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Eli Heil: a cabeça vazada que reinventou o mundo completa 50 anos de criação artística (16/11/12)

Em 2012, completam-se 50 anos da primeira exposição de Eli Heil (nascida em 1929, na Barra do Aririú, em Palhoça), na mítica Galeria Baú, de Pedro Paulo Vecchietti, o artista, tapeceiro, moldureiro que agitou as paragens florianopolitanas com visualidades e posturas modernistas nas décadas de 1950 e 1960. Pois bem, efemeridades como essas não significam absolutamente nada, são apenas datas fechadas, coincidências numéricas que acabam ganhando pompas simbólicas. Não obstante, são ótimos pretextos para se fazer coisas miúdas, como refletir.

Um fato determinante na trajetória de Eli: a artista germinou sua experiência poética e plástica somente após a experiência do parto. O nascimento do filho assinalou o adoecimento da artista que passaria mais de cinco anos enferma. Sobre esse período, Eli conta: “Jogaram no meu cérebro uma célula que foi esticando, sugando, sofrendo. Nasceu aquele monstrinho doce. Doce, porque constrói e não destrói. O ovo já estava bicudo. Houve ali uma explosão: a do meu cérebro com a explosão do meu ovário”. 

A imagem de um “ovo bicudo”, utilizada por Eli, é sintomática. Um invólucro que não mais suporta o que há dentro de si e passa a forçar seus limites, reinventando a própria forma. Após anos de doença, ela encontrou no trabalho artístico um espaço onde poderia esboçar novas formas para si.

Eli criou continentes, embora habite ilha; tem gosto doce, ainda que surgida da amargura. Olhá-la é como olhar rente a um espelho d´água: as figuras e as coisas se alongam, se fundem umas nas outras e, invariavelmente, (re)formam-se diante tamanha força criativa.

Observemos bem à pintura desta página. Um corpo feminino estende-se pela porção direita, em diagonal. É preciso que se contenha e se contorça para que não atravesse os limites do quadro. Pernas abertas, pescoço compridíssimo (“de tanto criar”, conforme o título da obra) chega a dar uma volta em 180 graus, manobra que lhe permite posicionar a cabeça no meio de suas próprias pernas. Detalhe: do pescoço inflacionado, surgem quinze “cordões-umbilicais” que se fecham sobre si como espécies de úteros: ali, desenvolvem-se formas diversas e multicolores. Promessas de corpos outros, de novas composições. A cabeça é vazada e, com isso, torna-se possível ver o fundo. Cachola feminina furada, portanto, onde tudo entra e tudo sai. Tanto ela, quando o pé direito parecem estar ligados a um outro corpo arredondado, forma enigmática (é um bicho, uma planta, um corpo?), portadora de uma mandala em seu centro. Aí estaria o equilíbrio da composição? Improvável, porque o equilíbrio é sempre precário na obra de Eli – como a vida, aliás – como esse corpo roxo donde, inesperadamente, surge uma haste em direção ao canto esquerdo superior que… de novo… de repente… interrompe-se.

Eli: o anúncio definitivo de que sempre há um outro modo de se ver o mundo. De que não existe o normal, de que não é preciso se (con)formar. Ela, plasticamente, reinventou o mundo. Paralelo, dissonante, próprio. A arte de Eli é assinalada pela dor profunda, um parir infindo de criaturas que passam a habitar o seu (e, felizmente, também nosso) mundo. É esse o espaço ocupado por Eli: o da vida, apesar da dor; o da cor, apesar da escuridão; o da fertilidade, apesar da esterilidade dos nossos dias.

 

Além do mais

Exposição comemorativa em novembro

Em 8 de novembro, na Fundação Cultural Badesc, em Florianópolis, será aberta a exposição “Barroco Bruto: Eli Heil, 50 anos de arte”. Organizada de modo cronológico, a mostra apresentará ao público um percurso pela obra de Eli Heil desde a década de 1960 até os anos 2000. Ao todo serão 50 obras oriundas de coleções particulares. Ou seja, uma chance única.

 

Publicações sobre Eli

Para quem quiser conhecer mais o universo de Eli, sugiro três publicações. “Eli Heil”, da Coleção Vida e Arte, foi publicado pela Tempo Editorial, com texto de Régis Mallmann, em 2010. “Óvulos de Eli”, organizado por Kátia Klock e Vanessa Schultz, editado em 2008, pela Contraponto. Já esgotado, mas que certamente pode ser encontrado em bibliotecas e sebos, “A obra plástica de Eli Heil”, escrito pela também (incrível) artista Jandira Lorenz, em 1985.

 

Museu Mundo Ovo

Quem ainda não foi ao Mundo Ovo de Eli Heil, sugiro, não deve perder a oportunidade de visitá-lo às margens da rodovia SC-401, em Florianópolis. Lá, uma obra leva a outra, uma técnica amarra-se à seguinte e é possível observar a fertilidade do universo de Eli. Para saber mais, acesse www.eliheil.org.br

* Texto publicado na coluna Penso do caderno Cultura do jornal Diário Catarinense em novembro de 2012.

O que vai, o que fica* (1/10/12)

Na Alemanha, algo aconteceu. O trabalho artístico intitulado “Was fließt, was bleibt”, do brasileiro Tiago Romagnani Silveira, nascido em Florianópolis, redirecionou o rio Ilm, entre os dias 20 e 22 de setembro, numa área do parque situada em frente ao castelo da cidade de Weimar.

Historicamente, os rios foram domados pelo homem. Canais, dragagens, poluição. Nas palavras do artista, “o trabalho é uma reflexão poética sobre decisões e responsabilidades, sobre mudança e permanência”. Não por acaso, o título “Was fließt, was bleibt” quer dizer algo como “O que vai, o que fica”.

Desviar um curso d´água. Uma ideia simples, mas que assumiu proporções maiúsculas, com implicações filosóficas, geopolíticas, religiosas e, fatalmente, ecológicas. Por sinal, esta é a primeira querela que a intervenção suscita: como assim desviar a calha de um rio? E as implicações ambientais? Eis o sintoma de que o discurso ecológico tem sido uma das principais balizas morais da contemporaneidade: quase todas as ações humanas estão sujeitas à censura ou não daquilo que se considera ecologicamente correto, inclusive a arte. É sempre ele quem trata de dizer: “isso pode” ou “isso não pode”.

A arte é o que avança em direção as interdições, ultrapassando aquilo que era considerado norma e hábito: “Nós estamos constantemente em troca com nosso meio ambiente, adaptando-nos com as mudanças e ao mesmo tempo agindo para recriá-lo de acordo com o modo como vemos o mundo. O que me interessa nessa negociação é redefinir nosso entorno e ser redefinido por ele”, declarou Tiago.

O que se passou em Weimar, em boa medida, foi um pequeno e efêmero milagre. Afinal, a bíblia nos conta que Maomé abriu os mares, Cristo andou sobre as ondas e que a fé move montanhas, só para ficarmos nas anedotas mais conhecidas. Ora, se a narrativa religiosa é capaz de fazer tudo isso, por que a arte não pode deslocar o endereço de um rio por três dias?

Saber que essa ação foi realizada por um latino em uma dos países europeus mais rígidos, de algum modo, reforça a ideia de que geopolítica contemporânea está sendo redesenhada. Afinal, eram os europeus quem alteravam o curso de nossos rios, usurpavam nossos minérios e comiam nossas bananas (eles continuam a fazê-lo, evidentemente).

A execução de “O que vai, o que fica” certamente poderia figurar como o décimo terceiro na lista dos trabalhos de Hércules. Definitivamente, desviar um rio numa cidade tombada como patrimônio histórico da humanidade pela UNESCO não deve ter sido algo fácil. Weimar, a cidade que acolheu Bach, Goethe, Schiller, Walter Gropius (fundador da Bauhaus, não por acaso a cidade possui a Universidade Bauhaus Weimar, onde Tiago fez mestrado em arte nos espaços públicos) e assistiu aos últimos dias de Nietzsche: “A necessidade férrea é uma coisa acerca da qual os homens aprendem, no curso da história, que não é férrea e nem necessária”.

Humano, demasiado humano. E sutil. O gesto do artista provocou não apenas um desvio físico, mas também inverteu sentidos. Afinal, tratou-se de algo absolutamente desnecessário, num mundo cada vez mais repleto de necessidades férreas (sobretudo em tempos de eleições políticas). A publicidade, a qualidade de vida, o mundo do trabalho, as cobranças sobre o indivíduo no âmbito familiar e social, sempre imperativas a dizer: “É preciso fazer isso”, “É necessário realizar aquilo”.

A arte não se encontra mais, apenas e por sorte, numa superfície coberta por traço e tinta (desenho e pintura) ou num volume modelado (escultura). Essas possibilidades plásticas continuam a existir e a proporcionar obras interessantíssimas. Contudo, outros territórios têm sido explorados pelos artistas contemporâneos. E talvez seja essa uma das metáforas inconscientes do trabalho de Tiago: desterritorializar um rio que há séculos flui na mesma calha, provocar um estranhamento, criar outros caminhos para o mesmo. Afinal, há sempre algo que vai e algo que fica.

Além do mais
Sobre a reinauguração do Teatro Ademir Rosa
Em Weimar, um rio serpenteava. Do lado de cá do oceano, reinaugurava-se um teatro com Balé Bolshoi – o luxo decadente importado das cinzas da Rússia czarista.

Em Roma, Dirce Körbes
Na Itália, algo mais bem comportado, mas nem por isso menos interessante. A artista Dirce Körbes, que vive e trabalha em Florianópolis, apresenta suas pinturas na Galleria Tartaglia Arte. O texto da mostra, assinado por Arnaldo Zambardi, diz: “Nesta exposição, de fato, Körbes confirma plenamente sua excepcional sensibilidade para representar e transformar a realidade, aparentemente trivial”.

* Texto publicado na coluna “Penso”, do Caderno Cultura, do jornal Diário Catarinense, em 29 de seteombro de 2012.

Aqui acontecem coisas estranhas (21/08/12)

Democracia oligárquica* (5/08/12)

Teoricamente, a democracia seria o oposto da oligarquia. Não é exatamente o que ocorre no Brasil, o país dos oximoros. Por aqui, basta um jogo de palavras e pronto: tudo está resolvido. A democracia tem sido um mero recurso retórico, dirigido às massas, mas manipulado por poucos.

Quando o jogo termina em discórdia, entram em campo os bacharéis em Direito * promotores, advogados, juízes, enfim, a turma do “deixa disso”, engravatada, bem alimentada, quase sempre reacionária, mestre em jogar com as palavras. Constroem argumentos cujo pressuposto ético é facilmente questionável e deixam tudo ainda mais inacessível ao cidadão comum. É assim que se afasta a população do diálogo aberto e do exercício dos direitos básicos de cidadania. Somente poucos “doutores” são autorizados a lidar com a justiça.

Nos poderes Executivo e Legislativo, por sua vez, o objetivo pragmático da maior parte dos mandatos é a construção ou ampliação do poder econômico das oligarquias e a manutenção do status quo. Não é difícil constatar isso, basta observar o jogo político nos feudos do Pará ou de Santa Catarina.

É o arcaísmo como projeto nacional, conforme assinalaram os historiadores João Fragoso e Manolo Florentino. Ambos estudaram o mercado e a sociedade brasileira na virada do século 18 para o 19 e chegaram a seguinte conclusão: trata-se de um sistema econômico e político baseado na “reiteração de uma hierarquia social fortemente excludente”.

O grande paradoxo dos século 20 e 21 é que esse poder instituído e desfrutado por uma minoria, anterior à ideologia democrática, está sendo legitimado por um discurso que propagandeia (demagogicamente, é claro) o poder da maioria.
Tendo em vista a manutenção dos privilégios que desfrutam em relação a uma maioria miserável, as oligarquias possuem uma grande capacidade de assimilação e adaptação de discursos ideológicos. Não por acaso, as grandes empresas e bancos que apoiaram a ditadura militar brasileira também estiveram ao lado do governo Lula. E isso não é um fenômeno tupiniquim. No poder, Adolf Hitler teve o aval inestimável da Volkswagen e do Vaticano.

Embora quase todos se apropriem do discurso * posto ser de bom tom dizer publicamente: “Sou a favor da democracia” * poucos participam das instâncias decisórias básicas relativas à cidade, ao Estado e ao país. As ações regulamentadas pelos parlamentares, comandadas por políticos (escolhidos pela via eleitoral, pressuposto de toda democracia) e julgadas por bacharéis não são condizentes, na maior parte das vezes, com a demanda dos cidadãos. Caso contrário, há muito tempo ter-se-ia solucionado o impasse nos hospitais e no transporte público, o analfabetismo e a desnutrição infantil.

Até quando a democracia será a roupagem ideológica de regimes sociais e econômicos excludentes? “Precisamos aprimorar o regime democrático brasileiro”. Onze em cada 10 políticos repetem esse jargão. Não se engane: é uma frase feita, lugar-comum, esvaziada de qualquer consequência. Falar em nome da democracia é o grande trunfo do poder estabelecido.

Você se lembra da Vovó do conto da Chapeuzinho Vermelho? Pois bem, esta personagem bem pode servir como metáfora da ordem democrática que se vive no Brasil: doente, desprotegida, na posição de vítima e a demandar atenção. A conclusão radical desta figura de linguagem não vem ao caso agora, mas poderíamos discuti-la numa outra oportunidade: o fato é que a democracia não deixa de ser uma velha histérica.

Além do mais…
Chapeuzinho “Cruel” Vermelho

Passagens cruéis estão por trás da aparente inocência dos contos de fadas. A menina com um capuz vermelho cruza a floresta para levar pães a sua avó adoentada. O Lobo Mau chega antes do que ela à casa da Vovó e a devora por inteiro. Depois, veste-se com as roupas da velhinha e se deita para esperar Chapeuzinho, que também é devorada! Um caçador que passava por ali ouve gritos e após abrir as entranhas do Lobo, retira as duas, ilesas. Por sinal, a versão mais antiga que se tem conhecimento, registrada por Charles Perrault (1628-1703), é ainda cruel, já que a menina é devorada e ponto final. Mais tarde, imortalizada pelos irmãos Grimm, é que a história ganharia um happy end.

O melhor negócio
O Vaticano continua sendo o melhor negócio do mundo. O dinheiro só sobe, nunca desce. Ou alguém aí já viu o papado investir algum centavo para construir uma igreja? E quem paga a conta de luz, de água, o telefone, o salário dos funcionários (entre os quais, os padres) e as demais despesas da paróquia? Evidente: os fiéis. O melhor de tudo é que a Santa Sé vende algo subjetivo. Salvar a alma sempre foi e continuará sendo o melhor negócio, até mesmo porque sempre haverá pecado, conditio sine qua non do ser humano.

A virtude da Santa Sé
O Vaticano possui uma qualidade: seus líderes são honestos sobre o que pensam. Insistem em manter posições não mais viáveis na atualidade, seja por saúde pública, seja porque a liberdade é um direito inalienável. E fazem questão de deixar claro. Talvez, essa falta de flexibilidade seja porque seus sócios, ou melhor, cardeais (aqueles que mandam e
desmandam), são velhinhos ultrapassados. Alguém deveria avisá-los que aquelas roupas e rituais todos já estão fora de moda, o que me faz lembrar daquilo que disse um índio Kaxinawá, após ter se encontrado com o papa João Paulo II: “Tive que beijar a mão de um homem vestido de mulher”.

* Texto publicado na coluna “Penso” do Caderno Cultura do jornal Diário Catarinense em 4 de agosto de 2012.

De novo não morri* (10/07/12)

Uma personagem entre o trágico e o cômico aparece de soslaio em “Minha Vida”, de A. P. Tchekhov (1860-1904). Trata-se de Andréi Ivanov, pintor de paredes ou, como ele próprio dizia, “empreiteiro de serviços de pintura”. Um pobre diabo que já passava dos cinquenta, ou seja, um velho para a época. Nas palavras de Tchekhov, era “magro e pálido, de peito chupado, de têmporas encovadas e olheiras, com uma aparência até assustadora”. Sempre doente, de uma dor que o enfraquecia, de modo que a cada outono anunciavam que aquela seria sua derradeira estação. Não obstante, depois de um tempo acamado, levantava-se e dizia surpreso: “De novo não morri!”.

Andréi Ivanov é a metáfora perfeita da débil vida institucional da cultura catarinense. Sorte que a cultura transcende a esfera oficial das secretarias, fundações, presidentes, diretores, gestores, enfim, a parafernália estatal que deveria regular e facilitar mas que, na maior parte das vezes, só dificulta aquele que está na ponta, a pensar e produzir. E não é que inventaram que a restauração da Ponte Hercílio Luz seria uma tarefa para a super Lei Rouanet? Para quem não conhece os meandros da Lei Federal de Incentivo à Cultura – mais conhecida pelo sobrenome de seu instituidor, (Sérgio Paulo) Rouanet, mandatário da cultura do Governo Collor – vale a pena explicar. A coisa funciona assim: uma ínfima parte do imposto de renda devido por pessoas físicas e jurídicas à Receita Federal (entre 4% e 6% do montante, sendo que não são todas as empresas que podem deduzir seus impostos por meio deste mecanismo, apenas aquelas cujas contas forem baseadas em lucro real) pode ser utilizada como verba de patrocínio aos projetos culturais aprovados pelo Conselho Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC). De modo geral, as empresas não mexem em um centavo de seu caixa e assim patrocinam projetos com dinheiro público, numa inversão absolutamente tresloucada. Nessa operação, o dinheiro público se torna verba de publicidade das grandes empresas posto que a realização dos projetos implique na inserção de logomarcas, stands promocionais e dentre outras ações que o departamento de marketing agradece.

No caso do projeto “Ponte Hercílio Luz, patrimônio de Santa Catarina, patrimônio do Brasil”, aprovado pela CNIC em março deste ano, significa dizer que as obras da Ponte Hercílio Luz só serão finalizadas quando a bagatela de R$ 64,5 milhões for captada a partir da “doação espontânea” de pessoas físicas e, sobretudo, jurídicas (lembrando que até aqui já foram gastos mais de R$ 60 milhões em obras na Ponte). Trocando em miúdos, se a ideia era terminar a obra ainda nesta década, podem esquecer. E se o gigante de ferro que outrora ligava a ilha ao continente estiver cansado demais de esperar nas cabeceiras e não mais conseguir sustentar seu próprio peso, ela cairá placidamente sem ao menos dizer “Fui!”. Para agravar, vale avisar que teremos que aguentar a repetição constante na mídia televisiva das imagens da tragédia que, certamente, será registrada pelas câmeras de vigilância do entorno.

A questão é que qualquer profissional que conhece, minimamente, o funcionamento da Lei Rouanet (e esse seria o papel dos gestores públicos, não?), em sã consciência, não apostaria todas as fichas nesta opção para se angariar os recursos necessários para se finalizar a recuperação da estrutura da década de 1920. Entretanto, alguns iluminados que executam as políticas públicas no Estado de Santa Catarina, em seus gabinetes com ar condicionado, em meio a repartições regadas a cafezinho e conversa fiada, decidiram que assim seria melhor. Na verdade, decidiram não decidir. A coisa vai se arrastar por anos, tenham certeza.

Alguém precisa avisá-los que essa estratégia insana já começou a dar errado. Até agora, meses após a autorização para o início da captação dos recursos (sendo que o prazo máximo para a captação é de dois anos), menos de R$ 500 mil foram creditados na conta do projeto, com o agravante de que para se iniciar a movimentação dos recursos é necessário, por força da lei, ao menos, a captação de 20% do total pleiteado, ou seja, cerca de R$ 12,9 milhões.

O que é difícil compreender, nessa altura do campeonato, é o motivo pelo qual foi preciso dar essa imensa volta para se reunir os recursos. Ora, a outra opção era abrir os cofres públicos e empenhar a verba a partir do orçamento da União e do próprio Estado de Santa Catarina. E o mais importante: por uma questão lógica, os recursos deveriam ser oriundos da Secretaria de Obras e do Ministério dos Transportes, afinal, a Ponte será utilizada como via pública, antes de qualquer coisa. Essa é uma indagação simples, que o gestor que estiver alcançado essa parte do texto (geralmente eles leem pouco e/ou não têm tempo, mas como o assunto é polêmico, eles chegarão até aqui para depois, com um sorriso no canto dos lábios, dizer que aquele que vos fala não entende nada de “administração pública”).

Pois bem, eu pagaria até o meu último centavo para ver uma cena improvável de se concretizar, mas possível de se imaginar: no início de um outono qualquer, num desses dias ensolarados e coloridos que só a estação sabe proporcionar, o debilitado Andréi Ivanov atravessaria lentamente a Ponte Hercílio Luz, com um sorriso besta na face (tanto faz se fosse a pé, de bicicleta, de carro, de esqui, de metrô com ou sem superfície, de nave espacial, afinal, já se falou em tantas coisas que passariam sobre a Ponte após a reforma que só falta prometerem inaugurá-la com os trenós do Papai Noel). Esse maldito Ivanov, que costumava dizer “de novo não morri!”, seria como que o espírito de uma velha Ponte, cansada de esperar por seu próprio ocaso.

Além do mais

Nota de arrependimento
Eu não deveria ter escrito sobre o Papai Noel atravessando alegremente a Ponte Hercílio Luz no dia de sua inauguração. Vai que algum iluminado, desta vez funcionário da municipalidade ilhéu, goste da ideia. A julgar pela bestialidade da programação natalina que tem brindado à Capital nos últimos anos, é bem capaz que tragam o bom velhinho, suas renas e coisas do tipo para inaugurá-la. Bem, como Papai Noel não existe e como também não há qualquer planejamento sério para se restaurar a Ponte, podemos ficar tranquilos porque isso ainda vai demorar a acontecer.

Um futuro diferente para a Ponte
Um amigo soprou-me ao ouvido a seguinte alternativa: se houvesse um laudo técnico independente de engenharia, com conhecimento de causa, atestando que o processo de deterioração da Ponte Hercílio Luz é irreversível (como algumas pessoas defendem), seria o caso de se pensar que os R$ 64,5 milhões que serão gastos poderiam receber outro destino. Por exemplo, que tal imaginar a construção de dois equipamentos culturais (um museu e um teatro?) nas cabeceiras da Ponte, como forma de marcar uma nova visão da cidade em relação à cultura e ao patrimônio? A manutenção das duas torres seria suficiente para sugerir o desenho de uma arquitetura inovadora e ainda sobraria dinheiro para, finalmente, promover uma programação cultural de qualidade para a cidade e o Estado.

Blackout
O vídeo “Blackout”, de Teresa Siewerdt, é uma espécie de sinfonia luminosa cujo suporte é a Ponte Hercílio Luz. Ao menos para alguma coisa a Ponte serviu nestes últimos anos. Confira em http://vimeo.com/6584865

O caso do Badesc
Os bancos, sempre os bancos a aprontar. Na Europa, estão a quebrar nações inteiras com seu apetite irrefreável. Pelas bandas de cá, o banco público que nos orgulhava por ter criado uma referência para a vida cultural local, a Fundação Cultural Badesc, ao que tudo indica, cansou do “brinquedinho”. Sinceramente, dias atrás, quando os boatos e notícias sobre uma possível transferência da Fundação Cultural Badesc para a administração da Fundação Catarinense de Cultura circulou pela cidade, uma espécie de labirintite intelectual me invadiu e me deixou tonto a ponto de esquecer algumas poucas e boas palavras que caberiam para a ocasião.

* Texto publicado no jornal Diário Catarinense, caderno Cultura, coluna “Penso”, no dia 7 de julho de 2012.

Dar tempo ao tempo* (19/06/12)

Cada vez mais penso que, apesar dos pesares, a vida nos reserva mais momentos alegres do que tristes. O problema é que alguns momentos tristes são tão chocantes que não conseguimos processá-los num curto período de tempo, tornando-se, muitas vezes, traumas que passam a constituir aquilo que somos ou julgamos ser. Contudo, é evidente que há um gozo na dor. Freud abordou esse paradoxo e Paulo Leminski versou: “Um homem com uma dor / é muito mais elegante / caminha assim de lado / como se chegando atrasado / andasse mais adiante / (…) não me toquem nessa dor / ela é tudo que me sobra / sofrer, vai ser minha última obra”. Quem não conheceu ou conhece alguém que muito sofre e que não consegue sair dessa condição justamente porque a dor se tornou parte fundamental dela própria?

Como vivemos num mundo em que tudo é para anteontem, inclusive o processo de recuperação de perdas afetivas, as coisas ficam um pouco mais difíceis. Meu avô, um homem inteligente, costumava dizer algo absurdo: “Quero morrer numa sexta-feira: no sábado será o velório; no domingo, o enterro. Segunda-feira vocês voltam ao trabalho normalmente”. Ele morreu em 1998 e até hoje guardo na boca o gosto amargo desse final de semana, prova de que as coisas não funcionam tão rápido quanto se espera.

Uma imagem hipotética para a contemporaneidade: se o deus cristão tivesse que criar o mundo novamente, ele não teria seis dias, mas sim uma noite mal dormida para fazê-lo. Aí talvez não existissem as canções, as ameixas, o caldo de cana, as crianças, enfim, essas coisas boas da vida, que ficariam de fora por falta de tempo divino. Talvez nem tivéssemos um céu azul, mas sim uma lona preta a cobrir o teto do mundo. E o pior: após a noite de criação, o velhinho de barbas brancas teria que acordar cedo e avaliar o processo criativo. Certamente, seria criticado por não ter realizado, com a devida antecedência, um planejamento estratégico que embasasse o seu trabalho.

“Dar tempo ao tempo” é uma expressão tão redundante quanto sábia. Ela está em desuso, afinal, time is money (tempo é dinheiro). É lamentável que o atropelo e a correria (você já percebeu como as pessoas estão sempre dizendo que estão “na correria”?) estejam regendo desde a redação dos jornais até a produção cultural. É bem mais compreensivo que o jornalismo seja pautado pela urgência, contudo, pautar o trabalho artístico e cultural com cronogramas de execução e planos de trabalho me parece uma violência sem tamanho (por favor, deem um tempo e me deixem de fora dessa lógica da administração de empresas que invadiu o mundo!).

Há algum tempo, encontrei no sebo um livro. Nele, havia um conto chamado “Pequenos Desencontros”, de Silveira de Souza, um escritor florianopolitano extraordinário. O tempo passou, o acaso fez o favor de providenciar um encontro com o autor e o desejo tratou de enredar uma vontade imbatível de fazer um filme a partir desse livro. Desde o dia que o li até o lançamento do curta-metragem no ano passado, mais de cinco anos se passaram. As ideias precisam de tempo para amadurecer, tanto que o roteiro teve mais de cinco tratamentos diferentes. O tempo de um processo criativo não cabe num cronograma de trabalho (por mais que nos forcem a acreditar nisso): lidar com arte não é uma gincana.
Hoje, ao assistir ao filme, pergunto-me: “quem fez esse filme?”. Um outro qualquer, menos eu. É uma sensação boa perceber que o tempo passou, que me tornei outro, que o filme virou coisa outra e que mesmo a história original do Silveira de Souza transformou-se em algo completamente distinto na tela do cinema (sorte minha que ele gostou dessas mudanças).

Recordo-me que o primeiro dia de filmagens foi cancelado por conta do mau tempo: uma chuva torrencial caiu sobre a Grande Florianópolis e a cidade de Antônio Carlos, onde se encontravam as primeiras locações, ficara debaixo d´água. Lembro-me de arrancar os poucos cabelos que me restavam sobre a cabeça, preocupado, porque tínhamos pouco tempo para as filmagens, muitas tomadas externas e o primeiro dia de filmagem havia sido cancelado. Eis que o tempo ruim passou e os demais dias foram perfeitos. Muito sol e uma temperatura agradável abençoaram o resto das filmagens. Para que tanto desespero? Para nada. A vida dá voltas e certamente essas voltas são cúmplices do eterno retorno dos ponteiros do relógio de uma velha catedral.

Além do mais

1.
Sopraram-me ao ouvido: “O tempo é uma criança ensolarada que não sabe a quem recorrer quando fica perdido: se para o relógio ou para o meteorologista”.

2.
Passou no cinema: “Feitiço do tempo” (Groundhog Day, 1993), filme belo e divertido. Bill Murray é um repórter que cobre o clima e vai para uma pequena cidade fazer uma reportagem sobre o Dia da Marmota, uma festa local. Ele odeia ter que cobri-la todos os anos. Então, algo incrível acontece: os dias começam a se repetir e ele acorda todas as manhãs no mesmo hotel. E agora, como lidar consigo em um único e eterno dia?

* Texto publicado no caderno Cultura, coluna “Penso”, do jornal Diário Catarinense, no dia 9 de junho de 2012.

Por um pouco de indignação e coragem aos museus* (21/05/12)

“Você sabia que as obras de grandes artistas estão aqui?”. Este é o anúncio do outdoor localizado em frente ao Centro Integrado de Cultura (CIC) onde está localizado o Museu de Arte de Santa Catarina (MASC), em Florianópolis. Ao ler esta peça publicitária, não pude me conter e dei boas risadas imaginando que o artista Toulouse-Lautrec (1861-1903) não entraria no acervo do MASC, afinal ele media um pouco mais de 1,50 metros (em virtude de uma doença óssea adquirida durante a infância).

Dúvida: será que os museus deveriam apresentar e divulgar apenas “grandes artistas”? Quando se propagandeia que num local existem grandes artistas, de algum modo, você está exigindo, por tabela, um grande visitante. É deste modo que há anos muitos museus vêm afastando o público de seus acervos. Em Santa Catarina, os espaços museológicos estão às moscas. Estamos na contramão da história já que em São Paulo e no Rio de Janeiro os índices de visitação às exposições aumentaram exponencialmente. A revista britânica “The Art Newspaper” publicou recente pesquisa em que o Brasil aparece com a exposição mais visitada do mundo no ano de 2011. “O Mundo Mágico de Escher”, realizada no Centro Cultural do Banco do Brasil do Rio de Janeiro, contabilizou uma média de 9.677 visitantes por dia.

Em Florianópolis, se uma exposição de arte receber mais de cem visitantes espontâneos em um dia, é preciso abrir licitação, adquirir e estourar fogos de artifício e, enfim, comemorar. Se não fosse o valoroso trabalho dos educadores dos museus que se dedicam a convidar e receber, em sua maioria, crianças e adolescentes escolares, as estatísticas de visitação seriam catastróficas. Esses números só se alteram por ocasião de grandes eventos, como a vinda de “Primeira Missa no Brasil” (1861), de Victor Meirelles, que levou milhares de visitantes ao MASC, no ano de 2008.

Há ainda uma história a se escrever relativa aos museus locais. Contudo, é possível afirmar, desde já, a partir de conversas com antigos funcionários e da leitura dos livros de frequência, que a visitação nas décadas de 1960 e 1970 era consideravelmente maior do que aquela que se registra atualmente. Como isso pode acontecer tendo em vista que a população e a escolaridade aumentaram no Brasil nas últimas décadas? Será que fenômenos como a internet afastaram o público das exposições?

São questões que ainda não foram enfrentadas pela maior parte dos museus. Ainda que a rede mundial de computadores possa ter ocasionado o afastamento presencial do público, isso não deixa de ser um problema dos museus que não souberam se preparar para receber os novos visitantes em tempos virtuais. Aqui em Santa Catarina, quais museus dispõem além das salas de exposição, de espaços de convivência às pessoas? O público poderia visitar com frequência as atividades oferecidas e, ainda, utilizar os museus como espécies de praças, pontos de encontro e vivência social.

Algo inadmissível é o fechamento parcial do jardim do Museu Histórico de Santa Catarina (Palácio Cruz e Sousa) que foi remodelado com dinheiro público, mas que se encontra com o portão principal de acesso (na Rua Trajano) vedado ao mesmo público. Aliás, por que foi construído, também em seu jardim, o memorial em homenagem a Cruz e Sousa? Ali não deveria funcionar um café? Qual o retorno social do recurso público investido? Aquele espaço estratégico, situado no coração da cidade, deveria estar à disposição da comunidade.

A verdade é que há um esgotamento do modelo de museu pelas bandas de cá. Aliás, esse é o destino de todo museu que se negar a conhecer a realidade em que está inserido e que não promova, sistematicamente, pesquisas em seus acervos e avaliações junto ao público. Existe luz no fim do túnel? Ainda que não exista uma receita de bolo para todos os museus, algumas medidas simples podem reaproximar as pessoas desses equipamentos culturais. Que tal os museus oferecerem serviço gratuito de Wi-fi para seus visitantes? As bibliotecas já fizeram isso há algum tempo, mas os museus ainda continuam acreditando que um bloco de anotações vendido em suas lojinhas é o suficiente para que o visitante tome suas notas e faça suas pesquisas (posteriormente).

Numa sociedade que se quer democrática os acervos museológicos também deveriam incluir obras consideradas “medianas” ou “pequenas” (e não apenas aquelas consideradas como “grandes obras”, ainda que essa nomenclatura seja inadequada). A arte não é uma questão de escala (maior ou menor), muito menos de juízo de valor (melhor ou pior). Se for o caso de defini-la por categorias, que se deixe essa tarefa para a crítica de arte. É preciso compreender que tanto os artistas quanto seus trabalhos são um conjunto orgânico e que todas as partes têm direito de usufruir dos bens públicos e de estarem representados em seus espaços de memória.

Os museus com acervos artísticos não deveriam ser pautados somente pela história da arte ou pelo gosto dos curadores (que, como toda a história até o século XIX, continua sendo a história dos vencedores, ou seja, dos artistas consagrados). Eles deveriam abrir suas portas para a arte dos indígenas (cuja exposição está relegada às calçadas imundas das grandes cidades), para a arte de rua (desde o graffiti até aquele senhor que vende suas obras no passeio público). Enfim, os museus deveriam ser o espaço de encontro das diferenças e não de afirmação de apenas uma forma de arte (contemporânea, moderna, seja o que for).
Talvez seja preciso reinventar os museus e isso pode começar pelo questionamento radical das práticas de colecionismo. Como bem lembra Manuel Borja-Villel, diretor do Museu Reina Sofía, de Madri, a imensa maioria dos espaços museológicos está baseada na ideia de propriedade, ou seja, na acumulação de objetos em suas reservas técnicas e salas de exposições. Não seria função dos museus questionar a mercantilização da arte e da existência? Uma postura crítica por parte dos museus poderia atingir a lógica do mercado da arte. Recentemente, um leilão da tela “O Grito”, de Edvard Munch (1863-1944), realizado pela Sotheby´s, alcançou a cifra aproximada de 120 milhões de dólares.
A lógica inflacionada do mercado da arte está se tornando cada vez mais parecida àquela das bolsas de valores. Essa e outras questões estão em aberto e é bem possível que sejam necessárias algumas gerações de profissionais para se alterar este panorama. Há esperança e, como dizia Santo Agostinho, é preciso ficar de olho nas duas lindas filhas dessa velha senhora: “a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las”.

O novo Museu de Arqueologia e Etnologia
O antigo Museu Universitário Professor Oswaldo Rodrigues Cabral abriu, no mês passado, seu novo pavilhão de exposições após mais de cinco anos em que esteve fechado para mostras. E agora tem novo nome: Museu de Arqueologia e Etnologia (MArquE). Como marketing é tudo (lamentavelmente, até mesmo no ambiente cultural) divulgou-se que se tratava do maior museu do tipo no Sul do País. Novamente, a lógica maiúscula e grandiloquente, desnecessária a um ambiente universitário. Um dos maiores trunfos do MArquE é contar com uma equipe de pesquisadores de primeira linha. Agora, o trabalho será promover um programa de exposições privilegiando mostras de seu acervo (além da obra completa de Franklin Cascaes, o MArquE possui um acervo de cultura popular interessantíssimo, dentre outras coleções) assim como oferecer uma ação cultural e educativa para a comunidade acadêmica e não-acadêmica. Espera-se que a nova reitora da Universidade Federal de Santa Catarina dê atenção especial ao espaço.

* Texto publicado na coluna “Penso” do Caderno Cultura do jornal Diário Catarinense no dia 12 de maio de 2012.

Bispo do Rosário: Longa é a arte, tão breve a vida* (14/04/12)

Um artista é capaz de desafiar o silêncio esmagador suscitado pela ausência de um corpo. A arte bem poderia ser compreendida como um fazer contra o aspecto inexorável da morte. No dizer de Hipócrates, “ars longa, vita brevis” (“a vida é curta, a arte é longa”). Se não é possível vencer o ocaso, eis que é criada uma série de testemunhos sobre o viver em forma de imagens, textos, sons ou mesmo a partir de objetos, do intelecto, seja o que for. É isso que ficará em meu lugar quando eu for morte e silêncio. Há um flerte com a eternidade em cada obra de arte, em cada página escrita.

Arthur Bispo do Rosário é um dos nomes mais incríveis da história recente do Brasil. Não fosse sua imensa obra, certamente teria passado pela vida como um mero dado estatístico referente à população pobre, negra, insana e excluída do Brasil. Nascido na cidade de Japaratupa, em Sergipe, no ano de 1909 (ou 1911, não se tem certeza), morreu em 1989. Se o errante é aquele que erra por gosto (ou pelo destino), então Bispo foi um deles: de marinheiro a faxineiro, de imigrante a interno de um manicômio, de religioso a artista consagrado após a morte.

Diagnosticado com esquizofrenia paranóide em 1938, no então Hospital para Alienados, na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, ele passaria por algumas instituições de atenção à saúde mental até ser internado na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, onde esteve até o fim da vida. Por décadas, dedicou-se a produzir aquilo que alguns consideram, hoje, um dos maiores monumentos da contemporânea arte brasileira e mesmo internacional.

O trabalho de Bispo consistia, primeiramente, em retirar objetos comuns de circulação para depois rearranjá-los junto a outros materiais obtidos da mesma maneira. Para tanto, ele os amarrava entre si (muitas vezes, por meio da costura), criando assim uma composição improvável que acabava produzindo um caráter estético para cada novo objeto que surgia. Após isso, ele os depositava num conjunto de celas localizadas no interior do Pavilhão 10, onde habitava na Colônia Juliano Moreira. Lá, de acordo com suas indicações, eles deveriam ficar até o dia do Juízo Final.

É preciso levar em conta a miséria material da maior parte dos hospícios brasileiros de então. Não era nada fácil conseguir objetos, sejam eles quais fossem. Para tanto, alguns relatos dão conta de que Bispo era uma espécie de xerife dentro da Colônia, exercendo autoridade e obtendo materiais por meio de sua presença e de sua força física (por sinal, ele chegou a lutar boxe, num período anterior a sua internação).

Em boa medida, Bispo era muito mais um obreiro do que um artista posto que direcionasse o fruto de seu trabalho ao Deus com “D” maiúsculo (no caso, um Deus cristão, esse mesmo que costuma alternar drasticamente os humores e distribuir culpas aos homens). Encarava o seu labor como uma espécie de sacrifício já que muitas vezes chegou a se auto-exilar durante meses na solitária para poder executá-lo. Bispo nunca desejou expor suas obras num museu, porém certamente sonhou em rezar missas. Na verdade, Bispo não cabe num museu e, mesmo se coubesse, sinceramente, não sei se os museus teriam os conhecimentos necessários para entendê-lo.

Um detalhe curioso: Bispo adorava jogar xadrez, metáfora ideal para se compreender sua visão de mundo, já que aquele que o joga faz uso de um conjunto de regras estruturadas hierarquicamente. Há reis, rainhas, bispos, torres, cavalos e peões dispostos em um tabuleiro cujas peças possuem movimentos delimitados. Só é possível elaborar e executar uma jogada a partir destas categorias. Bispo respeitava a hierarquia cristã (se bem que é preciso, ainda, estudar devidamente a influência das religiões e ritos africanos em sua trajetória). Seu nome – Bispo do Rosário – já remete a elementos simbólicos do catolicismo. Certa vez, declarou: “Eu escuto Jesus Filho e para mim é o bastante”. Em última instância, Bispo sempre trabalhou no espaço da sacristia, longe dos holofotes.

Ao morrer, foi desautorizado a fazer aquilo que mais almejava em vida. Isso porque ao longo dos anos, Bispo trabalhou na confecção daquilo que chamava de “Manto da Anunciação”. Obra fundamental, hoje pertencente ao Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea (localizado na antiga Colônia Juliano Moreira), trata-se de peça tecida pelas suas próprias mãos para ser a vestimenta utilizada por ele no dia de seu enterro. Era a síntese da grande narrativa que ordenara em sua passagem pelo planeta. Era com esse “Manto” que ele se decidira se apresentar aos céus. Contudo, alguns estudiosos da arte decidiram que era melhor guardá-lo em um museu de arte. É pena, porque uma vida sofrida bem que poderia ter se findado com um desejo realizado.

Além do mais

Documentário de Fernando Gabeira

No link http://www.youtube.com/watch?v=x9wc-_XoCcw é possível encontrar o documentário “Bispo”, realizado pela série “Vídeo-Cartas”, dirigido por Fernando Gabeira na década de 1980. Em uma das cenas, Bispo está em plena ação diante de um tabuleiro: é quando jornalista e interno disputam uma partida.

Bispo em exposição

Até o dia 29 de abril, encontra-se em cartaz no Santander Cultural, na cidade de Porto Alegre, a mostra “Bispo do Rosário: a poesia do fio”, com curadoria de Helena Severo e Wilson Lázaro. É relativamente difícil encontrar um conjunto expressivo de suas obras em exposição, portanto, quem puder ir até lá, certamente valerá o deslocamento. No ano passado, mostras com obras de Bispo ocorreram também no Museu Art & Marge em Bruxelas na Bélgica, no Instituto Valenciano de Arte na Espanha e na 11ª edição da Bienal de Lyon. Neste ano, está previsto que ele será um dos destaques da 30ª Bienal de São Paulo, com curadoria do venezuelano Luis Pérez-Oramas.

Diálogos com Raimundo Camillo

O simpático Raimundo Camillo é interno, há mais de 40 anos, da Colônia Juliano Moreira. Ele também mantém uma estreita relação com a arte. Seus trabalhos se parecem com cédulas de dinheiro (em alguns, o suporte é realmente um papel moeda). Ele desenha e colore, acrescentando números, alterando o valor monetário. Raimundo não rasga dinheiro, mas faz arte sobre ele. Certo dia, durante uma viagem que fiz para conhecer a Colônia (que ainda hoje está em funcionamento, com outro nome, é claro, porque os absurdos institucionais sempre precisam mudar de nomes) e o Museu Arthur Bispo do Rosário Arte Contemporânea, aproveitei a oportunidade e perguntei se ele conhecera Bispo do Rosário.

- “O Bispo do 10?”, questionou-me (sendo o número uma referência ao Pavilhão 10, onde Bispo residiu).

- “Sim, conheci.”

- “Como ele era?”, indaguei.

- “Ele era preto.”

* Texto publicado na coluna “Penso”, do caderno Cultura, do jornal Diário Catarinense, em 14 de abril de 2012.

Tenha fé* (17/03/12)

Penso que somos todos homens e mulheres de fé. E ao escrever “fé”, não me refiro à religião mas sim ao poder da crença que legitima nossas existências e que delimita nossos desejos. Alguns exemplos: a) aqueles que acreditam em OVNIS são homens de fé; b) Fábio Brüggemann, nobre colega cujo texto publicado na semana passada nesta coluna foi dedicado a defender a arte, de modo vibrante, também pratica sua fé; c) esse que vos fala e que tem o hábito de plantar temperos em míseros vasos de barro (e que nesses tempos de seca tem que regá-los todos os dias esperando que sirvam para o preparo do alimento) também é um homem de fé.

De minha parte, prefiro crer em pés de pimenta que são bem mais importantes do que a arte, o patrimônio, os concursos públicos, os vinhos, o matrimônio, seja o que for. Por sinal, uma das motivações das grandes navegações do século XV foi o comércio de especiarias que nada mais eram do que produtos de origem vegetal. Em última instância, um pé de pimenta pode ter sido mais decisivo para a ocupação por parte dos europeus do chamado Novo Mundo do que o próprio Américo Vespúcio.

Analisemos com calma: gerações e gerações têm acreditado na força da lei, do casamento, da cultura e da aquisição de bens. E olhe aonde chegamos? Aliás, tenho certeza que a agricultura familiar e orgânica, muito em breve, será o grande sistema de saber da humanidade já que precisamos, antes de qualquer coisa, comer bem. Hoje em dia fazemos de tudo: conversamos com pessoas no outro lado do mundo, ingerimos medicamentos que aliviam até mesmo a dor de existir (os anti-depressivos), andamos de um lado para o outro do planeta em veículos e aviões potentes, mas não conseguimos nos alimentar corretamente. Deixamo-nos consumir pela indústria de alimentos que conseguiu aniquilar nutrientes e nos deu, em troca, toxinas. Pois bem, não há corpo que fique rijo sobre a terra se alimentando de toxinas.

Em breve deveremos reaprender a plantar e a preparar aquilo que colheremos. A palavra “evolução” terá que ser reinventada já que, em boa medida, procederemos com uma volta no tempo. Teremos, ainda, a missão de reorganizar a jornada de trabalho de modo que nos reste tempo para o cultivo de alimentos. Os bancos deverão ampliar linhas de créditos para a agricultura de pequeno porte e o Estado subsidiar a compra de estoques para manter aqueles poucos que ainda restam no campo. Será preciso, ainda, incentivar as novas gerações a trabalharem com a agricultura já que o trabalhador rural envelheceu e seus filhos foram mandados para a cidade grande para estudar (e consumir toxinas da indústria de alimentos, num ciclo nada inteligível).

Por séculos dedicamo-nos a esquecer de nosso pretérito rural e a engendrar sistemas de saber que logo se transformaram em instrumentos de poder. O direito, a agronomia, o jornalismo, a ciência, a literatura, tudo virou instituição e/ou disciplina acadêmica. Aos poucos, delegamos aos juízes, professores e aos pesquisadores o privilégio do conhecimento e os autorizamos a nos dizer o que (e como) as coisas devem ser feitas. A maior parte desses profissionais, por sinal, recebem seus salários por meio do Estado, sintoma de que o conhecimento que temos acesso nos dias de hoje é também uma das formas de se manter o status quo.

A vida não tem regras: quem as estabelecem são as pessoas que a vivem para poderem melhor controlá-la. Antes de qualquer coisa, precisamos respeitar a vida e, somente depois, aqueles que falam sobre ela. É pena que, como bem disse o escritor Louis-Ferdinand Céline (1894-1861), a “experiência é uma lâmpada fraca que só ilumina aquele que a carrega”. Ora, se o saber sobre o viver – isso que chamamos de “experiência” – é uma lâmpada fraca, então sua propagação é rarefeita. É difícil comunicá-lo ao outro posto que se assemelhe a uma vela cuja luminosidade nunca é suficiente para esclarecer as vidas em seu entorno. Paradoxalmente, cada vez mais, precisamos de muita energia para viver. Tomamos coquetéis de vitaminas, iluminamos ruas e terrenos para não serem invadidos por bandidos, abastecemos casas com redes elétricas cada vez mais potentes para fazerem funcionar os equipamentos que definem nossas rotinas. Não obstante, ao acordar nesses dias quentes de verão, quando as lâmpadas estão apagadas, os aparelhos desligados e luz do sol reina indiferente, pergunto-me: para que tudo isso?

Além do mais

Globo Rural

Os canais educativos até que se esforçam. Mas ainda não inventaram nada melhor do que o Globo Rural. Ligue sua TV nas manhãs de domingo ou nas madrugadas dos dias de semana e você terá o melhor programa da televisão brasileira. O agricultor lá do interior envia uma pergunta querendo saber o motivo pelo qual sua plantação de melancia não vingou. A produção do programa vai até um especialista e ele ensina como obter uma colheita eficiente, com uma série de dicas sobre irrigação, adubação e o aproveitamento do solo. Bem que a televisão poderia ser sempre assim: um canal de comunicação entre as pessoas, espaço para a troca de conhecimentos e de saberes. E não esse infindável blá-blá-blá das telenovelas e dos telejornais.

Produtos orgânicos: o olho do consumidor

Em 2009 o Ministério da Agricultura editou uma cartilha sobre como o consumidor pode identificar e fazer uso dos produtos orgânicos. Ilustrada por Ziraldo, a cartilha se encontra disponível em http://www.agricultura.gov.br/desenvolvimento-sustentavel/organicos/publicacoes A proposta é divulgar o selo do SISORG (Sistema Brasileiro de Avaliação de Conformidade Orgânica) que pretende padronizar, identificar e valorizar produtos orgânicos. Vale a pena acessar.

Nietzsche e uma verdade

Um belo dia, Friedrich Nietzsche (1844-1900) pensou: “Deve-se falar somente quando não se pode calar; e falar somente daquilo que se superou – tudo o mais é tagarelice, ‘literatura’, falta de disciplina”. Pois bem, pouco resta a dizer após esse aforismo. Porque conjugá-lo ao limite significa admitir que o texto que você agora lê é absolutamente desnecessário assim como as páginas que o precederam neste jornal podem ser entendidas como pura tagarelices.

* Texto publicado no jornal Diário Catarinense, caderno Cultura, coluna “Penso”, em 17 de março de 2012.

Férias: porque eu prefiro os dias inúteis* (24/01/12)

Por um lado, o sujeito enfrenta um ano inteiro cujos dias dedicados ao trabalho são chamados de “úteis” – o que me faz pensar que, por esta lógica, os finais de semana e feriados seriam inúteis. Para se adequar ao ritmo do mundo do trabalho, que quase nunca coincide com o seu próprio, o mesmo sujeito trata de estabelecer alguns hábitos. Por exemplo, o modo como se desloca ao trabalho ou como pronuncia “bom-dia”; o horário que costuma acordar, almoçar e assim por diante.

As férias, por outro lado, desregulam os comportamentos estabelecidos que se tornaram, por força da repetição, rotina (muitas vezes compreendida como enfado, cansaço, recorrência). Assim – e somente assim – torna-se possível acordar mais tarde sem culpa, ir à praia em pleno dia de semana, restar-se absolutamente inerte sobre um sofá ou então, no caso do Carnaval, sair às ruas com máscaras e pouca roupa sem correr o risco de parecer louco ou indecente. Para muitos, as férias parecem devolver o sabor adocicado de viver. E mesmo para aqueles que não têm direito às férias, o Carnaval é outro momento para essa apoteose do ser.

Penso que há um mecanismo pendular em funcionamento. As pessoas costumam encarar o calendário com uma lógica cristã. Isso porque o imperativo moral, primeiro, ordena muito trabalhar – ação que leva ao sofrimento já que todo excesso pode ocasionar a dor. Somente depois é que o sujeito pode alcançar o justo direito de gozar da existência. Por sinal, para o cristianismo essa redenção final, quase orgástica, ocorrerá tão-somente quando o paraíso for instituído após o Julgamento Final.

Férias, como se diz com a graça do idioma: “Ficar de pernas para o ar”, “sombra e água fresca”. Ou, como diria a destrambelhada Emília, em todos os meses de abril (quando eram proclamadas as férias gerais, inclusive para a negra Tia Anastácia, no Sítio do Pica-Pau Amarelo): a ordem é lagartear! A boneca de pano de Monteiro Lobato exercitava um verbo esquisito (lagartear) ao invés do substantivo (lagarto) porque queria tornar humano um procedimento animal: descansar de modo retumbante, sem maiores preocupações, simplesmente deixar-se estar. Para se curtir as férias é preciso se des-programar, tornar-se um pouco animal e um pouco Emília.

O senso comum diria: “sair da rotina”. Fazer uma viagem tem sido a solução mais recorrente da modernidade. Há aqueles que vivem para viajar (uma condição utópica de nossos dias: viajar sempre e não precisar trabalhar). Abandonar o conforto do lar para se aventurar em outras paragens. É pena que viajar se tornou sinônimo de turismo nos dias de hoje. O turismo, de modo geral, é uma prática e um pensamento inócuo, uma indústria voltada para o deslocamento de imensos contingentes populacionais de um lado para o outro do globo terrestre, sem fazer com que esses trajetos possibilitem quaisquer efeitos intelectuais ou espirituais – salvo exceções.

Uma viagem bem poderia ser o momento para se vivenciar as diferenças de um outro que habita uma realidade distinta daquela do viajante. Contudo, cada vez mais, em termos turísticos, viajar é sinônimo do mesmo: se for à França é preciso ir ao Museu do Louvre (sendo que muitas vezes o indivíduo jamais pisou em um museu na sua própria cidade de origem), se você estiver em Buenos Aires deverá conhecer a Recoleta. O sujeito já sai de casa com um caminhão de compromissos e não deixa o acaso de um percurso tomar conta daquele momento. Sem falar naqueles que dizem conhecer um país após terem passado um ou dois dias lá: tinham “pouco tempo” porque era necessário conhecer outros países. Retornam com centenas de fotos enfadonhas e um repertório limitado de histórias. 

O cineasta alemão Wim Wenders realizou recentemente no Brasil a exposição “Lugares, estranhos e quietos”. Gigantescas fotografias ocupavam um andar do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Cada uma delas havia sido tirada em um local diferente do planeta. No texto de abertura, ele narrou que quando chegava em qualquer cidade (Wenders é um viajante assíduo por conta de seu trabalho como cineasta) e alguém lhe informava que bastava virar à direita para encontrar um famoso ponto turístico, ele tomava o caminho oposto. Seu olhar estava interessado pelas coisas menos grandiloquentes de uma cidade. Seus cliques destacam coisas mínimas e quase invisíveis; o banal instalado em uma imensa superfície coberta pela imagem fotográfica. 

Além do mais 

As Férias do Sr. Hulot, de Jacques Tati

Uma sugestão: se houve um homem do cinema, esse foi Jacques Tati. Seus filmes eram poesias em movimento, marcados pela compreensão precisa da relação entre as imagens e os sons. O riso surge pela sutileza e a atuação do próprio Tati encarnando o ingênuo personagem do Sr. Hulot é um dos pontos altos de todas as suas obras. Talvez, o autor mais brilhante da cinematografia (evidentemente, isso fica por conta da minha modesta opinião). Para quem não o conhece, fica aqui a dica. Aqueles que já o conhecem, um convite para revê-lo. Por sinal, existe um site interessantíssimo dedicado ao cineasta, chamado a “Cidade de Tati”: http://www.tativille.com 

Guia de viagem

Se eu fosse um guia de viagens em Florianópolis, recomendaria o seguinte percurso: 1º) Estreito: apanhe uma fila na ponte. Descontraia. Ligue o som. Afinal, o que é uma hora de sua vida? Dirija-se ao bairro do Estreito, mais precisamente ao Balneário. É ali que moram os velhinhos – ou seja, grande parte da sabedoria desta cidade; 2º) Feiras: visite uma feira de bairro. As pessoas contam histórias ótimas, compram frutas frescas e biscoitos caseiros deliciosos (a maior iguaria brasileira, na minha opinião, não é a feijoada, mas sim os biscoitos de feira); 3º) Não fique apenas nessa Ilha vaidosa, há outros locais tão interessantes quanto Florianópolis. Vale a pena conhecer Jaguaruna, Laguna, Imbituba, Palhoça, entre outros locais próximos.

Ócio criativo

Recentemente, o Governo do Estado de Santa Catarina trouxe o filósofo Domenico de Masi para proferir palestras e consultorias sobre o dito “ócio criativo” aos tupiniquins. A idéia era embasar o turismo catarinense. Bastava conversar com um índio de qualquer etnia que ele teria muito mais a dizer sobre o assunto. Porém, como falar em italiano é mais chique do que qualquer idioma indígena, até que faz algum sentido. O resultado é a forma de turismo que hoje se pratica pelas bandas de cá – algo entre o abjeto e o estúpido – e jantares regados com champanhe entre o então governador Luiz Henrique da Silveira e o ilustre pensador. Talvez não por acaso, a bebida predileta nas areias de Jurerê Internacional seja o champanhe/espumante. É a bebida que supõe a exceção, que traz consigo a idéia de ser ingerida apenas em momentos muito especiais, que produz a fantasia de que se é diferente em meio à maioria.    

* Texto originalmente publicado na coluna “Penso” do caderno “Cultura” do  jornal Diário Catarinense, no dia 21 de janeiro de 2012.