Tenha fé*

Penso que somos todos homens e mulheres de fé. E ao escrever “fé”, não me refiro à religião mas sim ao poder da crença que legitima nossas existências e que delimita nossos desejos. Alguns exemplos: a) aqueles que acreditam em OVNIS são homens de fé; b) Fábio Brüggemann, nobre colega cujo texto publicado na semana passada nesta coluna foi dedicado a defender a arte, de modo vibrante, também pratica sua fé; c) esse que vos fala e que tem o hábito de plantar temperos em míseros vasos de barro (e que nesses tempos de seca tem que regá-los todos os dias esperando que sirvam para o preparo do alimento) também é um homem de fé.

De minha parte, prefiro crer em pés de pimenta que são bem mais importantes do que a arte, o patrimônio, os concursos públicos, os vinhos, o matrimônio, seja o que for. Por sinal, uma das motivações das grandes navegações do século XV foi o comércio de especiarias que nada mais eram do que produtos de origem vegetal. Em última instância, um pé de pimenta pode ter sido mais decisivo para a ocupação por parte dos europeus do chamado Novo Mundo do que o próprio Américo Vespúcio.

Analisemos com calma: gerações e gerações têm acreditado na força da lei, do casamento, da cultura e da aquisição de bens. E olhe aonde chegamos? Aliás, tenho certeza que a agricultura familiar e orgânica, muito em breve, será o grande sistema de saber da humanidade já que precisamos, antes de qualquer coisa, comer bem. Hoje em dia fazemos de tudo: conversamos com pessoas no outro lado do mundo, ingerimos medicamentos que aliviam até mesmo a dor de existir (os anti-depressivos), andamos de um lado para o outro do planeta em veículos e aviões potentes, mas não conseguimos nos alimentar corretamente. Deixamo-nos consumir pela indústria de alimentos que conseguiu aniquilar nutrientes e nos deu, em troca, toxinas. Pois bem, não há corpo que fique rijo sobre a terra se alimentando de toxinas.

Em breve deveremos reaprender a plantar e a preparar aquilo que colheremos. A palavra “evolução” terá que ser reinventada já que, em boa medida, procederemos com uma volta no tempo. Teremos, ainda, a missão de reorganizar a jornada de trabalho de modo que nos reste tempo para o cultivo de alimentos. Os bancos deverão ampliar linhas de créditos para a agricultura de pequeno porte e o Estado subsidiar a compra de estoques para manter aqueles poucos que ainda restam no campo. Será preciso, ainda, incentivar as novas gerações a trabalharem com a agricultura já que o trabalhador rural envelheceu e seus filhos foram mandados para a cidade grande para estudar (e consumir toxinas da indústria de alimentos, num ciclo nada inteligível).

Por séculos dedicamo-nos a esquecer de nosso pretérito rural e a engendrar sistemas de saber que logo se transformaram em instrumentos de poder. O direito, a agronomia, o jornalismo, a ciência, a literatura, tudo virou instituição e/ou disciplina acadêmica. Aos poucos, delegamos aos juízes, professores e aos pesquisadores o privilégio do conhecimento e os autorizamos a nos dizer o que (e como) as coisas devem ser feitas. A maior parte desses profissionais, por sinal, recebem seus salários por meio do Estado, sintoma de que o conhecimento que temos acesso nos dias de hoje é também uma das formas de se manter o status quo.

A vida não tem regras: quem as estabelecem são as pessoas que a vivem para poderem melhor controlá-la. Antes de qualquer coisa, precisamos respeitar a vida e, somente depois, aqueles que falam sobre ela. É pena que, como bem disse o escritor Louis-Ferdinand Céline (1894-1861), a “experiência é uma lâmpada fraca que só ilumina aquele que a carrega”. Ora, se o saber sobre o viver – isso que chamamos de “experiência” – é uma lâmpada fraca, então sua propagação é rarefeita. É difícil comunicá-lo ao outro posto que se assemelhe a uma vela cuja luminosidade nunca é suficiente para esclarecer as vidas em seu entorno. Paradoxalmente, cada vez mais, precisamos de muita energia para viver. Tomamos coquetéis de vitaminas, iluminamos ruas e terrenos para não serem invadidos por bandidos, abastecemos casas com redes elétricas cada vez mais potentes para fazerem funcionar os equipamentos que definem nossas rotinas. Não obstante, ao acordar nesses dias quentes de verão, quando as lâmpadas estão apagadas, os aparelhos desligados e luz do sol reina indiferente, pergunto-me: para que tudo isso?

Além do mais

Globo Rural

Os canais educativos até que se esforçam. Mas ainda não inventaram nada melhor do que o Globo Rural. Ligue sua TV nas manhãs de domingo ou nas madrugadas dos dias de semana e você terá o melhor programa da televisão brasileira. O agricultor lá do interior envia uma pergunta querendo saber o motivo pelo qual sua plantação de melancia não vingou. A produção do programa vai até um especialista e ele ensina como obter uma colheita eficiente, com uma série de dicas sobre irrigação, adubação e o aproveitamento do solo. Bem que a televisão poderia ser sempre assim: um canal de comunicação entre as pessoas, espaço para a troca de conhecimentos e de saberes. E não esse infindável blá-blá-blá das telenovelas e dos telejornais.

Produtos orgânicos: o olho do consumidor

Em 2009 o Ministério da Agricultura editou uma cartilha sobre como o consumidor pode identificar e fazer uso dos produtos orgânicos. Ilustrada por Ziraldo, a cartilha se encontra disponível em http://www.agricultura.gov.br/desenvolvimento-sustentavel/organicos/publicacoes A proposta é divulgar o selo do SISORG (Sistema Brasileiro de Avaliação de Conformidade Orgânica) que pretende padronizar, identificar e valorizar produtos orgânicos. Vale a pena acessar.

Nietzsche e uma verdade

Um belo dia, Friedrich Nietzsche (1844-1900) pensou: “Deve-se falar somente quando não se pode calar; e falar somente daquilo que se superou – tudo o mais é tagarelice, ‘literatura’, falta de disciplina”. Pois bem, pouco resta a dizer após esse aforismo. Porque conjugá-lo ao limite significa admitir que o texto que você agora lê é absolutamente desnecessário assim como as páginas que o precederam neste jornal podem ser entendidas como pura tagarelices.

* Texto publicado no jornal Diário Catarinense, caderno Cultura, coluna “Penso”, em 17 de março de 2012.


3 comentários:

  1. Helen Cristina Ferreira says:

    Caro amigo Fernando:

    Esse texto é um espetáculo, em sua simplicidade e sinceridade… aspectos em falta em nossas vidas e “experiências” mundanas.
    Compartilho de seu sentimento que também define o valor da terra, não em termos financeiros, mas na sacralidade de tudo aquilo que generosamente ela nos oferta. O alimento que ingerimos é parte desta benção diária que aprendemos a rotinizar e “profanar” como tudo mais… sim, os pimentões, abobrinhas, ervas, tomates e flores, merecem nossas reverências…diariamente. Hoje fiquei roçando minha roça minúscula embutida em um apartamento no meio de são Paulo, sentindo em minhas mãos a verdade e a sinceridade do ato.
    Grande abraço. …e VIVA os pimentões e pimentas orgânicos!

  2. ‘Felix qui po,uit rerum cognoscere causas’, ou seja, Feliz aquele que pode perscrutar as causas das coisas. (Versos de Virgílio, Geórgicas,II, 489 ), celebrando a felicidade dos espíritos superiores, que profundam os segredos da natureza e descobrem as causas íntimas dos fenômenos.

    Grande abraço.

  3. Thobias says:

    Parabéns Fernando ..pelo texto
    infelizmente esses bons programas , passam somente em horarios ruins ;ou muito cedo ou muito tarde..
    e infelizmente vivemos em um País onde nao se investe em educacao…onde a inversao de valores e grande…
    valeu
    abraco

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