cada página escrita.</p>
<p>Arthur Bispo do Rosário é um dos nomes mais incríveis da história recente do Brasil. Não fosse sua imensa obra, certamente teria passado pela vida como um mero dado estatístico referente à população pobre, negra, insana e excluída do Brasil. Nascido na cidade de Japaratupa, em Sergipe, no ano de 1909 (ou 1911, não se tem certeza), morreu em 1989. Se o errante é aquele que erra por gosto (ou pelo destino), então Bispo foi um deles: de marinheiro a faxineiro, de imigrante a interno de um manicômio, de religioso a artista consagrado após a morte.</p>
<p>Diagnosticado com esquizofrenia paranóide em 1938, no então Hospital para Alienados, na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, ele passaria por algumas instituições de atenção à saúde mental até ser internado na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, onde esteve até o fim da vida. Por décadas, dedicou-se a produzir aquilo que alguns consideram, hoje, um dos maiores monumentos da contemporânea arte brasileira e mesmo internacional.</p>
<p>O trabalho de Bispo consistia, primeiramente, em retirar objetos comuns de circulação para depois rearranjá-los junto a outros materiais obtidos da mesma maneira. Para tanto, ele os amarrava entre si (muitas vezes, por meio da costura), criando assim uma composição improvável que acabava produzindo um caráter estético para cada novo objeto que surgia. Após isso, ele os depositava num conjunto de celas localizadas no interior do Pavilhão 10, onde habitava na Colônia Juliano Moreira. Lá, de acordo com suas indicações, eles deveriam ficar até o dia do Juízo Final.</p>
<p>É preciso levar em conta a miséria material da maior parte dos hospícios brasileiros de então. Não era nada fácil conseguir objetos, sejam eles quais fossem. Para tanto, alguns relatos dão conta de que Bispo era uma espécie de xerife dentro da Colônia, exercendo autoridade e obtendo materiais por meio de sua presença e de sua força física (por sinal, ele chegou a lutar boxe, num período anterior a sua internação).</p>
<p>Em boa medida, Bispo era muito mais um obreiro do que um artista posto que direcionasse o fruto de seu trabalho ao Deus com “D” maiúsculo (no caso, um Deus cristão, esse mesmo que costuma alternar drasticamente os humores e distribuir culpas aos homens). Encarava o seu labor como uma espécie de sacrifício já que muitas vezes chegou a se auto-exilar durante meses na solitária para poder executá-lo. Bispo nunca desejou expor suas obras num museu, porém certamente sonhou em rezar missas. Na verdade, Bispo não cabe num museu e, mesmo se coubesse, sinceramente, não sei se os museus teriam os conhecimentos necessários para entendê-lo.</p>
<p>Um detalhe curioso: Bispo adorava jogar xadrez, metáfora ideal para se compreender sua visão de mundo, já que aquele que o joga faz uso de um conjunto de regras estruturadas hierarquicamente. Há reis, rainhas, bispos, torres, cavalos e peões dispostos em um tabuleiro cujas peças possuem movimentos delimitados. Só é possível elaborar e executar uma jogada a partir destas categorias. Bispo respeitava a hierarquia cristã (se bem que é preciso, ainda, estudar devidamente a influência das religiões e ritos africanos em sua trajetória). Seu nome – Bispo do Rosário – já remete a elementos simbólicos do catolicismo. Certa vez, declarou: “Eu escuto Jesus Filho e para mim é o bastante”. Em última instância, Bispo sempre trabalhou no espaço da sacristia, longe dos holofotes.</p>
<p>Ao morrer, foi desautorizado a fazer aquilo que mais almejava em vida. Isso porque ao longo dos anos, Bispo trabalhou na confecção daquilo que chamava de “Manto da Anunciação”. Obra fundamental, hoje pertencente ao Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea (localizado na antiga Colônia Juliano Moreira), trata-se de peça tecida pelas suas próprias mãos para ser a vestimenta utilizada por ele no dia de seu enterro. Era a síntese da grande narrativa que ordenara em sua passagem pelo planeta. Era com esse “Manto” que ele se decidira se apresentar aos céus. Contudo, alguns estudiosos da arte decidiram que era melhor guardá-lo em um museu de arte. É pena, porque uma vida sofrida bem que poderia ter se findado com um desejo realizado.</p>
<p><strong>Além do mais</strong></p>
<p><strong>Documentário de Fernando Gabeira</strong></p>
<p>No link <a href="http://www.youtube.com/watch?v=x9wc-_XoCcw">http://www.youtube.com/watch?v=x9wc-_XoCcw</a> é possível encontrar o documentário “Bispo”, realizado pela série “Vídeo-Cartas”, dirigido por Fernando Gabeira na década de 1980. Em uma das cenas, Bispo está em plena ação diante de um tabuleiro: é quando jornalista e interno disputam uma partida.</p>
<p><strong>Bispo em exposição</strong></p>
<p>Até o dia 29 de abril, encontra-se em cartaz no Santander Cultural, na cidade de Porto Alegre, a mostra “Bispo do Rosário: a poesia do fio”, com curadoria de Helena Severo e Wilson Lázaro. É relativamente difícil encontrar um conjunto expressivo de suas obras em exposição, portanto, quem puder ir até lá, certamente valerá o deslocamento. No ano passado, mostras com obras de Bispo ocorreram também no <em>Museu Art &amp; Marge</em> em Bruxelas na Bélgica, no Instituto Valenciano de Arte na Espanha e na 11ª edição da Bienal de Lyon. Neste ano, está previsto que ele será um dos destaques da 30ª Bienal de São Paulo, com curadoria do venezuelano Luis Pérez-Oramas.</p>
<p><strong>Diálogos com Raimundo Camillo</strong></p>
<p>O simpático Raimundo Camillo é interno, há mais de 40 anos, da Colônia Juliano Moreira. Ele também mantém uma estreita relação com a arte. Seus trabalhos se parecem com cédulas de dinheiro (em alguns, o suporte é realmente um papel moeda). Ele desenha e colore, acrescentando números, alterando o valor monetário. Raimundo não rasga dinheiro, mas faz arte sobre ele. Certo dia, durante uma viagem que fiz para conhecer a Colônia (que ainda hoje está em funcionamento, com outro nome, é claro, porque os absurdos institucionais sempre precisam mudar de nomes) e o Museu Arthur Bispo do Rosário Arte Contemporânea, aproveitei a oportunidade e perguntei se ele conhecera Bispo do Rosário.</p>
<p><em>- “O Bispo do 10?”, questionou-me (sendo o número uma referência ao Pavilhão 10, onde Bispo residiu).</em></p>
<p><em>- “Sim, conheci.&#8221;</em></p>
<p><em>- “Como ele era?”, indaguei.</em></p>
<p><em>- “Ele era preto.”</em></p>
<p><em>&#8212;</em></p>
<p><em>* Texto publicado na coluna &#8220;Penso&#8221;, do caderno Cultura, do jornal Diário Catarinense, em 14 de abril de 2012.<br />
</em></p>
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		<title>Tenha fé*</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Mar 2012 14:39:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>

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		<description><![CDATA[Penso que somos todos homens e mulheres de fé. E ao escrever “fé”, não me refiro à religião mas sim ao poder da crença que legitima nossas existências e que delimita nossos desejos. Alguns exemplos: a) aqueles que acreditam em OVNIS são homens de fé; b) Fábio Brüggemann, nobre colega cujo texto publicado na semana [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Penso que somos todos homens e mulheres de fé. E ao escrever “fé”, não me refiro à religião mas sim ao poder da crença que legitima nossas existências e que delimita nossos desejos. Alguns exemplos: a) aqueles que acreditam em OVNIS são homens de fé; b) Fábio Brüggemann, nobre colega cujo texto publicado na semana passada nesta coluna foi dedicado a defender a arte, de modo vibrante, também pratica sua fé; c) esse que vos fala e que tem o hábito de plantar temperos em míseros vasos de barro (e que nesses tempos de seca tem que regá-los todos os dias esperando que sirvam para o preparo do alimento) também é um homem de fé.</p>
<p>De minha parte, prefiro crer em pés de pimenta que são bem mais importantes do que a arte, o patrimônio, os concursos públicos, os vinhos, o matrimônio, seja o que for. Por sinal, uma das motivações das grandes navegações do século XV foi o comércio de especiarias que nada mais eram do que produtos de origem vegetal. Em última instância, um pé de pimenta pode ter sido mais decisivo para a ocupação por parte dos europeus do chamado Novo Mundo do que o próprio Américo Vespúcio.</p>
<p>Analisemos com calma: gerações e gerações têm acreditado na força da lei, do casamento, da cultura e da aquisição de bens. E olhe aonde chegamos? Aliás, tenho certeza que a agricultura familiar e orgânica, muito em breve, será o grande sistema de saber da humanidade já que precisamos, antes de qualquer coisa, comer bem. Hoje em dia fazemos de tudo: conversamos com pessoas no outro lado do mundo, ingerimos medicamentos que aliviam até mesmo a dor de existir (os anti-depressivos), andamos de um lado para o outro do planeta em veículos e aviões potentes, mas não conseguimos nos alimentar corretamente. Deixamo-nos consumir pela indústria de alimentos que conseguiu aniquilar nutrientes e nos deu, em troca, toxinas. Pois bem, não há corpo que fique rijo sobre a terra se alimentando de toxinas.</p>
<p>Em breve deveremos reaprender a plantar e a preparar aquilo que colheremos. A palavra “evolução” terá que ser reinventada já que, em boa medida, procederemos com uma volta no tempo. Teremos, ainda, a missão de reorganizar a jornada de trabalho de modo que nos reste tempo para o cultivo de alimentos. Os bancos deverão ampliar linhas de créditos para a agricultura de pequeno porte e o Estado subsidiar a compra de estoques para manter aqueles poucos que ainda restam no campo. Será preciso, ainda, incentivar as novas gerações a trabalharem com a agricultura já que o trabalhador rural envelheceu e seus filhos foram mandados para a cidade grande para estudar (e consumir toxinas da indústria de alimentos, num ciclo nada inteligível).</p>
<p>Por séculos dedicamo-nos a esquecer de nosso pretérito rural e a engendrar sistemas de saber que logo se transformaram em instrumentos de poder. O direito, a agronomia, o jornalismo, a ciência, a literatura, tudo virou instituição e/ou disciplina acadêmica. Aos poucos, delegamos aos juízes, professores e aos pesquisadores o privilégio do conhecimento e os autorizamos a nos dizer o que (e como) as coisas devem ser feitas. A maior parte desses profissionais, por sinal, recebem seus salários por meio do Estado, sintoma de que o conhecimento que temos acesso nos dias de hoje é também uma das formas de se manter o <em>status quo</em>.</p>
<p>A vida não tem regras: quem as estabelecem são as pessoas que a vivem para poderem melhor controlá-la. Antes de qualquer coisa, precisamos respeitar a vida e, somente depois, aqueles que falam sobre ela. É pena que, como bem disse o escritor Louis-Ferdinand Céline (1894-1861), a “experiência é uma lâmpada fraca que só ilumina aquele que a carrega”. Ora, se o saber sobre o viver – isso que chamamos de “experiência” – é uma lâmpada fraca, então sua propagação é rarefeita. É difícil comunicá-lo ao outro posto que se assemelhe a uma vela cuja luminosidade nunca é suficiente para esclarecer as vidas em seu entorno. Paradoxalmente, cada vez mais, precisamos de muita energia para viver. Tomamos coquetéis de vitaminas, iluminamos ruas e terrenos para não serem invadidos por bandidos, abastecemos casas com redes elétricas cada vez mais potentes para fazerem funcionar os equipamentos que definem nossas rotinas. Não obstante, ao acordar nesses dias quentes de verão, quando as lâmpadas estão apagadas, os aparelhos desligados e luz do sol reina indiferente, pergunto-me: para que tudo isso?</p>
<p><strong>Além do mais</strong></p>
<p><strong>Globo Rural</strong></p>
<p>Os canais educativos até que se esforçam. Mas ainda não inventaram nada melhor do que o Globo Rural. Ligue sua TV nas manhãs de domingo ou nas madrugadas dos dias de semana e você terá o melhor programa da televisão brasileira. O agricultor lá do interior envia uma pergunta querendo saber o motivo pelo qual sua plantação de melancia não vingou. A produção do programa vai até um especialista e ele ensina como obter uma colheita eficiente, com uma série de dicas sobre irrigação, adubação e o aproveitamento do solo. Bem que a televisão poderia ser sempre assim: um canal de comunicação entre as pessoas, espaço para a troca de conhecimentos e de saberes. E não esse infindável blá-blá-blá das telenovelas e dos telejornais.</p>
<p><strong>Produtos orgânicos: o olho do consumidor</strong></p>
<p>Em 2009 o Ministério da Agricultura editou uma cartilha sobre como o consumidor pode identificar e fazer uso dos produtos orgânicos. Ilustrada por Ziraldo, a cartilha se encontra disponível em <a href="http://www.agricultura.gov.br/desenvolvimento-sustentavel/organicos/publicacoes">http://www.agricultura.gov.br/desenvolvimento-sustentavel/organicos/publicacoes</a> A proposta é divulgar o selo do SISORG (Sistema Brasileiro de Avaliação de Conformidade Orgânica) que pretende padronizar, identificar e valorizar produtos orgânicos. Vale a pena acessar.</p>
<p><strong>Nietzsche e uma verdade</strong></p>
<p>Um belo dia, Friedrich Nietzsche (1844-1900) pensou: “Deve-se falar somente quando não se pode calar; e falar somente daquilo que se superou – tudo o mais é tagarelice, ‘literatura’, falta de disciplina”. Pois bem, pouco resta a dizer após esse aforismo. Porque conjugá-lo ao limite significa admitir que o texto que você agora lê é absolutamente desnecessário assim como as páginas que o precederam neste jornal podem ser entendidas como pura tagarelices.</p>
<p><em>* Texto publicado no jornal Diário Catarinense, caderno Cultura, coluna &#8220;Penso&#8221;, em 17 de março de 2012.</em></p>
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		<title>Aqui acontecem coisas estranhas*</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Feb 2012 22:04:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nossa pátria é tão altiva que jamais se dispôs a debater aberta e democraticamente temas dramáticos de sua história. Como numa arena romana, divertimo-nos condenando os pais que atiraram a filha do sexto andar por se tratar de um homicídio espetacular e midiático. Em contrapartida, desconversamos quando se cogita condenar torturadores (ou aqueles que os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.fernandoboppre.net/wordpress/wp-content/uploads/2012/02/vladimir-herzog.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-498" title="vladimir-herzog" src="http://www.fernandoboppre.net/wordpress/wp-content/uploads/2012/02/vladimir-herzog-201x300.jpg" alt="" width="201" height="300" /></a>Nossa pátria é tão altiva que jamais se dispôs a debater aberta e democraticamente temas dramáticos de sua história. Como numa arena romana, divertimo-nos condenando os pais que atiraram a filha do sexto andar por se tratar de um homicídio espetacular e midiático. Em contrapartida, desconversamos quando se cogita condenar torturadores (ou aqueles que os ordenavam) que são (ou foram) servidores públicos brasileiros: soldados, governadores, tenentes, policiais, cabos, presidentes, dentre outros.</p>
<p>João Baptista Figueiredo (1918-1999), o último presidente do Governo Militar. Após deixar o cargo, em 1985, caminhava todos os dias e tomava água de coco na Praia do Pepino, no Rio de Janeiro. Por vezes, ostentava uma ridícula sunga à beira-mar, símbolo da plena liberdade que usufruiu até o fim da vida, mesmo tendo comandado as Forças Armadas que produziram um dos maiores ataques terroristas da história do Brasil: o episódio do Riocentro, em 1981.</p>
<p>Não por acaso, cada cadeia deste país ainda hoje é um porão de torturas. E  esperamos, hipocritamente, que os condenados voltem recuperados para a sociedade e se tornem trabalhadores ordeiros. Todos os gestores – civis ou militares – sabem que jamais serão condenados caso enfiarem um prego nas mãos de um preso. Mas se, numa situação inversa e hipotética, o preso enfiar o mesmo prego nas mãos deste gestor (ou de um de seus subordinados), ele terá a justiça que merece – não a dos tribunais, mas aquela executada friamente nos casos de condenação sumária à morte que ocorrem, todos os dias, nos presídios e penitenciárias.</p>
<p>Vamos ao supermercado (esse espaço onde a classe média e alta quase levita, aproveitando a liberdade – de comprar – que o capitalismo contemporâneo lhes oferta) e adquirimos carne moída ao lado de um militar reformado que torturou cidadãos brasileiros durante a Ditadura. Ele sequer foi processado. Se quisermos estabelecer um Estado de Direito, é preciso ter claro que pelos acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário, a tortura é um crime hediondo e imprescritível. Ou seja, pouco importa se há uma lei de anistia ou não: é preciso julgar a todos os envolvidos, incluindo os membros das guerrilhas rurais e urbanas de esquerda.</p>
<p>É pena que Dilma Rousseff, que sofreu na pele os horrores da violência militar, não bancou a Comissão da Verdade nos moldes que ela foi proposta originalmente. Tratar-se-ia de uma comissão oficial criada para apurar – e julgar! – os crimes cometidos durante as Ditaduras, desde o início do Governo do general Eurico Gaspar Dutra, em 1946 até o ano de 1988. Todavia, a cúpula militar foi categórica e não concordou com o caráter judicial da Comissão. E o mais lamentável: os comandos do Exército, da Aeronáutica e da Marinha foram apoiados por Nelson Jobim (o ex-ministro do STF e ex-ministro da era FHC que se tornou, num passe de mágica, ministro da Defesa de Lula que o deixou como herança <em>mui amiga</em> para Dilma). Perceba-se: Jobim era um civil comandando militares, representante de um governo civil. Ele poderia (e deveria) ter cumprido uma demanda histórica da sociedade brasileira, mas barrou os poderes da Comissão.</p>
<p>Assim que os nomes forem selecionados (a presidente Dilma Rousseff, numa demora injustificada, ainda estuda os nomes), caberá apenas investigar – e não julgar! &#8211; os culpados. Ou seja, saberemos a verdade, mas nada faremos com ela. Nós a colocaremos numa prateleira e isso nos causará menos recalques. Diremos, com alívio: “Ao menos, sabemos os nomes dos culpados”. As mães, pais, irmãos, irmãs, filhos, filhas, maridos e esposas que tiveram seus entes queridos aniquilados pelo Estado Brasileiro não terão, em vida, o direito à justiça. Nós daremos a eles apenas o direito à verdade.</p>
<p>Ora, daqui em diante, sugiro que tenhamos a mesma postura ao investigar crimes considerados “normais”, como traficantes que matam e trucidam nas favelas brasileiras: não os condenaremos à prisão, apenas informaremos os nomes de cada um deles para que as famílias tomem o conhecimento da verdade.</p>
<p>Nunca é demais lembrar que a nossa vizinha, Argentina, condenou ex-presidentes e, ainda hoje penitencia militares que produziram atentados contra seus cidadãos. A discussão avança e, agora, a sociedade argentina também quer fazer justiça e condenar, se for o caso, os <em>montoneros </em>(guerrilha urbana de esquerda que chefiava sequestros e assassinatos daqueles considerados à serviço do Regime Militar).</p>
<p>É bom lembrar que a violência militar é pior do que aquela praticada pela população civil, por exemplo, em roubos ou latrocínios. Porque é uma violência estudada, disciplinada e com métodos quase científicos. O torturador tem uma pia para lavar as mãos do sangue da vítima. Ele irá enxugá-las com papel toalha comprado com o imposto do contribuinte. Depois disso, irá para casa assistir televisão com a família e comer pizza de quatro queijos.</p>
<p>O Estado de Exceção conduzido pelos militares é a cicatriz que não quer fechar justo porque levou a cabo uma violência oficial contra seus cidadãos por um longo período. E, o mais importante, aplicou essa violência contra os filhos de sua elite: estudantes, jornalistas, deputados, entre outros cidadãos foram torturados e assassinados. Talvez por isso (e só por isso) que esse Regime tenha sido questionado. Em contrapartida, em rebeliões de outrora (e de agora) tal qual Canudos, Cabanagem, Contestado, Carandiru (só para ficarmos nos movimentos legítimos de reivindicação da população por reconhecimento de direitos mínimos que começam com a letra “C”), o Estado assassinou meros camponeses e a população pobre em geral. Uma gente sem acesso à imprensa e a outras esferas do poder.</p>
<p><strong>É sorte</strong></p>
<p>É sorte que nem sempre foi assim. Um exemplo foi a geração de estudantes e professores franceses que colocaram em dúvida, por outros motivos, o <em>status quo</em> durante Março de 68. Foram às ruas de Paris, construíram barricadas com o calçamento e os automóveis revirados. Enquanto não enfrentavam a repressão policial chefiada pelo decadente general De Gaulle, discutiam com donas de casa, operários, enfim, com a população sobre a vida e o que dela esperavam.</p>
<p><strong>Revirar Brasília?</strong></p>
<p>Por aqui, não há uma Paris para revirar. A ficção comunista de Brasília (Oscar Niemeyer, esse gênio da linha com a visão de futuro mais inconsequente da arquitetura brasileira) afastou o local de articulação e decisão política dos brasileiros. Juscelino Kubitscheck sonhou com a cidade-piloto para entregá-la nas mãos do presidente mais louco (e divertido) que já tivemos, Jânio Quadros. Logo depois, os militares transformariam Brasília em um bunker de ultra-direita.</p>
<p><strong> Herzog e Markun </strong></p>
<p>A edição dominical da Folha de São Paulo de 5 de fevereiro de 2012 publicou matéria elucidativa, assinada por Lucas Ferraz, sobre a incrível e difícil história do fotógrafo Silvaldo Leung Vieira da Polícia Civil do Estado de São Paulo que, em 1975, fotografou o cadáver de Vladimir Herzog. O jornalista de origem judaica, então diretor da TV Cultura (ou seja, uma figura pública brasileira) foi assassinado após ser torturado. Meu colega de Coluna “Penso”, Paulo Markun, foi preso no mesmo dia que Herzog. Segundo ele, “o suicídio foi uma farsa total – Vlado teria se enforcado com um cinto do macacão que foi obrigado a vestir. Nenhum preso podia usar cinto ou cadarço nos sapatos”. Herzog e Markun foram presos no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), da Polícia Civil, tristemente famoso pela ação do delegado Sérgio Paranhos Fleury. Silvaldo entrou no cárcere onde se encontrava cenicamente pendurado o corpo do jornalista e foi obrigado a fazer a foto <em>[que se encontra na abertura desta post], </em>sem poder se aproximar do corpo já que, temendo a repercussão do caso, os agentes simularam um suicídio. Em outro &#8220;trabalho&#8221; semelhante, disse ironicamente ao oficial de plantão: &#8220;Aqui acontecem coisas estranhas&#8221;. Na ocasião da morte de Vlado, o rabino Henry Sobel assumiu uma postura ética invejável: negou-se a enterrá-lo na ala de suicidas do cemitério israelita do Butantã, num claro desafio ao Governo Militar.</p>
<p><em>* Texto publicado na coluna &#8220;Penso&#8221; do caderno Cultura do jornal Diário Catarinense, no dia 18 de fevereiro de 2012.</em></p>
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		<title>Férias: porque eu prefiro os dias inúteis*</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Jan 2012 19:43:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por um lado, o sujeito enfrenta um ano inteiro cujos dias dedicados ao trabalho são chamados de “úteis” – o que me faz pensar que, por esta lógica, os finais de semana e feriados seriam inúteis. Para se adequar ao ritmo do mundo do trabalho, que quase nunca coincide com o seu próprio, o mesmo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por um lado, o sujeito enfrenta um ano inteiro cujos dias dedicados ao trabalho são chamados de “úteis” – o que me faz pensar que, por esta lógica, os finais de semana e feriados seriam inúteis. Para se adequar ao ritmo do mundo do trabalho, que quase nunca coincide com o seu próprio, o mesmo sujeito trata de estabelecer alguns hábitos. Por exemplo, o modo como se desloca ao trabalho ou como pronuncia “bom-dia”; o horário que costuma acordar, almoçar e assim por diante.</p>
<p>As férias, por outro lado, desregulam os comportamentos estabelecidos que se tornaram, por força da repetição, rotina (muitas vezes compreendida como enfado, cansaço, recorrência). Assim – e somente assim – torna-se possível acordar mais tarde sem culpa, ir à praia em pleno dia de semana, restar-se absolutamente inerte sobre um sofá ou então, no caso do Carnaval, sair às ruas com máscaras e pouca roupa sem correr o risco de parecer louco ou indecente. Para muitos, as férias parecem devolver o sabor adocicado de viver. E mesmo para aqueles que não têm direito às férias, o Carnaval é outro momento para essa apoteose do ser.</p>
<p>Penso que há um mecanismo pendular em funcionamento. As pessoas costumam encarar o calendário com uma lógica cristã. Isso porque o imperativo moral, primeiro, ordena muito trabalhar – ação que leva ao sofrimento já que todo excesso pode ocasionar a dor. Somente depois é que o sujeito pode alcançar o justo direito de gozar da existência. Por sinal, para o cristianismo essa redenção final, quase orgástica, ocorrerá tão-somente quando o paraíso for instituído após o Julgamento Final.</p>
<p>Férias, como se diz com a graça do idioma: “Ficar de pernas para o ar”, “sombra e água fresca”. Ou, como diria a destrambelhada Emília, em todos os meses de abril (quando eram proclamadas as férias gerais, inclusive para a negra Tia Anastácia, no Sítio do Pica-Pau Amarelo): a ordem é lagartear! A boneca de pano de Monteiro Lobato exercitava um verbo esquisito (lagartear) ao invés do substantivo (lagarto) porque queria tornar humano um procedimento animal: descansar de modo retumbante, sem maiores preocupações, simplesmente deixar-se estar. Para se curtir as férias é preciso se des-programar, tornar-se um pouco animal e um pouco Emília.</p>
<p>O senso comum diria: “sair da rotina”. Fazer uma viagem tem sido a solução mais recorrente da modernidade. Há aqueles que vivem para viajar (uma condição utópica de nossos dias: viajar sempre e não precisar trabalhar). Abandonar o conforto do lar para se aventurar em outras paragens. É pena que viajar se tornou sinônimo de turismo nos dias de hoje. O turismo, de modo geral, é uma prática e um pensamento inócuo, uma indústria voltada para o deslocamento de imensos contingentes populacionais de um lado para o outro do globo terrestre, sem fazer com que esses trajetos possibilitem quaisquer efeitos intelectuais ou espirituais – salvo exceções.</p>
<p>Uma viagem bem poderia ser o momento para se vivenciar as diferenças de um outro que habita uma realidade distinta daquela do viajante. Contudo, cada vez mais, em termos turísticos, viajar é sinônimo do mesmo: se for à França é preciso ir ao Museu do Louvre (sendo que muitas vezes o indivíduo jamais pisou em um museu na sua própria cidade de origem), se você estiver em Buenos Aires deverá conhecer a Recoleta. O sujeito já sai de casa com um caminhão de compromissos e não deixa o acaso de um percurso tomar conta daquele momento. Sem falar naqueles que dizem conhecer um país após terem passado um ou dois dias lá: tinham “pouco tempo” porque era necessário conhecer outros países. Retornam com centenas de fotos enfadonhas e um repertório limitado de histórias. </p>
<p>O cineasta alemão Wim Wenders realizou recentemente no Brasil a exposição “Lugares, estranhos e quietos”. Gigantescas fotografias ocupavam um andar do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Cada uma delas havia sido tirada em um local diferente do planeta. No texto de abertura, ele narrou que quando chegava em qualquer cidade (Wenders é um viajante assíduo por conta de seu trabalho como cineasta) e alguém lhe informava que bastava virar à direita para encontrar um famoso ponto turístico, ele tomava o caminho oposto. Seu olhar estava interessado pelas coisas menos grandiloquentes de uma cidade. Seus cliques destacam coisas mínimas e quase invisíveis; o banal instalado em uma imensa superfície coberta pela imagem fotográfica. </p>
<p><strong>Além do mais</strong><strong> </strong></p>
<p><strong>As Férias do Sr. Hulot, de Jacques Tati</strong></p>
<p>Uma sugestão: se houve um homem do cinema, esse foi Jacques Tati. Seus filmes eram poesias em movimento, marcados pela compreensão precisa da relação entre as imagens e os sons. O riso surge pela sutileza e a atuação do próprio Tati encarnando o ingênuo personagem do Sr. Hulot é um dos pontos altos de todas as suas obras. Talvez, o autor mais brilhante da cinematografia (evidentemente, isso fica por conta da minha modesta opinião). Para quem não o conhece, fica aqui a dica. Aqueles que já o conhecem, um convite para revê-lo. Por sinal, existe um site interessantíssimo dedicado ao cineasta, chamado a “Cidade de Tati”: <a href="http://www.tativille.com/">http://www.tativille.com</a> </p>
<p><strong>Guia de viagem</strong></p>
<p>Se eu fosse um guia de viagens em Florianópolis, recomendaria o seguinte percurso: 1º) Estreito: apanhe uma fila na ponte. Descontraia. Ligue o som. Afinal, o que é uma hora de sua vida? Dirija-se ao bairro do Estreito, mais precisamente ao Balneário. É ali que moram os velhinhos – ou seja, grande parte da sabedoria desta cidade; 2º) Feiras: visite uma feira de bairro. As pessoas contam histórias ótimas, compram frutas frescas e biscoitos caseiros deliciosos (a maior iguaria brasileira, na minha opinião, não é a feijoada, mas sim os biscoitos de feira); 3º) Não fique apenas nessa Ilha vaidosa, há outros locais tão interessantes quanto Florianópolis. Vale a pena conhecer Jaguaruna, Laguna, Imbituba, Palhoça, entre outros locais próximos.</p>
<p><strong>Ócio criativo</strong></p>
<p>Recentemente, o Governo do Estado de Santa Catarina trouxe o filósofo Domenico de Masi para proferir palestras e consultorias sobre o dito “ócio criativo” aos tupiniquins. A idéia era embasar o turismo catarinense. Bastava conversar com um índio de qualquer etnia que ele teria muito mais a dizer sobre o assunto. Porém, como falar em italiano é mais chique do que qualquer idioma indígena, até que faz algum sentido. O resultado é a forma de turismo que hoje se pratica pelas bandas de cá – algo entre o abjeto e o estúpido – e jantares regados com champanhe entre o então governador Luiz Henrique da Silveira e o ilustre pensador. Talvez não por acaso, a bebida predileta nas areias de Jurerê Internacional seja o champanhe/espumante. É a bebida que supõe a exceção, que traz consigo a idéia de ser ingerida apenas em momentos muito especiais, que produz a fantasia de que se é diferente em meio à maioria.    </p>
<p><em>* Texto originalmente publicado na coluna &#8220;Penso&#8221; do caderno &#8220;Cultura&#8221; do  jornal Diário Catarinense, no dia 21 de janeiro de 2012.</em></p>
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		<title>Quase lá*</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Dec 2011 17:31:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Alô alô, irmão, como vão as coisas? Penso que ao ler essas linhas, o inverno já será certeza por aí. É bem possível que a neve seja sua parceira em forma de paisagem pelos próximos meses. Espero que o branco não canse demais seus olhos porque a nossa avó, disse-me ontem, falando sobre você: “Ele [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Alô alô, irmão, como vão as coisas? Penso que ao ler essas linhas, o inverno já será certeza por aí. É bem possível que a neve seja sua parceira em forma de paisagem pelos próximos meses. Espero que o branco não canse demais seus olhos porque a nossa avó, disse-me ontem, falando sobre você: “Ele não fala muito, mas basta ele me olhar, com aqueles olhinhos, que eu sei o que está sentindo, o amor que tem por mim”. Essa é a preceptora ancestral que nos ensinaram a chamar de avó: corpo miúdo, sabedoria imensa.</p>
<p>Eu e você ainda somos esboços desse saber e fazer da avó. Ainda não conseguimos acreditar que o mesmo deus que fez o mundo correr é aquele que o fará parar abruptamente. E se procurarmos sentido para isso jamais encontraremos nada além do que o acaso. Afinal, jogar dados é sempre uma experiência ganhadora posto que afirma suficientemente o poder do acaso ao invés de torná-lo probabilidade.</p>
<p>Veja lá: você teve caxumba, eu catapora. Você trabalha com computadores, eu com palavras. Seus cabelos são crespos, os meus raros. Você gosta do Japão, já eu da cidade de Tubarão. Se colocarmos japoneses e tubarões imersos no oceano, veremos o quão próximos podem ser coisas distoantes porque o mundo, quando se presta a isso, compõe arranjos improváveis (como a maior parte dos versos de Jorge Benjor). É apenas preciso estar atento para poder vivê-los.</p>
<p>Mano, aqui no Brasil as pessoas, em coro, continuam a reclamar de tudo. Queixam-se das metrópoles não planejadas, da corrupção endêmica, do trânsito caótico (esquecendo-se que elas próprias são parte dos congestionamentos). Milhões de e-mails disparados, folhas de jornais impressas, conversas travadas em torno do assunto, enfim, um aparato histérico que faz o mundo se tornar um lugar cada vez mais demandante e menos agradável para se viver.</p>
<p>Quem de nós tem uma vida planejada? E mesmo aqueles que acreditam nisso, qual planejamento se fez suceder exatamente àquilo que dele se esperava? Não seria demais esperar das cidades que construímos aquilo que não somos e nem jamais poderemos ser? Décadas atrás, o besouro John Lennon, sacou da letra de suas músicas uma frase cuja potência ainda hoje reverbera (posto que vez ou outra, geralmente nos momentos ruins, infelizmente, ela é lembrada). O zunido dizia: “a vida é aquilo que nos acontece enquanto você está planejando o futuro”. Muitos sentiram a verdade da frase mas a esqueceram diante do primeiro semáfaro aberto que os impeliu a seguir na direção de sempre. Sim, poucos de nós aprendem a dizer não.</p>
<p>Conta-se que o colombiano Héctor Abad Gómez, médico, professor e ativista dos direitos humanos, foi assassinado em 1987, em Medellín, justo no dia em que carregava no bolso o seguinte poema de Jorge Luis Borges cuja folha branca ficaria manchada de sangue: </p>
<p><em>“Já somos a ausência que seremos / </em><em>A poeira elementar que nos ignora / </em><em>e que foi o ruivo Adão e que é agora / </em><em>todos os homens e aqueles que seremos. / </em><em>Já somos na tumba as duas datas / </em><em>do princípio e do término, o caixão, / </em><em>a obscena corrupção e a mortalha, / </em><em>os ritos da morte e as elegias (&#8230;)”</em></p>
<p>Para enviar este texto para você, tive que esperar. Ele só foi impresso no dia 24 de dezembro de 2011, no caderno Cultura do Diário Catarinense. É meio parecido com aquele filme que você adora, “De Volta para o Futuro”, onde a personagem deve esperar uma carta enviada há mais de cem anos. Isso porque tenho a sensação de que o que escrevo já estava pronto, apenas esperando eu percebê-lo em algum lugar do corpo.</p>
<p>O dia em que o jornal que você tem agora em mãos for distribuído aqui no Brasil será véspera de Natal. Três dias atrás foi o solstício de verão no hemisfério sul, quando o dia mais longo gerou a noite mais breve do ano. É impressionante como ao descrevermos um mundo quase perfeito – de ritmos constantes, nascedouros ininterruptos, coisas assim – passamos a acreditar que é possível tornarmo-nos a sua imagem e semelhança. Em vão, imaginamos estratégias para mais viver. Inventamos deuses porque neles projetamos “aqueles que tudo podem”. Para legitimar esse gesto insano, passamos a cultuá-los (talvez como forma de jamais esquecermos de um grande erro).</p>
<p>É verão por cá, irmão, é vez do sol retomar a primazia do posto, tornar-se imperativo. Brilho tanto, a esquentar até o bico dos passarinhos, ninhos sobre telhados e casas e postes e árvores e terrenos baldios. Arrebatam jardins com cantorias, bater de asas, cores e correria muita. Na primavera tomei o primeiro banho de mar. A água até que estava quente, mas do lado de fora um vento frio zoava pescoços, entortando-os feito ferragem de construção.</p>
<p>A casa não cresceu, a barriga não vingou, o sorvete de menta continua no congelador. E eu com a impressão de que o breve está dentro de mim, de que o silêncio é a melhor mirada para contemplar a finitude e a eternidade. Feliz ano novo, querido. Em 2012, meu plano é não ter planos. No máximo, continuarei a escrever banalidades para você, da próxima vez por e-mail para não ter que gastar folhas tantas de jornal. Fique bem, faça o bem. Abraços do irmão mais novo.</p>
<p>p.s.: Veja só que passagem linda de Gilles Deleuze (por sinal, o mesmo que pensou aquela ideia sobre o jogo de dados que escrevi acima): “Na vida há uma espécie de torpeza, de fragilidade física, de constituição débil, de gagueira vital, que constitui o encanto de cada um. Aqueles que não têm encanto não têm vida, estão como que mortos”.</p>
<p>p.s. do p.s.: De modo geral, oferecemos dicas daquilo que conhecemos. Hoje vou fazer o contrário. Vou indicar um livro que não li. O título é “A ausência que seremos”. Ele foi escrito por Héctor Abad Faciolince, filho do médico colombiano assassinado que comentei acima. </p>
<p>p.s. do p.s. do p.s.: Esta carta é endereçada a você mas, quem sabe, sirva para aqueles que porventura nos leem nas páginas do Diário Catarinense. Afinal, todos somos irmãos: quem escreve, quem lê o que os outros escrevem, e até que não nada lê, não é mesmo?</p>
<p><em>* Carta publicada na coluna &#8220;Penso&#8221;, do caderno Cultura, do jornal Diário Catarinense de 24 de dezembro de 2011.  </em></p>
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		<title>Queijo continuum</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Oct 2011 23:31:10 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Com o passar do tempo, a  vida sucede em trejeitos inarredáveis. Faz do ordinário algo improvável. Assim se largam no mundo sujeitos  esquisitos que nem parecem nascidos de materno ventre. Alimentava-se de queijos desde criança;  ao passo que irmão, de linguiças e presuntos. Vegetarianos pais incentivavam  hábito monográfico do filho primeiro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Com o passar do tempo, a  vida sucede em trejeitos inarredáveis. Faz do ordinário algo improvável. Assim se largam no mundo sujeitos  esquisitos que nem parecem nascidos de materno ventre. Alimentava-se de queijos desde criança;  ao passo que irmão, de linguiças e presuntos. Vegetarianos pais incentivavam  hábito monográfico do filho primeiro e legavam ao outro, precoce  transgressor, o plano segundo. Anos a passar, corpos se alongam e  cada qual desenha na lousa da existência comportamentos padrões – como  se fosse possível assim conferir um aspecto <em>continuum</em> para algo  tão breve quanto uma vida. Ele velho ainda a gostar de queijos. Em  geladeira, caixa com tabletes de todo tipo. O tempo livre inspirou jogo  todo-próprio onde ele se divertia em misturar queijos diversos, em  tamanhos equânimes e precisos. Esmerava-se em redimir imperfeições,  furos, em construir esculturas minimalistas em pequena escala, cubos  perfeitamente exatos. A diferi-los, apenas as cores, impasse logo  resolvido com tinta digerível e inodora que conferia o mesmo padrão de  cor para cada pedaço. Em mesa ampla, negra e com iluminação direcionada,  dispunha dos pedaços de queijo sobre o plano,  fechava os olhos para delegar ao tato a responsabilidade primeira de  contato, quase sacro, junto ao corpo breve devorar.</p>
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		<title>Penso Bienal, nem pensar (ainda)*</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Sep 2011 23:23:55 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[A abertura da sexta edição da Bienal do Vento Sul em Curitiba e da  oitava Bienal do Mercosul em Porto Alegre, no mês passado, fez ressurgir  o velho complexo de inferioridade no meio cultural local: “Seremos  sempre o ‘zero’ da BR-101?”, perguntam-se atônitos, alguns artistas,  gestores e produtores culturais diante da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A abertura da sexta edição da Bienal do Vento Sul em Curitiba e da  oitava Bienal do Mercosul em Porto Alegre, no mês passado, fez ressurgir  o velho complexo de inferioridade no meio cultural local: “Seremos  sempre o ‘zero’ da BR-101?”, perguntam-se atônitos, alguns artistas,  gestores e produtores culturais diante da carência de eventos análogos  pelas bandas de cá.</p>
<p>Em Santa Catarina, uma bienal seria um  desastre anunciado para as contas públicas tal qual a Copa do Mundo de  2014 no Brasil. O Balé Bolshoi, instalado em Joinville, não deixa de  prestar ótimos serviços em relação àquilo que se propõe. Contudo, será  que vale realmente o montante dos recursos públicos investidos a cada  ano? Não seria melhor criar escolas locais, em diversas cidades,  democratizando o acesso à dança? Em contrapartida, inúmeros projetos  culturais de instituições de utilidade pública, com mérito cultural e  contrapartidas sociais reconhecidamente comprovadas, carecem do mínimo  apoio, nesta terra de ninguém que se chama Santa Catarina.</p>
<p>É  preciso, antes de qualquer coisa, colocar a casa em ordem. E, para  tanto, é fundamental abolir a lógica dos eventos e fomentar museus,  centros culturais, financiar bolsas e residências artísticas, estimular a  formação, a preservação, a pesquisa, a produção e a circulação. E isso  se faz por meio de editais públicos transparentes.</p>
<p>Por isso, é  salutar a ausência de uma bienal em no Estado, já que não deixa de ser  uma espécie de Rock in Rio das artes visuais. A analogia pode ser um  tanto grosseira, mas uma bienal fomenta o estabelecido, dificilmente  consegue propor experimentações, estímulo aos coletivos ou projetos  educativos duradouros. É onde o mainstream se encontra, o mercado se  aquece, os artistas e curadores engordam seus currículos, as companhias  aéreas vendem mais bilhetes e as colunas sociais ficam repletas de  fotografias constrangedoras.</p>
<p>Em uma bienal, o discurso da  curadoria – que seleciona os artistas, trabalhos e os organizam no  espaço – tende a achatar aquilo que há de singular em cada proposição  artística. Engendra-se uma unidade conceitual insustentável para um  conjunto de obras díspares. Ao final de qualquer bienal, a sensação é  que a lógica que a sustenta é tão somente de ordem econômica: fomenta-se  galerias, o turismo, as livrarias, os restaurantes, menos a  capilaridade do circuito artístico.</p>
<p>Eventos desta natureza  respondem por uma lógica superlativa em descompasso com a produção  artística que tem se dedicado a elaborar uma poética que dê conta da  fragilidade, da ruína e da dimensão absolutamente oca que se transformou  o viver na contemporaneidade (para citar alguns que já se foram, basta  lembrar Bispo do Rosário, Leonilson e Mira Schendel). Não obstante, a  lógica dos grandes eventos que tomou de assalto a produção cultural  brasileira considera o ápice de uma carreira a realização de um  longa-metragem, um grande espetáculo teatral ou, no presente caso, a  participação em uma bienal de artes (uma noção romântica do que é ser  artista baseada, talvez, no status dos antigos Salões de Paris).</p>
<p>Para  uma bienal, é preciso esforço sobre-humano, orçamento milionário,  serviços de contabilidade, patrocinadores que pouco ou nada se  relacionam com a proposta em questão. Saudades do tempo em que se  montavam exposições de um dia para o outro, pela simples vontade e  necessidade de fazê-las, sem se preocupar com a retórica exigida pelas  leis de incentivo à cultura. Neste momento, vale lembrar o circo (não  por acaso, em processo de decadência), que tem muito a ensinar:  instala-se em uma cidade, faz erguer a lona e logo o picadeiro está  pronto para a diversão.</p>
<p><strong>Além do mais&#8230; Com pouco, faz-se muito</strong></p>
<p>No  ano passado e neste ano, exposições e iniciativas interessantíssimas  ocorreram e não necessariamente dispenderam grandes recursos. A artista e  pesquisadora Lucila Vilela realizou o projeto Casa, com a articulação  entre as artes visuais, o teatro, a música, a dança e o audiovisual (é  possível conferir o catálogo virtual em <a href="http://www.interartive.org/casa.html" target="_blank">www.interartive.org/casa.html</a>).  Recentemente, em Joinville, Fernando Lindote realizou uma impressionante  exposição individual que ocupou o Museu de Arte de Joinville (MAJ). O  Instituto Meyer Filho, em Florianópolis, tem promovido uma excelente  programação. Em Chapecó, artistas visuais com trabalhos consistentes se  organizam em uma associação para promover mostras, formações e outras  atividades.</p>
<p><strong>A poética do pouco</strong></p>
<p>Alguns artistas partem do pouco, do quase nada. Um deles é Carlos  Asp. Certa vez, disse que não era preciso voltar ao gênero da paisagem  nas artes visuais porque, segundo ele, “eu já estou nela”. Em seus  desenhos, ele fala do céu, do azul, do mar verde, das pedras negras na  areia grossa. Asp escreve. Eu também. Este texto é um desenho para  cegos.</p>
<p><em>* Texto originalmente publicado na coluna &#8220;Penso&#8221; do Caderno Cultura, do Diário Catarinense, em primeiro de outubro de 2011.</em></p>
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		<title>a g r i d o c e</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Aug 2011 01:07:22 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Ela, pequenos incidentes construção inacabada envolvidos noite e silêncios. Ele, tecer bonecas negras porque de branco já farinha e governos. Cigarros na cobertura de algo que sequer insiste. Decidiram romper porque laços nem mais vestidos. Tão-somente agridoce é que o céu existe.</p>
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		<title>Estar tênue vazio</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Apr 2011 01:39:10 +0000</pubDate>
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a força que faz seguir                 naquele sentido
potente e presente.
Naquela mesma esquina
força alguma que poderia imaginá-la
desde coisas que não mais lá estão:
um cachorro morto há 23 anos,
a escarradeira da antiga loja de tecidos,
um poste desativado pela iluminação subterrânea.
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Cerca de uma esquina</p>
<p>a força que faz seguir                 naquele sentido</p>
<p>potente e presente.</p>
<p>Naquela mesma esquina</p>
<p>força alguma que poderia imaginá-la</p>
<p>desde coisas que não mais lá estão:</p>
<p>um cachorro morto há 23 anos,</p>
<p>a escarradeira da antiga loja de tecidos,</p>
<p>um poste desativado pela iluminação subterrânea.</p>
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		<title>Simpatia</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Apr 2011 01:33:14 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Atenção: simpatia infalível para conquistar o seu amor. Leia essa (se é que você já não a conhece&#8230;): “Numa sexta-feira de lua crescente, após às 21 horas, despetale uma rosa vermelha e escreva em cada uma delas, com um espinho da própria rosa, o nome da pessoa amada. Após isso, atire as pétalas em água corrente e espere o resultado”. Uma simpatia é uma jogada com o improvável. Surge no instante em que a lógica racional não mais dá conta do real. Uma crise, um fracasso, uma doença, um desamor: qualquer situação pode servir de pretexto para uma simpatia que, em última instância, promete instaurar uma ficção no lugar de uma realidade não desejada (afinal, o que é a arte senão, em parte, este esforço insano ao longo dos séculos?). Geralmente, o corpo é o objeto central de uma simpatia. Quem faz uma simpatia deseja alterar a relação de um corpo com a realidade, seja para o bem, seja para o mal (como ocorre nas sempre úteis <em>mandingas</em>). Para tanto, é preciso seguir a risca uma espécie de livro de receitas que fornece as instruções para uma sequência de ações muitas vezes desconexas. Diego de los Campos se utilizou nestes vídeos do <em>stop-motion</em> (técnica de animação cinematográfica onde o modelo – no caso, o próprio artista – é fotografado quadro a quadro). Com humor, leveza e despretensão, talvez as principais características da trajetória de Diego, surge diante de nossos olhos lances improváveis em torno de seu autoretrato que, a todo instante, flertam com o apagamento da memória e identidade do próprio artista.</p>
<p>Acesse abaixo, um dos vídeos da exposição.</p>
<p><span style="color: #0000ff;"><a href="../wp-content/uploads/2011/04/purgue-a.wmv">purgue a</a></span></p>
<p>&#8212;</p>
<p>Texto redigido para a exposição &#8220;Simpatia&#8221;, do artista Diego de los Campos, no Museu Victor Meirelles, de 27 de abril a 23 de junho de 2011.</p>
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