O Esteves da Tabacaria*

Há um poema que me acompanha há anos, sempre em algum canto, na maior parte das vezes, inconsciente do meu pensamento. Certamente, ele não caminha apenas ao meu lado. Assim como eu, muitos fazem de “Tabacaria”, de Fernando Pessoa (1888-1935), uma espécie de “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944): um texto para ser lido no gerúndio, com leitura e releituras ao longo do tempo. Afinal, a cada fase da vida, ele parece nos dizer algo de fundamental.

É claro que, ao menos no meu fraco entendimento, Fernando Pessoa coloca o escritor e aviador francês no bolso. Talvez por viver nas alturas, Saint-Exupéry não tinha a verve do poeta português e de seus colegas imaginários Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Bernardo Soares, Ricardo Reis. Não por acaso, escolheu um planeta fora de órbita para a morada do Pequeno Príncipe, mais precisamente, o asteroide B 612. Nele, bastava que o principezinho podasse os baobás e limpasse o vulcão (isso até que nasceu uma rosa e ele descobriu o amor, mas isso é assunto para um outro departamento…).

Fernando Pessoa era habitado pelo desejo obsessivo de compreender por que a morte tem a mania de “por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens”. Inquietava-o a ideia do Destino (com “d” maiúsculo) que se encarrega de “conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada”. E para buscar respostas sobre o insondável, que nenhum deus nos concede ao nascer, foi-lhe preciso apanhar a lava do vulcão com as próprias mãos: “Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente / O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo”. Pessoa foi aquele quem decidiu podar e enterrar toda e qualquer metafísica (ao invés de baobás): “Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. / Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria”.

O que há de fenomenal em Fernando Pessoa é a intensidade de seus pensamentos assim como a incrível capacidade e clareza para comunicar as suas impressões por meio dos poemas. Quase sempre, ele chega à conclusão de que não é preciso se preocupar tanto com as coisas – embora não consiga parar de pensar e escrever sobre isso, o que configura a contradição da escrita.

Mas hoje, nesse momento em especial, gostaria de refletir sobre um trecho específico de “Tabacaria”. Na verdade, ater-me-ei aos últimos versos: é quando aparece o Esteves, que chega à tabacaria (“para comprar tabaco?”) situada em frente à janela donde o poeta se encontra. É nesse instante que Pessoa acende um cigarro que antecede uma espécie de epifania às avessas que se apresentará ao término do poema: “E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. / Sigo o fumo como uma rota própria, / E gozo, num momento sensitivo e competente, / A libertação de todas as especulações”.

O poeta desce do alto de suas fantasias ontológicas após a simples e casual chegada de um conhecido que lhe saúda do outro lado da rua. O universo se reordena perante o banal, conforme suas palavras “reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança”. Até ali, ao longo do extenso poema, Álvaro de Campos (heterônimo de Pessoa que assina a composição) parecia estar num verdadeiro transe em busca do sentido e do não-sentido do existir: acessa profundidades abissais e as contradições do ser; constata o horror e o encanto de se estar vivo. Porém, a cada instante duvida de si e da realidade em seu entorno, atingindo um grau de angústia em relação a tudo aquilo que o cerca e que traz dentro de si.

Quando era mais jovem, deleitava-me com os trechos mais dramáticos: “Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? / Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! / E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!”. Prefiro, agora, cada vez mais, a brevidade de um adeus de até logo do Esteves, o sorriso gratuito do dono da Tabacaria. Gosto mais das pessoas de carne e osso que Fernando Pessoa viu e descreveu do que do próprio poeta.

Cansei de seguir a estratégia também adotada por Enrique Vila-Matas que, até então sempre havia funcionado bem: “esse sistema de viajar pela angústia de outros para reduzir a intensidade da minha”. Ou ainda, utilizando-me novamente das palavras de Pessoa, estou fatigado de buscar “o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres”. Quem dera ser um ruminante! E perambular distraído pelo pasto, afinal “nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras”.

 

Além do mais

Indicação de leitura

Enrique Vila-Matas é autor de um livro essencial sobre a arte do não. Em “Bartleby e companhia” (Cosac Naify), o narrador relata a vida e a obra de escritores que, em determinado momento, abandonaram a literatura e se negaram a continuar escrevendo. Conscientemente, Vila-Matas deixou de fora (salvo merecidas exceções) o caso de escritores que optaram pelo suicídio para interromper suas vidas e obras: “Penso em minha dor já superada e digo a mim mesmo que se vive uma sensação muito prazerosa quando o mal desaparece, pois então se assiste de novo a uma representação do dia em que, pela primeira vez, nós nos sentimos vivos, estivemos conscientes de que éramos um ser humano, nascido para a morte, mas vivo naquele instante”.

 

“Total Cinema” em galeria de arte

Dica de uma exposição que abrirá na semana que vem: “Total Cinema”, de Giba Duarte. O artista tem sido uma das ótimas novidades no circuito da arte contemporânea, com um trabalho fotográfico que recebe interferências da pintura e de outras imagens. É um dos herdeiros do caminho trilhado por artistas como Carlos Asp. Dia 17 de janeiro, às 19h, na Cor Galeria de Arte, localizada na SC-401 (número 7135), no caminho das praias do norte de Florianópolis. Na abertura, o som estará por conta de Ledgroove. Visitações até 2 de fevereiro. corgaleriadearte.blogspot.com

* Texto publicado na coluna Penso do caderno Cultura do jornal Diário Catarinense em 19 de janeiro de 2013.


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