Sobre os 2000’s
Publicado em 1 de janeiro de 2010
Talvez a primeira coisa a ser anotada é que não existem mais vanguardas. A ideia de ação coletiva foi para o espaço junto com a Apollo 13. Agora, a psiquiatria aliada à neurologia tornaram-se o stablishment do indivíduo, produzindo medicamentos que anestesiam a dor de existir. Se no século passado a ausência de liberdade era o problema e animava as vanguardas, agora padecemos pelo excesso de tudo. Terminamos a década na gelada Copenhagen discutindo a impossibilidade de mais emissões de gases na atmosfera. Antes disso, a queda do muro de Berlim, que assinalou o início dos 1990, foi logo contraposta pela construção de uma outra muralha, desta vez maior e mais onerosa, aquela que hoje separa palestinos e israelenses. O capitalismo abstraiu todas as divisões e fez de computadores conectados plataformas portáteis do exercício do consumo. Foi por meio destas telas que soubemos em primeira mão do evento que realmente encerrou a década: no dia 25/06/2009, o negro Michael Jackson morreu branco e anestesiado em sua mansão em Los Angeles.
*** Este breve texto é uma resposta a questão lançada pela amiga e editora do jornal “Notícias do Dia”, Néri Pedroso, às vésperas de 2010: “A primeira década do século 20 foi uma das mais marcantes, um período que as vanguardas artísticas mudaram quase tudo. O que você destacaria no campo da existência e da cultura na primeira década do século 21?” As perguntas foram enviadas para várias pessoas do campo da arte e da produção cultural de Florianópolis. As respostas foram publicadas na edição do dia primeiro de janeiro de 2010.