OVOADOR, A DOR OVO, A DOR VOA

João é menino interior, igrejamente educado. Dia após dia, ele fazia pescarias lá para as bandas do sertão. Ocorre que ao contrário da maioria das gentes, ele não gostava de pescar usando a lei da gravidade. Cof-cof. Permitam-me explicar, ou melhor, é mais razoável que o próprio João preste conta de sua pescaria antigravitacional:

- “É assim, ó, não joga o anzol na água não, até porque aqui só tem água no fundinho do poço e olhe lá!”

Certo, João, mas como devemos lançar a linha, então?

- “É, simples, menino! Só amarrar bem amarradinho o anzol na rabiola de uma pipa e soltar ela bem lá no alto. Aí, é só esperar”.

E assim João passava os dias a olhar para o céu azulzinho, esperando que vento soprasse a pipa cada vez mais para cima, até ficar bem pequenininha em seus olhos que chegavam a amarelar quando a linha alinhava com o Sol.

No início, João não queria pescar coisas para se comer, mas sim para se beber. Umas gotas d’água e ele já estaria satisfeito. Ele a dividiria entre os animais que a cada dia desidratavam mais e mais. Mas o diacho é que nem isso ele conseguia.

O vilarejo onde morava parecia ser oco de tão seco. Era mais seco do que os olhos de seu pai, donde nunca saia lágrima alguma. Bem que João preferia o clima feito os olhos da mãe, que faziam água feito fundo de poço por muito pouco.

- “Larga mão dessa bestalhada!!!”, da boca do pai ouviu. “Não tem nada de coisa de pescar no ar! Isso é pra maluco. Água só cai do céu, não adianta nadinha a gente ir buscar lá nas alturas. É assim que deus quis e assim será. Além do mais não tem espaço aqui em casa pra guardar essas coisas que vêm dessas pescarias de doido!”.

Sim, é verdade que até hoje nem uma única gota d´água fora pescada por João. Mas o fato é que, ao acaso (aliás, como em toda pescaria), ele fisgava umas coisinhas que, digamos assim, começavam a fazer volume no quintal da casa simples onde viviam.

Ao pastor, sabedor de que a comunidade agora contava com um menino que pescava no céu, João teve que se explicar:

- “Das coisas do céu, cuido eu!”, asseverou o representante divino, antes que João pudesse lhe dizer “Bom dia”.

O pastor encafifara de querer saber o por quê dessa “pescaria maléfica”. Com tranquilidade bovina, João respondeu:

- “Cada um tem seu ofício. O senhor tem o seu, eu tenho o meu. Para o seu entendimento, eu sou pescador aeroespacial. E o que tenho que fazer, feito será. Amém”.

Virou as costas e deu no pé. Não se sabe exatamente donde ele tirava expressões como “pescador aeroespacial”, mas certamente tinha parte nisso a televisão da bodega: sempre ligada num contraponto energético à dona do estabelecimento (João jurava que a vira babando sobre o sobre o balcão enquanto assistia um programa vespertino televisivo).

* * *

Dia desses, por exemplo, João pescou urubu todo preto, só mesmo as rodelas dos olhos eram brancas. Eis o que o negro bicho lhe falou:

- “Ser urubu é dureza. Sou grande demais para a aérea natureza. Quando bate o sol fico mais quente do que pão quando sai do forno. Eu preciso voar bem alto, lá pra cima, e me limpar das porcarias que como todo dia. As pessoas me confundem com uma lixeira voadora que traz mau agouro e maldição. Eu me alimento de carniça. E carniça tem gosto de morte. Lá de longe eu vejo coisas vivas e preferiria mesmo era ser pequenino, voar baixo e comer alpiste feito os canários-da-telha. Eles são amarelos porque aprenderam a cantar”.

João interrompeu dizendo que gostava de urubus, que ele não precisava ficar assim ressentido. Deliberou que o levaria para casa e amarrou sua pata em um cordão bem longo, preso a uma árvore do quintal.

Num outro dia, era cedo, manhãzinha, João estava a postos para lançar o anzol outra vez. Pouco demorou para a linha ficar mais leve do que o normal. Parecia que o ar não mais a sustentava e que agora manejava a linha como se fosse uma pluma. Quando recolheu pipa e anzol de volta à terra, entendeu o que acontecera.

- “Uma nuvem!”, gritou feliz a pular na terra dura feito as palavras do pai. Logo percebeu que a nuvem era toda dispersa, não conseguia tocar uma conversa. Falava sem sentido, mas tinha rima e ritmo, para acompanhar os seus motivos. João bem quietinho ouvia, para ver se entendia o que aquele cumulus dizia:

- “Lá é cá, lado para outro, não sou dona de mim. É vento quem forja o meu ser. Melhor, nunca sou, sempre estou, perdida entre o nada e o lugar nenhum”.

A nuvem fez uma pausa que gerou um clima. Ficou toda escura e a falar continuou, mas agora vertendo lágrimas, que logo temporal virou:

- “Depois que chovo, esqueço de mim. É como se nunca tivesse existido. Eu sou amnésia, não sei quem é minha mãe e nem quando nasci. Todos passam dentro de mim e ninguém fica, até o desgraçado urubu. Eu mordo as bordas, fico preta, branca, nem sei mesmo a minha cor. Dependo de correntes, mas não sou prisioneira. Dizem que sou livre, mas o céu é minha cadeia”.

João a interrompeu, “Para de resmungar, desanuvia!” e logo anunciou que nunca mais precisaria se preocupar. Ele cuidaria dela, levando-a para sua casa onde na geladeira moraria.

Tempos depois, João correu para nova pescaria. Já era mestre em erguer o que ele chamava de “pipanzol”. Mas não sabia se da sexta série passaria. O que não tinha conhecimento era que naquela tarde tanta dificuldade teria. É que quando anzol fisgou, percebeu que era “peixe grande” e que o peso era maior que o de uma roda gigante. Bravo e safo, em torno do corpo amarrou a linha, não sem antes se vestir com uma folha de bananeira que ali havia. Demorou mais de hora e meia, pouco importa, pois fez a colheita.

- “Welcome to… Where is here?!?”

Um avião pouso forçado fez, espantado, João pediu para ele não falar inglês:

- “Ah, desculpe. É que sou voo internacional. Mas no fundo é sempre bom ter imprevistos. Você me pescar foi a melhor coisa que me ocorreu nos últimos anos. Quando temos contratempos, geralmente são trágicos: caímos no mar ou na terra e não sobra ninguém para contar história”.

João pediu e o avião se dispôs a contar outras histórias.

- “João, essa vida de avião é fácil não. Sempre um destino a cumprir, uma cidade a partir, uma torre a sorrir. Quando estamos parados, é para mexerem dentro da gente com a desculpa de que é manutenção. Eu fui inventado para planar solto por aí, mas não posso fazer isso porque sempre tenho horários a cumprir”.

Com a triste história, João compadecido ficou. Sem demora o colocou numa sacola e para a casa o levou.

* * *

A parte estranha dessa história, ninguém no vilarejo acredita. É quando se conta do dia em que ao invés de pescar, João, pescado foi.

- “Eu estava em meu posto, começando a preparar a instrumentação da pescaria aeroespacial. Eu tava agachado, com a cara para a terra, tentando prender o anzol na pipa. Foi quando senti uma fisgada no meu pescoço e comecei a voar sem precisar fazer força alguma. Eu olhei para meus braços e não vi par de asas nenhum. Foi aí que comecei a estranhar a minha repentina capacidade de levitação. Eu não sabia para onde ia, só sentia que alguma coisa, como se fosse uma linha, me puxava cada vez mais para o alto. Durante um tempo, eu resisti, mas no momento em que minhas forças acabaram, comecei a subir ainda mais. Ao chegar bem lá no alto, fui recebido por uma codorna pescadora:

- “Menino, você sabia que no Mar Tirreno, há muitos anos atrás, havia pescaria de codornas?”

“Eu não sabia onde era o mar Tirreno muito menos que havia cordornas vivendo na nossa região:”

- “Isso não tem importância: apenas confie que no Mar Tirreno, os pescadores pescavam mais codornas do peixes, geralmente no mês de outubro, isso por volta do ano 1500”.

- “E o que eu tenho que ver com isso, senhora Cordona?”

- “Nada, eu só lhe pesquei para dizer que você não é nada original. Tenha um bom dia”.

Desde então, João se aposentou das pescarias aeroespaciais. Dizem, até, que ele vai entrar para a universidade.

Além do mais

“Por que é que as codornas seguem um guia de outra espécie que não a delas, chamado pelos gregos de ortugometra? Resposta: É um fato provado por longa experiência, que as codornas vão e vem em grandes bandos, e tentam passar os rios e o mar sob a guia do Ortugometra (…), contanto que não sejam forçadas a se afogarem, estando cansadas de um trecho excessivamente longo de seu voo; disso deriva que os pescadores tiram maior proveito, em vários lugares, da pesca das codornas que dos peixes, principalmente à margem do mar da Sicília e do mar Tirreno”. (Jean Bodin, Universae naturae theatrum, 1596)

 

* Este texto foi publicado, reduzido, no caderno Cultura, coluna Penso, do jornal Diário Catarinense, em 13 de abril de 2013. Esta é a versão integral da história, com o título original OVOADOR, A DOR OVO, A DOR VOA.


3 comentários:

  1. Diz pra ele continuar com as pescarias: nada de universidade!
    Que bonito! belas imagens, Fernando!

  2. ana says:

    querido João,
    que linda história! tem tantas possibilidades… aposto até que os corta-barato (o pai seco, o padre, a codorna) se empolgaram com o conto.
    minha sugestão interesseira: abra com o urubu um boteco, sirvam bolinho de ovo de codorna, peguem a nuvem, encham com as lágrimas da mãe e façam uma ducha.
    beijos!

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