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Quase lá* (26/12/11)

Alô alô, irmão, como vão as coisas? Penso que ao ler essas linhas, o inverno já será certeza por aí. É bem possível que a neve seja sua parceira em forma de paisagem pelos próximos meses. Espero que o branco não canse demais seus olhos porque a nossa avó, disse-me ontem, falando sobre você: “Ele não fala muito, mas basta ele me olhar, com aqueles olhinhos, que eu sei o que está sentindo, o amor que tem por mim”. Essa é a preceptora ancestral que nos ensinaram a chamar de avó: corpo miúdo, sabedoria imensa.

Eu e você ainda somos esboços desse saber e fazer da avó. Ainda não conseguimos acreditar que o mesmo deus que fez o mundo correr é aquele que o fará parar abruptamente. E se procurarmos sentido para isso jamais encontraremos nada além do que o acaso. Afinal, jogar dados é sempre uma experiência ganhadora posto que afirma suficientemente o poder do acaso ao invés de torná-lo probabilidade.

Veja lá: você teve caxumba, eu catapora. Você trabalha com computadores, eu com palavras. Seus cabelos são crespos, os meus raros. Você gosta do Japão, já eu da cidade de Tubarão. Se colocarmos japoneses e tubarões imersos no oceano, veremos o quão próximos podem ser coisas distoantes porque o mundo, quando se presta a isso, compõe arranjos improváveis (como a maior parte dos versos de Jorge Benjor). É apenas preciso estar atento para poder vivê-los.

Mano, aqui no Brasil as pessoas, em coro, continuam a reclamar de tudo. Queixam-se das metrópoles não planejadas, da corrupção endêmica, do trânsito caótico (esquecendo-se que elas próprias são parte dos congestionamentos). Milhões de e-mails disparados, folhas de jornais impressas, conversas travadas em torno do assunto, enfim, um aparato histérico que faz o mundo se tornar um lugar cada vez mais demandante e menos agradável para se viver.

Quem de nós tem uma vida planejada? E mesmo aqueles que acreditam nisso, qual planejamento se fez suceder exatamente àquilo que dele se esperava? Não seria demais esperar das cidades que construímos aquilo que não somos e nem jamais poderemos ser? Décadas atrás, o besouro John Lennon, sacou da letra de suas músicas uma frase cuja potência ainda hoje reverbera (posto que vez ou outra, geralmente nos momentos ruins, infelizmente, ela é lembrada). O zunido dizia: “a vida é aquilo que nos acontece enquanto você está planejando o futuro”. Muitos sentiram a verdade da frase mas a esqueceram diante do primeiro semáfaro aberto que os impeliu a seguir na direção de sempre. Sim, poucos de nós aprendem a dizer não.

Conta-se que o colombiano Héctor Abad Gómez, médico, professor e ativista dos direitos humanos, foi assassinado em 1987, em Medellín, justo no dia em que carregava no bolso o seguinte poema de Jorge Luis Borges cuja folha branca ficaria manchada de sangue: 

“Já somos a ausência que seremos / A poeira elementar que nos ignora / e que foi o ruivo Adão e que é agora / todos os homens e aqueles que seremos. / Já somos na tumba as duas datas / do princípio e do término, o caixão, / a obscena corrupção e a mortalha, / os ritos da morte e as elegias (…)”

Para enviar este texto para você, tive que esperar. Ele só foi impresso no dia 24 de dezembro de 2011, no caderno Cultura do Diário Catarinense. É meio parecido com aquele filme que você adora, “De Volta para o Futuro”, onde a personagem deve esperar uma carta enviada há mais de cem anos. Isso porque tenho a sensação de que o que escrevo já estava pronto, apenas esperando eu percebê-lo em algum lugar do corpo.

O dia em que o jornal que você tem agora em mãos for distribuído aqui no Brasil será véspera de Natal. Três dias atrás foi o solstício de verão no hemisfério sul, quando o dia mais longo gerou a noite mais breve do ano. É impressionante como ao descrevermos um mundo quase perfeito – de ritmos constantes, nascedouros ininterruptos, coisas assim – passamos a acreditar que é possível tornarmo-nos a sua imagem e semelhança. Em vão, imaginamos estratégias para mais viver. Inventamos deuses porque neles projetamos “aqueles que tudo podem”. Para legitimar esse gesto insano, passamos a cultuá-los (talvez como forma de jamais esquecermos de um grande erro).

É verão por cá, irmão, é vez do sol retomar a primazia do posto, tornar-se imperativo. Brilho tanto, a esquentar até o bico dos passarinhos, ninhos sobre telhados e casas e postes e árvores e terrenos baldios. Arrebatam jardins com cantorias, bater de asas, cores e correria muita. Na primavera tomei o primeiro banho de mar. A água até que estava quente, mas do lado de fora um vento frio zoava pescoços, entortando-os feito ferragem de construção.

A casa não cresceu, a barriga não vingou, o sorvete de menta continua no congelador. E eu com a impressão de que o breve está dentro de mim, de que o silêncio é a melhor mirada para contemplar a finitude e a eternidade. Feliz ano novo, querido. Em 2012, meu plano é não ter planos. No máximo, continuarei a escrever banalidades para você, da próxima vez por e-mail para não ter que gastar folhas tantas de jornal. Fique bem, faça o bem. Abraços do irmão mais novo.

p.s.: Veja só que passagem linda de Gilles Deleuze (por sinal, o mesmo que pensou aquela ideia sobre o jogo de dados que escrevi acima): “Na vida há uma espécie de torpeza, de fragilidade física, de constituição débil, de gagueira vital, que constitui o encanto de cada um. Aqueles que não têm encanto não têm vida, estão como que mortos”.

p.s. do p.s.: De modo geral, oferecemos dicas daquilo que conhecemos. Hoje vou fazer o contrário. Vou indicar um livro que não li. O título é “A ausência que seremos”. Ele foi escrito por Héctor Abad Faciolince, filho do médico colombiano assassinado que comentei acima. 

p.s. do p.s. do p.s.: Esta carta é endereçada a você mas, quem sabe, sirva para aqueles que porventura nos leem nas páginas do Diário Catarinense. Afinal, todos somos irmãos: quem escreve, quem lê o que os outros escrevem, e até que não nada lê, não é mesmo?

* Carta publicada na coluna “Penso”, do caderno Cultura, do jornal Diário Catarinense de 24 de dezembro de 2011.  

Queijo continuum (4/10/11)

Com o passar do tempo, a vida sucede em trejeitos inarredáveis. Faz do ordinário algo improvável. Assim se largam no mundo sujeitos esquisitos que nem parecem nascidos de materno ventre. Alimentava-se de queijos desde criança; ao passo que irmão, de linguiças e presuntos. Vegetarianos pais incentivavam hábito monográfico do filho primeiro e legavam ao outro, precoce transgressor, o plano segundo. Anos a passar, corpos se alongam e cada qual desenha na lousa da existência comportamentos padrões – como se fosse possível assim conferir um aspecto continuum para algo tão breve quanto uma vida. Ele velho ainda a gostar de queijos. Em geladeira, caixa com tabletes de todo tipo. O tempo livre inspirou jogo todo-próprio onde ele se divertia em misturar queijos diversos, em tamanhos equânimes e precisos. Esmerava-se em redimir imperfeições, furos, em construir esculturas minimalistas em pequena escala, cubos perfeitamente exatos. A diferi-los, apenas as cores, impasse logo resolvido com tinta digerível e inodora que conferia o mesmo padrão de cor para cada pedaço. Em mesa ampla, negra e com iluminação direcionada, dispunha dos pedaços de queijo sobre o plano, fechava os olhos para delegar ao tato a responsabilidade primeira de contato, quase sacro, junto ao corpo breve devorar.

Penso Bienal, nem pensar (ainda)* (1/10/11)

A abertura da sexta edição da Bienal do Vento Sul em Curitiba e da oitava Bienal do Mercosul em Porto Alegre, no mês passado, fez ressurgir o velho complexo de inferioridade no meio cultural local: “Seremos sempre o ‘zero’ da BR-101?”, perguntam-se atônitos, alguns artistas, gestores e produtores culturais diante da carência de eventos análogos pelas bandas de cá.

Em Santa Catarina, uma bienal seria um desastre anunciado para as contas públicas tal qual a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. O Balé Bolshoi, instalado em Joinville, não deixa de prestar ótimos serviços em relação àquilo que se propõe. Contudo, será que vale realmente o montante dos recursos públicos investidos a cada ano? Não seria melhor criar escolas locais, em diversas cidades, democratizando o acesso à dança? Em contrapartida, inúmeros projetos culturais de instituições de utilidade pública, com mérito cultural e contrapartidas sociais reconhecidamente comprovadas, carecem do mínimo apoio, nesta terra de ninguém que se chama Santa Catarina.

É preciso, antes de qualquer coisa, colocar a casa em ordem. E, para tanto, é fundamental abolir a lógica dos eventos e fomentar museus, centros culturais, financiar bolsas e residências artísticas, estimular a formação, a preservação, a pesquisa, a produção e a circulação. E isso se faz por meio de editais públicos transparentes.

Por isso, é salutar a ausência de uma bienal em no Estado, já que não deixa de ser uma espécie de Rock in Rio das artes visuais. A analogia pode ser um tanto grosseira, mas uma bienal fomenta o estabelecido, dificilmente consegue propor experimentações, estímulo aos coletivos ou projetos educativos duradouros. É onde o mainstream se encontra, o mercado se aquece, os artistas e curadores engordam seus currículos, as companhias aéreas vendem mais bilhetes e as colunas sociais ficam repletas de fotografias constrangedoras.

Em uma bienal, o discurso da curadoria – que seleciona os artistas, trabalhos e os organizam no espaço – tende a achatar aquilo que há de singular em cada proposição artística. Engendra-se uma unidade conceitual insustentável para um conjunto de obras díspares. Ao final de qualquer bienal, a sensação é que a lógica que a sustenta é tão somente de ordem econômica: fomenta-se galerias, o turismo, as livrarias, os restaurantes, menos a capilaridade do circuito artístico.

Eventos desta natureza respondem por uma lógica superlativa em descompasso com a produção artística que tem se dedicado a elaborar uma poética que dê conta da fragilidade, da ruína e da dimensão absolutamente oca que se transformou o viver na contemporaneidade (para citar alguns que já se foram, basta lembrar Bispo do Rosário, Leonilson e Mira Schendel). Não obstante, a lógica dos grandes eventos que tomou de assalto a produção cultural brasileira considera o ápice de uma carreira a realização de um longa-metragem, um grande espetáculo teatral ou, no presente caso, a participação em uma bienal de artes (uma noção romântica do que é ser artista baseada, talvez, no status dos antigos Salões de Paris).

Para uma bienal, é preciso esforço sobre-humano, orçamento milionário, serviços de contabilidade, patrocinadores que pouco ou nada se relacionam com a proposta em questão. Saudades do tempo em que se montavam exposições de um dia para o outro, pela simples vontade e necessidade de fazê-las, sem se preocupar com a retórica exigida pelas leis de incentivo à cultura. Neste momento, vale lembrar o circo (não por acaso, em processo de decadência), que tem muito a ensinar: instala-se em uma cidade, faz erguer a lona e logo o picadeiro está pronto para a diversão.

Além do mais… Com pouco, faz-se muito

No ano passado e neste ano, exposições e iniciativas interessantíssimas ocorreram e não necessariamente dispenderam grandes recursos. A artista e pesquisadora Lucila Vilela realizou o projeto Casa, com a articulação entre as artes visuais, o teatro, a música, a dança e o audiovisual (é possível conferir o catálogo virtual em www.interartive.org/casa.html). Recentemente, em Joinville, Fernando Lindote realizou uma impressionante exposição individual que ocupou o Museu de Arte de Joinville (MAJ). O Instituto Meyer Filho, em Florianópolis, tem promovido uma excelente programação. Em Chapecó, artistas visuais com trabalhos consistentes se organizam em uma associação para promover mostras, formações e outras atividades.

A poética do pouco

Alguns artistas partem do pouco, do quase nada. Um deles é Carlos Asp. Certa vez, disse que não era preciso voltar ao gênero da paisagem nas artes visuais porque, segundo ele, “eu já estou nela”. Em seus desenhos, ele fala do céu, do azul, do mar verde, das pedras negras na areia grossa. Asp escreve. Eu também. Este texto é um desenho para cegos.

* Texto originalmente publicado na coluna “Penso” do Caderno Cultura, do Diário Catarinense, em primeiro de outubro de 2011.

O poder do pensamento ou Pequeno guia de meditação budistas com os Caça-Fantasmas (20/08/11)

a g r i d o c e (17/08/11)

Ela, pequenos incidentes construção inacabada envolvidos noite e silêncios. Ele, tecer bonecas negras porque de branco já farinha e governos. Cigarros na cobertura de algo que sequer insiste. Decidiram romper porque laços nem mais vestidos. Tão-somente agridoce é que o céu existe.

Estar tênue vazio (20/04/11)

Cerca de uma esquina

a força que faz seguir                 naquele sentido

potente e presente.

Naquela mesma esquina

força alguma que poderia imaginá-la

desde coisas que não mais lá estão:

um cachorro morto há 23 anos,

a escarradeira da antiga loja de tecidos,

um poste desativado pela iluminação subterrânea.

Simpatia (20/04/11)

Atenção: simpatia infalível para conquistar o seu amor. Leia essa (se é que você já não a conhece…): “Numa sexta-feira de lua crescente, após às 21 horas, despetale uma rosa vermelha e escreva em cada uma delas, com um espinho da própria rosa, o nome da pessoa amada. Após isso, atire as pétalas em água corrente e espere o resultado”. Uma simpatia é uma jogada com o improvável. Surge no instante em que a lógica racional não mais dá conta do real. Uma crise, um fracasso, uma doença, um desamor: qualquer situação pode servir de pretexto para uma simpatia que, em última instância, promete instaurar uma ficção no lugar de uma realidade não desejada (afinal, o que é a arte senão, em parte, este esforço insano ao longo dos séculos?). Geralmente, o corpo é o objeto central de uma simpatia. Quem faz uma simpatia deseja alterar a relação de um corpo com a realidade, seja para o bem, seja para o mal (como ocorre nas sempre úteis mandingas). Para tanto, é preciso seguir a risca uma espécie de livro de receitas que fornece as instruções para uma sequência de ações muitas vezes desconexas. Diego de los Campos se utilizou nestes vídeos do stop-motion (técnica de animação cinematográfica onde o modelo – no caso, o próprio artista – é fotografado quadro a quadro). Com humor, leveza e despretensão, talvez as principais características da trajetória de Diego, surge diante de nossos olhos lances improváveis em torno de seu autoretrato que, a todo instante, flertam com o apagamento da memória e identidade do próprio artista.

Acesse abaixo, um dos vídeos da exposição.

purgue a

Texto redigido para a exposição “Simpatia”, do artista Diego de los Campos, no Museu Victor Meirelles, de 27 de abril a 23 de junho de 2011.

Lição de casa: imaginar um herói sem caráter (21/02/11)

Ele será baixo mas sempre usará salto alto. Atleta, forjará cegueira ou amputará o ante-braço só para competir com os para-atletas. Comprará flores brancas e as tingirá de vermelho para entregar à mulher amada. Literato, traduzirá a obra completa de Proust em três dias e alegará falta de tempo – e a ausência do ante-braço. No dia em que decidir homenagear alguém (ainda pairam dúvidas se ele será capaz disso), terá um filho com nome de Quincas para não ter que chamá-lo de Machado. Ainda assim, votará no Serra em todas as eleições. Esquecerá o pai no estacionamento do hospital no dia em que ele tiver um ataque cardíaco. Agrícola, plantará feijões em xícaras e colherá imensas melancias. Orações em hebráico para despistar os árabes. Terá diabetes para economizar nos doces, deixará de tomar leite para investir em queijos. Andará em aviões por sentir medo de zepellins. Alimentará tartarugas com pedaços de outras tartarugas.

Extra!!! (20/02/11)

Cinco pães explosivos foram descobertos na Printemps-Haussmann, em Paris. O leitmotiv é antigo: um grupo terrorista afegão reivindicou a ação e exige que o governo francês retire as tropas. Contudo, o que há de nouveau nessa ação é a idéia de um improvável recheio no sanduíche dos parisienses. Esse é o maior crime, maior do que uma possível explosão da loja très chic onde foram encontrados os explosivos. A verdadeira profanação dos terroristas foi enfiar as bombas no meio das baguettes! A identidade francesa possui valores inegociáveis, disse Nicolas Sarkozy noutro dia, e a baguette é um deles. Nessa cidade, onde em cada duas esquinas, três vendem sanduíches de baguette. Por todos os lugares, comem-se sanduíches: na escada-rolante, nas praças, andando nas ruas, nos museus, dentro do metrô, nos colégios e, nas horas vagas, dentro das casas. A grande virtude, o talento implícito neste plano terrorista, a poética dessa gente desconhecida e barbuda vinda do Oriente, foi justamente a criação de uma metáfora providencial em forma de uma baguette explosiva: o que enche a boca dos franceses, iria explodir os seus miolos.

Os degraus (27/10/10)

Há vinte e três anos funcionário do Banco. No dia sete, deu pela falta de um dos degraus da escada que ligava o térreo ao andar superior do banco. Concluiu tratar-se de roubo ao patrimônio da instituição. Sentiu-se na obrigação de resolver o impasse: “Eram dezesseis, agora são quinze. Quem o roubou?” A pergunta foi repetida a todos os funcionários. Ninguém soube lhe responder. Em verdade, sequer sabiam do que se tratava. Mas, como havia desfalque numérico, de alguma feita, todos se sentiram obrigados a estar preocupados. Naquele dia, quedou-se até mais tarde. De todas as formas, buscou descobrir a origem da falta. O que mais o intrigava era o fato de alguém ter conseguido sair com um degrau inteiro, enorme e de mármore, pela porta giratória. Antes de ir embora, abordou o segurança em tom ameaçador: “Se você colaborou com isso, saiba que a verdade aparecerá!”. No dia seguinte, ao chegar ao banco, atentou em uma senhora, com um par de bengalas, com dificuldades em subir as escadas: “Minha senhora, nem os degraus, nem os degraus são poupados por cá!”. Dia dez, mandaram-no viajar para tirar férias. Chegou e logo percebeu que as cores também haviam sido roubadas das roupas das pessoas. Todos vestiam branco tal qual as paredes dos cubículos onde agora dormia.