PROTESTA*

Acreditava-se, ordinariamente, na estabilidade da terra e das coisas que por ela se distribuíam. Meses antes, no entanto, alguns moradores perceberam fenômeno ímpar: rebocos rachavam, estruturas trincavam. Parte de duas residências e mesmo prédio público inteiro foram ao chão. Avisados pela população, as empresas de engenharia e as autoridades tratavam de responder, laconicamente, que nada havia a temer, que os materiais estavam “trabalhando conforme suas dinâmicas internas”.

Sabe-se agora que se tratava do início de uma atividade sísmica que culminaria no 29 de fevereiro do ano do centenário da morte do prefeito C. S. Filho. Os historiadores convencionaram referir-se a esta data, hoje, simplesmente, como “o 29”.

Neste dia, as rachaduras se fizeram fendas, as fendas crateras; as portas foram escancaradas, os telhados se descobriram. A certidão das coisas dadas foi arraigada. Era como se a própria terra, imensa, acordasse por alguns segundos para um exercício qualquer, após milênios de inércia. Um alongamento, uma flexão ordinária, não fosse o fato de estarem agarradas, sobre ela, milhares de toneladas de construções humanas. Como num liquidificador, tudo parecia com tudo. A terra estava arrasada.

Depois fez frio. E caiu um aguaceiro, por dias. Até que se fez uma imensa claridade crua. A luz foi tanta que os olhos cegaram; tamanho clarão, que foi preciso reconstruir paredes, tetos, cerrar cortinas nas janelas. Rearranjar aquilo que o abalo deixara vazio.

Esse processo de reconstrução levou mais de quatro anos, para que do caos sobreviesse, novamente, algo parecido com uma cidade. Ao cabo de mais dois invernos, as coisas novamente pareciam estáveis e, por analogia, as pessoas passaram a reconsiderar o mundo como algo duradouro. Durante este período, no entanto – mesmo após a reconstrução de casas e hospícios, padarias e redações de jornais, escolas e canis, hospitais e salas de tortura, enfim, das construções vitais para se viver em comunidade e em paz – um impasse se instalou.

A praça central daquela cidade não podia ser reinaugurada, embora os recursos, materiais e mão de obra estivessem a disposição. Ocorria que todos, sem exceção, estavam esquecidos dos desenhos que ornavam o piso antes do tremor. É caso de se dizer que não se tratava de simples calçada, mas sim de um mosaico português, tombado como patrimônio histórico, trabalho que remontava aos mestres calceteiros lisboetas. Feito com pedras portuguesas ou petit-pavés, esse tipo de revestimento predispõe-se ao decorativo e ao figurativo, entre a pedra preta e a branca, com jogos possíveis de alternâncias, repetições e ausências, a depender do arabesco almejado e do humor do artífice.

A força da lei que a declarava patrimônio, impeditiva, não autorizava que se reinventasse um novo piso sem que se mantivesse as características originais do de outrora (embora esse fosse o desejo íntimo do prefeito C. S. Neto: dar outra forma àquilo, reinaugurá-la o quanto antes já que se transformara na maior polêmica de seu mandato).

Mas não lhe foi possível. E ele entrou para o anedotário da história política da cidade como o prefeito sem memória, que não conseguira lembrar das imagens que estavam no piso da praça pela qual passava todos os dias antes do abalo. Na verdade, nem ele, nem seu sucessor, muito menos qualquer outro cidadão de bem (ou de mal) conseguiram se recordar de imagem alguma. Estavam ocupados demais em planejar o futuro e enterrar os seus mortos.

Além do mais

Largado

Antes da construção do piso com pedras portuguesas, conta-se que a praça era simplesmente um largo. Termo aberto, “largo” presta-se a definir lugares ainda não definidos: não são praças, nem parques, nem mirantes, nem jardins, nem coisa alguma. São apenas espaços amplos, vastos, enfim, largos. Arrastam-se pelo tempo, desclassificados.

Nos anais da história

Fenômeno singular, registrado pelos historiadores, é que este e outros largos possuíam uma imanente capacidade para atrair vagabundos, águas paradas, animais baldios, prostitutas, pernilongos, enfim, uma variedade de tipos que compõe não exatamente a paisagem mais apreciada pela boa gente da sociedade local.

O Brasil não está em crise, portanto, esqueçam

“Em sua fase de prosperidade, as sociedades industriais não suscitam revolução, ainda que eu seu seio se desenvolvam grupos revolucionários. A ressurgência, em 1968, de todo o velho socialismo utópico e libertário que os políticos de esquerda haviam lançado nas lixeiras da história é capital, não por causa de seu impacto, que permaneceu medíocre, mas por sua presença difusa na consciência humana, como alternativa eventual a uma situação explosiva. Eis o tesouro que devemos cultivar.” (Maurice Joyeux, “Reflexões sobre a anarquia”)

* Publicado na coluna Penso do caderno Cultura do jornal Diário Catarinense em 6 de maio de 2013.


Um comentário:

  1. Rafael Pereira says:

    Boppré, adorei a descrição dos mestres calceteiros lisboetas!abraço

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