Por um pouco de indignação e coragem aos museus*

“Você sabia que as obras de grandes artistas estão aqui?”. Este é o anúncio do outdoor localizado em frente ao Centro Integrado de Cultura (CIC) onde está localizado o Museu de Arte de Santa Catarina (MASC), em Florianópolis. Ao ler esta peça publicitária, não pude me conter e dei boas risadas imaginando que o artista Toulouse-Lautrec (1861-1903) não entraria no acervo do MASC, afinal ele media um pouco mais de 1,50 metros (em virtude de uma doença óssea adquirida durante a infância).

Dúvida: será que os museus deveriam apresentar e divulgar apenas “grandes artistas”? Quando se propagandeia que num local existem grandes artistas, de algum modo, você está exigindo, por tabela, um grande visitante. É deste modo que há anos muitos museus vêm afastando o público de seus acervos. Em Santa Catarina, os espaços museológicos estão às moscas. Estamos na contramão da história já que em São Paulo e no Rio de Janeiro os índices de visitação às exposições aumentaram exponencialmente. A revista britânica “The Art Newspaper” publicou recente pesquisa em que o Brasil aparece com a exposição mais visitada do mundo no ano de 2011. “O Mundo Mágico de Escher”, realizada no Centro Cultural do Banco do Brasil do Rio de Janeiro, contabilizou uma média de 9.677 visitantes por dia.

Em Florianópolis, se uma exposição de arte receber mais de cem visitantes espontâneos em um dia, é preciso abrir licitação, adquirir e estourar fogos de artifício e, enfim, comemorar. Se não fosse o valoroso trabalho dos educadores dos museus que se dedicam a convidar e receber, em sua maioria, crianças e adolescentes escolares, as estatísticas de visitação seriam catastróficas. Esses números só se alteram por ocasião de grandes eventos, como a vinda de “Primeira Missa no Brasil” (1861), de Victor Meirelles, que levou milhares de visitantes ao MASC, no ano de 2008.

Há ainda uma história a se escrever relativa aos museus locais. Contudo, é possível afirmar, desde já, a partir de conversas com antigos funcionários e da leitura dos livros de frequência, que a visitação nas décadas de 1960 e 1970 era consideravelmente maior do que aquela que se registra atualmente. Como isso pode acontecer tendo em vista que a população e a escolaridade aumentaram no Brasil nas últimas décadas? Será que fenômenos como a internet afastaram o público das exposições?

São questões que ainda não foram enfrentadas pela maior parte dos museus. Ainda que a rede mundial de computadores possa ter ocasionado o afastamento presencial do público, isso não deixa de ser um problema dos museus que não souberam se preparar para receber os novos visitantes em tempos virtuais. Aqui em Santa Catarina, quais museus dispõem além das salas de exposição, de espaços de convivência às pessoas? O público poderia visitar com frequência as atividades oferecidas e, ainda, utilizar os museus como espécies de praças, pontos de encontro e vivência social.

Algo inadmissível é o fechamento parcial do jardim do Museu Histórico de Santa Catarina (Palácio Cruz e Sousa) que foi remodelado com dinheiro público, mas que se encontra com o portão principal de acesso (na Rua Trajano) vedado ao mesmo público. Aliás, por que foi construído, também em seu jardim, o memorial em homenagem a Cruz e Sousa? Ali não deveria funcionar um café? Qual o retorno social do recurso público investido? Aquele espaço estratégico, situado no coração da cidade, deveria estar à disposição da comunidade.

A verdade é que há um esgotamento do modelo de museu pelas bandas de cá. Aliás, esse é o destino de todo museu que se negar a conhecer a realidade em que está inserido e que não promova, sistematicamente, pesquisas em seus acervos e avaliações junto ao público. Existe luz no fim do túnel? Ainda que não exista uma receita de bolo para todos os museus, algumas medidas simples podem reaproximar as pessoas desses equipamentos culturais. Que tal os museus oferecerem serviço gratuito de Wi-fi para seus visitantes? As bibliotecas já fizeram isso há algum tempo, mas os museus ainda continuam acreditando que um bloco de anotações vendido em suas lojinhas é o suficiente para que o visitante tome suas notas e faça suas pesquisas (posteriormente).

Numa sociedade que se quer democrática os acervos museológicos também deveriam incluir obras consideradas “medianas” ou “pequenas” (e não apenas aquelas consideradas como “grandes obras”, ainda que essa nomenclatura seja inadequada). A arte não é uma questão de escala (maior ou menor), muito menos de juízo de valor (melhor ou pior). Se for o caso de defini-la por categorias, que se deixe essa tarefa para a crítica de arte. É preciso compreender que tanto os artistas quanto seus trabalhos são um conjunto orgânico e que todas as partes têm direito de usufruir dos bens públicos e de estarem representados em seus espaços de memória.

Os museus com acervos artísticos não deveriam ser pautados somente pela história da arte ou pelo gosto dos curadores (que, como toda a história até o século XIX, continua sendo a história dos vencedores, ou seja, dos artistas consagrados). Eles deveriam abrir suas portas para a arte dos indígenas (cuja exposição está relegada às calçadas imundas das grandes cidades), para a arte de rua (desde o graffiti até aquele senhor que vende suas obras no passeio público). Enfim, os museus deveriam ser o espaço de encontro das diferenças e não de afirmação de apenas uma forma de arte (contemporânea, moderna, seja o que for).
Talvez seja preciso reinventar os museus e isso pode começar pelo questionamento radical das práticas de colecionismo. Como bem lembra Manuel Borja-Villel, diretor do Museu Reina Sofía, de Madri, a imensa maioria dos espaços museológicos está baseada na ideia de propriedade, ou seja, na acumulação de objetos em suas reservas técnicas e salas de exposições. Não seria função dos museus questionar a mercantilização da arte e da existência? Uma postura crítica por parte dos museus poderia atingir a lógica do mercado da arte. Recentemente, um leilão da tela “O Grito”, de Edvard Munch (1863-1944), realizado pela Sotheby´s, alcançou a cifra aproximada de 120 milhões de dólares.
A lógica inflacionada do mercado da arte está se tornando cada vez mais parecida àquela das bolsas de valores. Essa e outras questões estão em aberto e é bem possível que sejam necessárias algumas gerações de profissionais para se alterar este panorama. Há esperança e, como dizia Santo Agostinho, é preciso ficar de olho nas duas lindas filhas dessa velha senhora: “a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las”.

O novo Museu de Arqueologia e Etnologia
O antigo Museu Universitário Professor Oswaldo Rodrigues Cabral abriu, no mês passado, seu novo pavilhão de exposições após mais de cinco anos em que esteve fechado para mostras. E agora tem novo nome: Museu de Arqueologia e Etnologia (MArquE). Como marketing é tudo (lamentavelmente, até mesmo no ambiente cultural) divulgou-se que se tratava do maior museu do tipo no Sul do País. Novamente, a lógica maiúscula e grandiloquente, desnecessária a um ambiente universitário. Um dos maiores trunfos do MArquE é contar com uma equipe de pesquisadores de primeira linha. Agora, o trabalho será promover um programa de exposições privilegiando mostras de seu acervo (além da obra completa de Franklin Cascaes, o MArquE possui um acervo de cultura popular interessantíssimo, dentre outras coleções) assim como oferecer uma ação cultural e educativa para a comunidade acadêmica e não-acadêmica. Espera-se que a nova reitora da Universidade Federal de Santa Catarina dê atenção especial ao espaço.

* Texto publicado na coluna “Penso” do Caderno Cultura do jornal Diário Catarinense no dia 12 de maio de 2012.


8 comentários:

  1. Rita Coitinho says:

    Certeiro, Fernando!

  2. Priscila says:

    Olá Fernando,
    Sou arte-educadora e recentemente conversava sobre isso com minha coordenadora, tentando mapear locais que contemplassem visitas de estudos com os alunos da escola onde trabalho. Com muita argumentação, consegui levá-los (1º ano do Ensino Médio) à Curitiba – ao MON e outros espaços culturais de lá. Adivinha a reação? Encantamento, brilho nos olhos, prazer, conhecimento…
    Ao menos uma vez por ano realizo saídas a um museu daqui, geralmente MVM, MHSC, MASC. Ocorre que está se tornando repetitivo. O Museu Victor Meirelles, por exemplo, oferece um espaço muito pequeno, quase impraticável com turmas grandes (como é o caso das minhas), e o acervo é quase sempre o mesmo, sem falar na acessibilidade de pessoas com deficiência, por exemplo. No Memorial Meyer Filho, o mesmo problema de espaço e acessibilidade; O MASC oferece uma exposição creio que permanente, sobre a história do mesmo, a qual já visitamos ano passado.
    No discurso dos próprios alunos está surgindo uma crítica bastante acentuada à SC, já que eles conheceram Curitiba e traçam comparações, questionando a grotesca diferença em relação às outras capitais.
    O CIC, por exemplo, mesmo após a reabertura do MASC, tornou-se um espaço nada convidativo. Perdeu sua identidade, não tem o calor que um museu pode (e deve oferecer). Tornou-se um espaço frio, vazio, sem alma, sem gente, sem Café Matisse, sem o fundo musical do MIS, sem entra e sai de gente, sem aqueles cartazes fantásticos do cinema francês…Tenho a sensação de que estamos andando pra trás, na contramão da ascensão, recuando…desestimulando em vez de fazer justamente o oposto…

    • admin says:

      Cara Priscila,
      desculpe-me pela demora em respondê-la. Vamos lá: concordo com você, o panorama de museus e espaços artísticos e/ou culturais aqui de Florianópolis está um tanto defasado (sobretudo se pensarmos em questões como acessibilidade, por exemplo). Um dos grandes problemas é a infra-estrutura: espaços reduzidos, sem condições ambientais (muito calor, por exemplo, é uma queixa comum para quem visita os museus), equipes reduzidas para o atendimento ao público (incluindo as escolas).

      Sobre o Museu Victor Meirelles, como trabalho lá, posso responder especificamente algumas questões: 1) Sim, o espaço é reduzido. E há um projeto de ampliação e revitalização pronto há mais de 5 anos que só falta a liberação do prédio ao lado para realizarmos. São questões burocráticas (e políticas) que empatam a nossa ampliação (que inclui acessibilidade, com elevador e rampa). Temos trabalhado com a divisão das turmas (metade sobe para conhecer a exposição de longa duração e outra metade fica na sala de exposições temporárias). Em caso de oficinas, temos uma parceria com o Museu da Escola Catarinense, que fica ao lado. Levamos os alunos até lá e trabalhamos com oficinas práticas onde os alunos desenvolvem alguma questão relativa às exposições em curso. 2) Sobre o acervo ser quase sempre o mesmo, de dois em dois meses, abrimos uma nova exposição temporárias, geralmente, com artistas contemporâneos. Você recebe os informativos do Museu? Caso não, posso cadastrá-la para você poder acompanhar a programação; 3) Sempre prezamos por expor o acervo do artista Victor Meirelles (afinal, somos o Museu Victor Meirelles e temos o dever de apresentar nosso acervo ao público), numa exposição de longa duração. Temos 71 obras de Victor Meirelles no acervo, fazemos o rodízio periódico das obras. Aparentemente, pode parecer que são sempre as mesmas obras, mas se você olhar com calma, ao longo dos meses, perceberá que algumas mudam. No dia 15 de novembro, abriremos uma nova exposição de longa duração, com um novo recorte. Espero que você goste e continue trazendo seus alunos.

      Bem, por ora é isso.

      Um abraço a você.

      Fernando

  3. ana lucia vilela says:

    certíssimo!!!!
    Até quando os museus manter a mal traçada e infeliz cesura entre alta e baixa cultura? até quando o siso será necessário para adentrarmos museus?

  4. Espero que as universidades formem museólogos que se preocupem com o todo. O museu tem um papel social muito forte, é necessário quebrar toda inércia que tais profissionais carregam. E viva as “exposições tipo exportação” (era para ser irônico!). Acho que o MArquE já é um caso perdido…

  5. Camila says:

    Museu não vira outra coisa
    Cidade vira museu
    Polida
    Limpa
    Enfeitada

  6. Caro Fernando, admiro a sua indignação e coragem e compartilho das suas opiniões.

    Precisamos parar com essa mania de grandeza. Essa medição fálica que não traduz qualidade e gozo. Reduzir o culto aos obeliscos monumentais e perceber a diversidade, o valor das flores silvestres, das gramíneas selvagens e da arte pela expressão individual e coletiva do ser humano.

    Temos muito trabalho a fazer. Algo que considero nocivo e que diz respeito à gestão de museus e fundações em nosso país é a ascensão arbitrária de diretores sem a experiência de gestão.

    Um ponto que trago como desafio para discussão é descobrir uma forma de terminar com essa política que empodera indivíduos sem experiência para atuar na gestão de centros culturais.

    Devemos encontrar uma maneira de democratizar a eleição de diretores de museus e fundações e acabar com essa palhaçada de “cargos de confiança”.

    Infelizmente, enquanto a elite e enquanto políticos sem formação acadêmica na área forem responsáveis pela gestão de espaços museológicos a sociedade estará perdendo.

    Felizmente, modelos têm emergido como alternativas vivas e dinâmicas que representam a eclosão de consciências populares no reconhecimento da importância de criar espaços patrimoniais de preservação de sua memória. Gostaria de citar o Museu da Maré e Centro Cultural Waly Salomao no Rio de Janeiro.

    Vc sabe me dizer se existem reivindicações nesse âmbito?

    • admin says:

      Olá Kelly,
      acho que você complementou perfeitamente os temas que busquei abordar no texto. Uma coisa bacana que está acontecendo é que dentre os 30 museus administrados pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), muitos deles estão passando por processo público para a seleção de diretores. O Museu da Abolição foi um deles.

      Um abraço,
      Fernando

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