pinturas – roberta tassinari* (7/05/10)

“Todo corpo continua em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em uma linha reta, a menos que seja forçado a mudar aquele estado por forças aplicadas sobre ele.” (Primeira Lei de Newton)

roberta tassinari dá a ver um mundo decaído. uma pintura que se precipita. ainda assim, suave, translúcida. o gosto em ver essas cores é inegável. o desejo de tocá-las ainda maior.

uma pintura em movimento, quase cinema. porque há aqui o movimento implícito (do alto para baixo). e existe um resto, um excedente dessa operação da artista que se acumula diante de nossos pés.

nos filmes: há trechos que ficam de fora. em contrapartida, na pintura de roberta tassinari: a sobra é incorporada, faz-se obra por meio do excesso.

se pensarmos em todo o esforço da história da pintura, ao menos até o século XIX, em fazer caber as linhas e as cores no espaço delimitado de um quadro (sendo a pintura em tela a principal representante desse desejo e claude monet o sujeito que o frustrou ao fazer seus barcos atravessarem o limite das molduras e depositar esse resto de imagem no vazio). se tivermos em mente também o não menos laborioso desafio que o cinema se lançou ao decidir enquadrar as ações de modo a caberem na tela de projeção. assim, o trabalho de roberta tassinari será desconcertante. porque não diz respeito ao quadro, à tela branca de projeção. ele desliza no terreno do improvável.

e ainda: ao contrário de nossos pés, que servem para sustentar o peso de um corpo em constante luta contra a gravidade, estes trabalhos apostam na queda, na justaposição da força da gravidade com seu próprio gesto. afinal, ao posicionar-se no alto do painel para ali depositar e fazer cair a amoeba (trata-se da famosa geleca, brinquedo infantil, mas que se torna instrumento plástico no processo da artista), o que ela faz é dizer: “sim, estou aqui com meu corpo, aplicando essa massa de cor; no entanto, além do meu corpo há o acaso, que vai sobredeterminar o desenho que essa cor ganhará até alcançar o solo”.

e é nessa conjunção entre o acaso e o desejo da artista que surge esse belo trabalho. porque sim, a beleza está aqui, travestida de arte contemporânea.

—–

* Texto escrito a convite da artista para a exposição “Pinturas – Roberta Tassinari”, em Joinville/SC, na Galeria Municipal de Arte Victor Kursancew, de 7 de maio a 11 de junho de 2010.

Entre dois nadas*, Fabíola Scaranto (5/05/10)

1.

o sopro.

o gesto da criação, por excelência.

do efêmero.

scaranto reinveste o arcaico:

soprar uma película transparente esférica

seu corpo, presente em cena, é o princípio

- e também o fim

condutor de uma poética do frágil

2.

utsuroi:  termo japonês utilizado por roland barthes para abordar o haikai.

“utsuroi: momento frágil que separa e junta dois estados de uma coisa e fica suspenso no vazio (em suma: é dizer pouco!) antes de reintegrar ‘outra’ → Para os japoneses, dizem, não é propriamente a flor de cerejeira que é bela: é o momento em que, perfeitamente desabrochada, ela vai murchar → Tudo isso diz o quanto o haicai é uma ação (de escrita) entre a vida e a morte.” (A preparação do romance, v. 1, p. 114)

3.

como flor de cerejeira

instante a conceder à matéria

esplendor do belo e do frágil

tempo do oco, do pouco

nada pesa

a não ser sobre si.

—-

* Para visualizar o vídeo “Entre Dois Nadas”, de Fabiola Scaranto, acesse a Current Virtual Gallery Interartive # 20

Nelson Rodrigues, o homem que não terminava frases com três pontinhos (2/05/10)

Nelson escrevia como quem toma cafezinho. Ainda assim, tinha úlceras: “O antiácido tem sido a minha mais recente fé”, escreveu em 1968. A infernal sinceridade impressa a cada asserção. Frases onde bastavam tão-somente uma palavra. Períodos interrompidos subitamente com um deslocado ponto final (quando o senso comum encerraria com reticências). O saber dizer sobre picolés Chicabons com a mesma importância com que se referia a Guimarães Rosa. O comicamente trágico.

Por essas e outras impressões de um iniciante que me ponho a ler de maneira sistemática sua obra teatral completa. Até então, devo ter assistido a meia dúzia de montagens de suas peças. Lembro-me sobretudo de “Vestido de Noiva”, d’Os Satyros, “Senhora dos Afogados”, de Antunes Filho e “As Noivas de Nelson”, da Cia. Paulista de Artes. O cinema e a televisão acrescentaram algum repertório (sobretudo os filmes de Arnaldo Jabor). Além disso, li esparsamente peças como “Bonitinhas, mas ordinária”, “Beijo no asfalto” e “A Serpente” assim como os textos que compõem “A vida como ela é”.

p.s.: Alguns dias após escrever as linhas acima sonhei com Nelson. Ele estava em minha frente, repartindo comigo uma mesa quadrada. Tinha uma pilha de livros nas mãos e tentava reuni-las com um cordão e um prendedor que, no entanto, rasgava o livro situado abaixo dele, cujo autor era Virgilio Várzea (colega de Cruz e Sousa, destacou-se na prosa). Disse-lhe: “Que cena ótima, o escritor que mais adoro furando o autor que eu mais admiro”. Nelson ficou feliz com minha fala e decidiu me presentear com um exemplar autografado de um livro dele. Não sei donde tirei a declarada adoração por Várzea. Será saudades de jogar futebol/várzea?

Por essas e outras impressões de um iniciante que me ponho a ler de maneira sistemática sua obra teatral completa. Até então, devo ter assistido a meia dúzia de montagens de suas peças. Lembro-me sobretudo de “Vestido de Noiva”, d’Os Satyros, “Senhora dos Afogados”, de Antunes Filho e “As Noivas de Nelson”, da Cia. Paulista de Artes. O cinema e a televisão acrescentaram algum repertório (sobretudo os filmes de Arnaldo Jabor). Além disso, li esparsamente peças como “Bonitinhas, mas ordinária”, “Beijo no asfalto” e “A Serpente” assim como os textos que compõem “A vida como ela é”.

A edição dedicada ao teatro completo de Nelson Rodrigues da editora Nova Aguilar, organizada por Sábato Magaldi, prezou pela distribuição dos textos em três grandes grupos não-cronológicos: “Peças psicológicas”, “Peças míticas” e “Tragédias cariocas”. A proposta é seguir tal sequência na primeira leitura. Após o término, encarar o prefácio e a fortuna crítica de Magaldi situados no início do livro. Ao término de cada peça, redigirei breves notas e as postarei aqui.

p.s.: Alguns dias após escrever as linhas acima sonhei com Nelson. Ele estava em minha frente, repartindo comigo uma mesa quadrada. Ele tinha uma pilha de livros nas mãos e tentava reuni-las com um cordão e um prendedor que, no entanto, rasgava o livro situado abaixo dele, cujo autor era Virgilio Várzea (colega de Cruz e Sousa, destacou-se na prosa). Disse-lhe: “Que cena ótima, o escritor que mais adoro furando o autor que eu mais admiro”. Nelson ficou feliz com minha fala e decidiu me presentear com um exemplar autografado de um livro dele. Não sei donde tirei a declarada adoração por Várzea. Será saudades de jogar futebol/várzea?

Indisposto (1/05/10)

O bilhete apócrifo dirigido a Lucien Chardon, o desavisado protagonista de “Ilusões Perdidas”, de Honoré Balzac. Redigido em forma de recusa. Expedido sem o contato com aquele que se nega. As senhoras Bargeton e a marquesa d’Espard não desejam mais compartilhar de sua presença. O perverso expediente: um papel deixado por outrem em casa de Lucien. O conteúdo pouco importa, as senhoras estão indispostas. É impressionante como era simples resolver as coisas no século XIX: “Ela está indisposta” era a senha para se desobrigar da vida pública. O desejo de se tornar nobre é vedado ao plebeu Lucien por meio de um simples pedaço de papel, com as poucas linhas de Bargeton:

“A senhora d’Espard está indisposta, não poderá recebê-los amanhã. Eu vou me levantar e fazer companhia a ela. Sinto muito por esse contratempo, mas o seu talento me tranquiliza”.

A fantasia da escrita (24/04/10)

1. Desejo

O desejo de ser Flaubert corresponde a salvação pela escritura. É o cenário tanto de uma ascese pela literatura (de uma prática, de um modo de vida absorvido pela escritura) quanto de um modelo de romance (a certeza de que Flaubert providenciou o que há de melhor na escrita, sendo Bouvard et Pécuchet o monumento maior e último desse credo).

2. Movimento

A paisagem sonhada tornou-se deslocamento geográfico em busca da própria vista contemplada por Flaubert em vida. A viagem que fiz a Rouen, na França (província onde nasceu e morreu o autor), foi um ensaio atemporal, tentativa de assistir ao cenário de Flaubert, desejo de encontro com o lugar que lhe pertenceu, forma de excitar a fantasia. Da escritura.

Funeral Blues (W. H. Auden) (4/04/10)

“Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.”

it’s complicated (22/03/10)

ainda quero escrever sobre a crença das casas bem decoradas, onde cada coisa encontra seu lugar devido – ainda que com ar desarrumado. algumas linhas sobre o desejo que arrasta aos cinemas para assistir apartamentos transados de new york. ou sujeitos descolados andando com bolsas a tiracolo pelas ruas de paris. pontos e vírgulas hei de render para jantares regados à vinhos, louças de porcelana e gente de bem conversando sobre as desventuras do amor.

A inversão de Oswald: Estrangeiros em todo o lugar (1/02/10)

Como realizar um Panorama da Arte Brasileira sem artistas brasileiros? Ainda que a exposição tenha ocorrido no segundo semestre do ano passado, vale a pena tecer alguns comentários. No embalo das duas últimas bienais de São Paulo, a polêmica estava colocada logo na porta de entrada – ou mesmo antes já que a imprensa cooperou para o alarde com a devida antecedência e frivolidade. A diferença é que ao contrário das exposições de Lisette Lagnado e de Ivo Mesquita, a curadoria de Adriano Pedrosa funcionou: inverteu-se a lógica antropofágica. Com a 31ª edição do Panorama da Arte Brasileira finalmente a cultura brasileira saiu do armário. Obviamente a reação moralista foi imediata: é possível acompanhar a avalanche chauvinista clicando aqui.

Pouco importa, o sentido inverso foi acionado: não mais aquele que aponta para a recepção da cultura estrangeira e sua posterior utilização pela sublimação antropofágico. A verdade é que Oswald de Andrade trabalhava sob a égide de um pressuposto que ocupava toda a sua hipótese: o intelectual e/ou artista brasileiro estaria na condição passiva de receptor – ao menos num primeiro momento. Adriano Pedrosa desassimilou essa rota e nos propõe diversas outras, num movimento que apresentou “a importância da cultura brasileira para um número significativo de artistas não brasileiros”, como anunciava o texto de abertura da mostra no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

O genial disso tudo é que era possível atravessar toda a mostra alheio à polêmica estabelecida e, ainda assim, sair com a sensação de ter conhecido uma ótima exposição. O conjunto de trabalhos encabeçados por Jorge Macchi, Mateo López e Juan Perez Agirrregoika já seria o bastante. Macchi tomou como ponto de partida o papel jornal. Em “Ouro Preto”, a composição geometrizada conserva o texto e a veladura faz a tipografia ocupar espaço fundamental na composição. O mexicano José Dávila jogou com a forma quadrilátera, utilizando-se de uma pequena placa de vidro em diálogo com um recorte de vinil negro e retilíneo (a formar também outro quadrado, desta vez na bidimensionalidade da parede). Um trabalho simples e surpreendente. O colombiano Gabriel Sierra e o mexicano Damián Ortega estavam lado a lado, ambos a brincar com o pleno domínio do espaço, aquele em uma bandeja de frutas esquadrinhada com réguas, este por meio de uma composição tridimensional realizada com tortilhas.

Havia uma sala inteiramente ocupada pelo colombiano Mateo López onde estava disposto um projeto de exposição para o MuBe (Museu Brasileiro da Escultura). Há uma ironia implícita: foi preciso fazer um projeto de exposição no interior do MAM-SP para se pleitear uma mostra em um museu localizado no Jardim Europa cuja gestão tem sido pífia ao longo dos últimos anos. Afora o contexto institucional, era possível contemplar os trabalhos num misto de alegria com surpresas. As soluções plásticas são tão perfeitas quanto as idéias que o artista nos propunha. Um cubo tridimensional que como num passe de mágica tornava-se bidimensional diante de nossos olhos. Uma fita crepe que recorta e desenha a si própria. É sem dúvida um dos melhores momentos deste Panorama.

No interior da exposição parecia haver um diálogo institucional brasileiro acionado pelos artistas estrangeiros. Esse núcleo de trabalhos, espalhados ao longo do espaço expositivo, surgia logo na entrada, com a aquarela onde o espanhol Juan Perez Agirrregoika coloca fogo no MASP. Ao invés dos bombeiros para apagar o fogo, via-se o batalhão de choque da PM pronto para atacar. Mas talvez o MASP seja mesmo um caso de polícia, assim como a última administração da Fundação Bienal de São Paulo e mesmo o MAM-RJ que reduziu as brasas boa parte do seu acervo no incêndio em 1978.

Por fim, vale destacar ainda dois artistas: o estadounidense Sean Snyder, com suas impressionantes fotos de Brasília, apresentadas de maneira serializada. A imensidão dos espaços abertos em face a ausência do ser humano. O inglês Simon Evans traz para a exposição a lógica da coleção por meio de uma escrita minuciosa e obsessiva que se espalha sobre o plano. Sem dúvida alguma, o trabalho faz lembrar o aspecto minucioso da escrita plástico-poética de um Leonilson ou mesmo de um Arthur Bispo do Rosário.

p.s.: Texto redigido em dezembro de 2009 e publicado, com breves alterações, em fevereiro de 2010.

Denso. Lúcio Cardoso. (22/01/10)

Inicio do percurso pelo fim. O inacabado “O Viajante”, numa edição póstuma da José Olympio, de 1973.

O poder da escrita: Lucio Cardoso redigia como quem remove pedras. Ou as atira sobre o mundo constituído. Por sinal, a primeira cena do livro é um estouro, tem a força de uma tronco quebrado, um crânio dilacerado: a narrativa do assassinato de um filho paraplégico e retardado (Zeca) pela própria mãe (Donana Lara).

“(Lentamente haviam chegado: ali estavam, no alto do morro. Como um só corte, de lado a lado, a paisagem se abria, seca, inóspita, destituída de qualquer espécie de graça. O barranco, desde o alto, vinha descendo em corcovas bruscas, semeado de pedras, até o leito quase seco do riacho. Lá, com a cabeça metida naquela água lamacenta, um bezerro apodrecia, com as víceras de fora, cercado de urubus que o disputavam com voracidade. Donana, enojada, ergueu a vista – e o céu que divisou, de um azul-turquesa sem amenidade, dilatou-lhe o peito num suspiro. Tocou o braço de Zeca, que se inclinava sobre o espetáculo dos urubus.

-         Lá!

Ele ergueu a cabeça lentamente, depois fitou a mãe de modo inquisidor.

-         Lá – exclamou impaciente – lá longe!

E como a mãe insistisse num gesto autoritário, tomou a rosa que conservava sobre o colo, ergueu-a ã altura da face – e neste instante, como um único grito, um sentimento absoluto e definitivo dilacerou-lhe as entranhas, e ele deixou escapar um gemido, estendendo para o céu distante as mãos, e com elas, a rosa vermelha. Donana não compreendeu, não poderia ter compreendido nunca, não era do seu temperamento adivinhar o mecanismo interno e humano das coisas. Mas para Zeca, para sua alma eternamente imatura, alguma coisa acabara de suceder, e era tão grave, tão decisiva como se lhe fosse outorgada uma maturidade postiça, e ele, a quem a infância fora dada como destino, viesse bruscamente a perceber o equilíbrio e o tempo, pois o que sentira, mais do que vira ou percebera, fora uma emoção funda e desgarradora, uma certeza sem palavra, sem nome, sem classificação, sem nada que pudesse admiti-la ou revelá-la, de que a vida existia – essa coisa infrene, cega, voluptuosa e azul, que do outro lado, com um poder sobrenatural erguia a paisagem e a sustinha em seus luminosos alicerces. Descobrindo a vida, Zeca ao mesmo tempo descobrira a si mesmo e aos outros – e tudo o que ele não identificara durante aquele tempo, Donana, o homem ensanguentado, a cortina, as vozes, aquela flor que sustinha na mão – tudo, todas essas realidades – rapidamente encaminharam-se para seus lugares, ocuparam os nichos vazios, deram consistência, cor e veracidade ao mundo. E descobrindo tudo isso, Zeca havia descoberto a morte. Rápido, seu olhar voltou-se para Donana, de preto – ela pressentiu a descoberta –, um grande túmulo se fez dentro dela enérgica, gritou: “Lá, o azul!” – e empurrando a cadeira, deixou-a escorregar pela ribanceira. Ainda dessa vez Zeca percebera o gesto e o seu significado, mas sem se importar com a cadeira, continuava a olhar para trás – o olhar, pensou Donana, o olhar amarelo, o olhar de Álvio, seu último olhar – e tanto era o ímpeto que acionava Zeca, que se ele se pôs um pouco de pé, e apoiava-se à borda da cadeira, meio erguido, a rosa na mão. A rosa na mão – foi a última imagem que ela viu. O movimento da cadeira descendo, ou o tremor do corpo de Zeca, o que quer que fosse, o certo é que a rosa se desfolhou. Ela fechou os olhos, escutando o barulho das rodas nas pedras. A cadeira bateu finalmente numa pedra, desviou-se, rodou um pouco mais, bateu noutra, atingiu uma rampa mais íngreme, acelerou a queda, e, finalmente, chocando-se violentamente contra outra pedra, virou para cima, atirando o corpo de Zeca – um, dois, três trambolhões – rolou em nova rampa, esfrangalhado, chocou-se contra um último obstáculo e afinal foi tombar, inerte, ensanguentado, a poucos metros da rês apodrecida. Então, Donana abriu os olhos).” (p. 12 – 14)

***

Rafael é o anti-herói. Um protagonista que surge na paisagem para realçar suas cores. Extrai a veladura dos desejos culminando, inexoravelmente, na prática do mal. Sua presença em uma pequena vila faz despertar vontades até então reprimidas. Homicídio, roubo, todo tipo de violência surge no seu entorno. Até mesmo o sacristão é corrompido: ele quer uma puta tanto quanto a morte da esposa. O carpinteiro deseja sua enteada e ao vê-la se apaixonar por outrem, a degola com um machado. Donana Lara mata o filho para se ver livre de um peso e poder assumir seu suposto amor por Rafael. Uma narrativa tensa já que repleta de verdades ditas a todo momento por meio da violência.

Diário de um desequilibrado (18/01/10)

1. Não deixa de ser uma experiência interessante quebrar a perna num ano e, no seguinte, adquirir labirintite. Foi o que aconteceu comigo. Em ambos os casos, a praticidade de uma vida vertical é abandonada com a mesma facilidade com que se passa a flertar com a horizontalidade. Outrora, eu era retrato ao passo que manco ou labiríntico tornei-me paisagens diversas.

2. Do alto de uma muleta, um fraturado inspira respeito. Ainda que sem querer, ele porventura se aproxime de uma faixa de segurança, assistir-se-á um fenômeno sui generis: carros, motocicletas e até mesmo aeronaves hão de parar para permitir o prejudicado deslocamento da carcaça manca. Porém, façamos a experiência inversa: no início de uma manhã, envie um sujeito com labirintite aguda para atravessar a mesma via que outrora o manco se aproximara imprudentemente. Antes de chegar ao passeio – ele certamente será um trôpego a ensaiar passos no invisível, como quem brinca de pata-cega – não há dúvida que meia dúzia de almas há de dizer: “Bebeu a noite inteira”. Se houver crianças por perto, então, certamente a perversidade será ainda maior. Assim, nenhuma criatura cederá a via para o trânsito do labiríntico.

3. O grande problema do sujeito com labirintite é que ele não emite sinais. Ao contrário de um fraturado que carrega suas muletas ou de um cego que porta seus óculos escuros e bengala, o labiríntico é um sujeito cujo único sinal é ambíguo, da mesma natureza da embriaguez, a saber, uma tontura monumental. Com isso, ele não pode extrair nenhuma vantagem social.

4. No caso da fratura, é evidente que as muletas são uma extensão da vida horizontal que se leva nas camas, espaldares, divãs, entre outros suportes com quadro bases/pés. Para um labiríntico, muletas seriam uma confusão, um entre-pés.

5. Na primeira nota utilizei-me da locução conjuncional coordenativa adversativa “ao passo que” (designação que ao soletrar já me deixou zonzo). Antes tarde do que nunca, é preciso providenciar a correção. Afinal, ao passo que é a expressão menos apropriada a se utilizar nessas horas. Porque um manco pula, não dá passos. Um labiríntico perde-se, não caminha.

6. O manco e o labiríntico passam a negociar com o desequilíbrio. Apesar dele, executam-se algumas atividades e abdicam-se de outras. Aquilo que éramos antes do acidente, antes do labirinto, torna-se miragem. Julgamos ainda transitar por esse mundo, onde as coisas eram sólidas, a confiança na gravidade infinita. Mas quando decidimos ir até ele, verificamos que as regras mudaram e que já não é tão fácil manter a cabeça sobre os ombros.