O que vai, o que fica*

Na Alemanha, algo aconteceu. O trabalho artístico intitulado “Was fließt, was bleibt”, do brasileiro Tiago Romagnani Silveira, nascido em Florianópolis, redirecionou o rio Ilm, entre os dias 20 e 22 de setembro, numa área do parque situada em frente ao castelo da cidade de Weimar.

Historicamente, os rios foram domados pelo homem. Canais, dragagens, poluição. Nas palavras do artista, “o trabalho é uma reflexão poética sobre decisões e responsabilidades, sobre mudança e permanência”. Não por acaso, o título “Was fließt, was bleibt” quer dizer algo como “O que vai, o que fica”.

Desviar um curso d´água. Uma ideia simples, mas que assumiu proporções maiúsculas, com implicações filosóficas, geopolíticas, religiosas e, fatalmente, ecológicas. Por sinal, esta é a primeira querela que a intervenção suscita: como assim desviar a calha de um rio? E as implicações ambientais? Eis o sintoma de que o discurso ecológico tem sido uma das principais balizas morais da contemporaneidade: quase todas as ações humanas estão sujeitas à censura ou não daquilo que se considera ecologicamente correto, inclusive a arte. É sempre ele quem trata de dizer: “isso pode” ou “isso não pode”.

A arte é o que avança em direção as interdições, ultrapassando aquilo que era considerado norma e hábito: “Nós estamos constantemente em troca com nosso meio ambiente, adaptando-nos com as mudanças e ao mesmo tempo agindo para recriá-lo de acordo com o modo como vemos o mundo. O que me interessa nessa negociação é redefinir nosso entorno e ser redefinido por ele”, declarou Tiago.

O que se passou em Weimar, em boa medida, foi um pequeno e efêmero milagre. Afinal, a bíblia nos conta que Maomé abriu os mares, Cristo andou sobre as ondas e que a fé move montanhas, só para ficarmos nas anedotas mais conhecidas. Ora, se a narrativa religiosa é capaz de fazer tudo isso, por que a arte não pode deslocar o endereço de um rio por três dias?

Saber que essa ação foi realizada por um latino em uma dos países europeus mais rígidos, de algum modo, reforça a ideia de que geopolítica contemporânea está sendo redesenhada. Afinal, eram os europeus quem alteravam o curso de nossos rios, usurpavam nossos minérios e comiam nossas bananas (eles continuam a fazê-lo, evidentemente).

A execução de “O que vai, o que fica” certamente poderia figurar como o décimo terceiro na lista dos trabalhos de Hércules. Definitivamente, desviar um rio numa cidade tombada como patrimônio histórico da humanidade pela UNESCO não deve ter sido algo fácil. Weimar, a cidade que acolheu Bach, Goethe, Schiller, Walter Gropius (fundador da Bauhaus, não por acaso a cidade possui a Universidade Bauhaus Weimar, onde Tiago fez mestrado em arte nos espaços públicos) e assistiu aos últimos dias de Nietzsche: “A necessidade férrea é uma coisa acerca da qual os homens aprendem, no curso da história, que não é férrea e nem necessária”.

Humano, demasiado humano. E sutil. O gesto do artista provocou não apenas um desvio físico, mas também inverteu sentidos. Afinal, tratou-se de algo absolutamente desnecessário, num mundo cada vez mais repleto de necessidades férreas (sobretudo em tempos de eleições políticas). A publicidade, a qualidade de vida, o mundo do trabalho, as cobranças sobre o indivíduo no âmbito familiar e social, sempre imperativas a dizer: “É preciso fazer isso”, “É necessário realizar aquilo”.

A arte não se encontra mais, apenas e por sorte, numa superfície coberta por traço e tinta (desenho e pintura) ou num volume modelado (escultura). Essas possibilidades plásticas continuam a existir e a proporcionar obras interessantíssimas. Contudo, outros territórios têm sido explorados pelos artistas contemporâneos. E talvez seja essa uma das metáforas inconscientes do trabalho de Tiago: desterritorializar um rio que há séculos flui na mesma calha, provocar um estranhamento, criar outros caminhos para o mesmo. Afinal, há sempre algo que vai e algo que fica.

Além do mais
Sobre a reinauguração do Teatro Ademir Rosa
Em Weimar, um rio serpenteava. Do lado de cá do oceano, reinaugurava-se um teatro com Balé Bolshoi – o luxo decadente importado das cinzas da Rússia czarista.

Em Roma, Dirce Körbes
Na Itália, algo mais bem comportado, mas nem por isso menos interessante. A artista Dirce Körbes, que vive e trabalha em Florianópolis, apresenta suas pinturas na Galleria Tartaglia Arte. O texto da mostra, assinado por Arnaldo Zambardi, diz: “Nesta exposição, de fato, Körbes confirma plenamente sua excepcional sensibilidade para representar e transformar a realidade, aparentemente trivial”.

* Texto publicado na coluna “Penso”, do Caderno Cultura, do jornal Diário Catarinense, em 29 de seteombro de 2012.


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