Modernismo: os novos e os velhos*

Em novembro de 1957, ocorria a abertura da I Exposição de Pinturas e Desenhos de Motivos Catarinenses, de Hassis Corrêa e Ernesto Meyer Filho, no Instituto Brasil-Estados Unidos, em Florianópolis. A segunda geração de modernistas nas artes plásticas locais estruturar-se-ia em torno desta mostra, sucedendo nomes como Eduardo Dias, Martinho de Haro, Franklin Cascaes, Willy Zumblick e Malinverni Filho.

Até o ano de 1961, o Grupo de Artistas Plásticos de Florianópolis (GAPF), cujo primeiro salão fora realizado em 1958, agitaria o panorama artístico, reunindo Pedro Paulo Vecchietti, Tércio da Gama, Hugo Mund Júnior, Aldo Nunes, Thales Brognoli, Dimas Rosa e Rodrigo de Haro, além de Hassis e Meyer Filho. O GAPF deu continuidade ao processo instaurado na década passada pelo Círculo de Arte Moderna (CAM), no campo da literatura e do cinema (o primeiro longa metragem catarinense, O Preço da Ilusão, título sintomático, seria produzido pelo Grupo em 1957). O CAM, que passaria a ser conhecido como Grupo Sul, pode ser definido, resumidamente, como uma rede de artistas e intelectuais que propuseram a discussão, produção e veiculação da arte moderna em Florianópolis, lançando assim novos valores. O principal meio do grupo seria a Revista Sul, publicada de 1948 a 1957, num total de trinta números.

Apesar de propagandearem um suposto marasmo que seria característico do estado das coisas da arte e da cultura na cidade, em 1957, por exemplo, é possível identificar ao menos outras cinco exposições de arte ocorrendo na cidade. Na Agência da A.F.L., à rua Felipe Schmidt, o lageano Ruy Ghiorzi expunha dois crayons e um bico-de-pena, devidamente registrados no jornal O Estado, em 14 de novembro. Já o IIº Salão Catarinense de Arte Fotográfica era realizado no edifício do prédio do IAPC e recebia matéria de capa do Diário da Tarde de 4 de dezembro. Acary Margarida, “o poeta de nossa terra”, segundo a capa do jornal O Estado de 23 de novembro, assinada por Paschoal Apóstolo, também estava expondo. A mostra que mais se destacava era a XXIIIª Exposição de Pinturas de Willy Zumblick, que recebia ampla cobertura dos jornais. A sua abertura havia sido um ato “(…) solene, contando com as mais altas autoridades civis, militares e eclesiásticas, além de pessoas de nossa melhor sociedade (sic) e grande número de convidados e representantes de todas as classes sociais”, conforme o jornal O Estado de 12 de novembro. No dia 20 do mesmo mês, surgia nas páginas dos diários o nome de Emeric Marcier – “artista húngaro ligado por laços familiares a gente de nossa terra”, de acordo com Egas Godinho, pseudônimo de Osvaldo Rodrigues Cabral – que inaugurava exposição na antiga residência “do dr. Manoel Pedro Silveira, à esquina das ruas Trajano e Tenente Silveira”. No mesmo texto, descobre-se que o artista era casado com a catarinense filha do “saudoso General Vieira Rosa”. É pena que a exposição de Emeric Marcier, um vigoroso artista modernista, que chegou a ser professor de Djanira, tenha se tornado assunto para as colunas sociais (aliás, algo corriqueiro ainda hoje). O fato é que a repercussão crítica foi quase nula. Será que os modernistas de plantão não tiveram olhos para avaliar a importância da passagem de Marcier pela Ilha de Santa Catarina?

O ambiente cultural na segunda metade da década de 1950 não era, portanto, tão modorrento como se costumava, ordinariamente, afirmar (isso que nos detivemos apenas nas artes plásticas). Em verdade, dizer que “nada acontece”, que há um “vazio” ou mesmo julgar que se está “atrasado” não deixa de ser uma estratégia, ainda hoje muito útil a alguns, para se tomar de assalto determinado circuito e, sobretudo, seu capital simbólico (capaz de lhes prover recursos e prestígio). É um agitprop desprovido de consequência política, arranjado para se tomar o lugar de, em nome de.

Desvalorizar o antigo é tática do capital. A indústria eletrônica, por exemplo, não nos permite manter um equipamento por mais de dez anos. Indefectivelmente, eles estragam antes disso, no ciclo da obsolescência programada. Nas artes, os modernistas – mesmo porque, no Brasil, eles apareceram em tempos de guerra e de industrialização – se apropriaram dessa estratégia e, antes de iniciarem seus trabalhos, costumavam “limpar o terreno”. Por meio de seus veículos de comunicação (revistas, suplementos culturais, etc.), espalhavam aos quatro ventos que antes deles não havia nada ou quase nada. De modo geral, eles tiveram pouco gosto pela pesquisa. Estavam muito ocupados em se deslumbrar com a tecnologia, ocupar cargos públicos e em cuidar de seus egos. Talvez por isso, costumavam mostrar apenas a si próprios, como num jogo de espelhos. Sorte nossa que os modernistas oficialescos em tempos da ditadura de Getúlio Vargas, capitaneados por Gustavo Capanema, foram menos egóicos e souberam retomar, por exemplo, o barroco mineiro (que, na verdade, era rococó, mas tudo bem).

O ideal modernista teve fértil terreno também na arquitetura e no urbanismo. O sonho de Le Corbusier, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e companhia era construir a partir do nada. Para eles, era muito complicado criar em um tecido urbano já existente, com seus vestígios, memórias, vícios e tradições (deve ser porque realmente dá algum trabalho compreender a história). Por isso, foram até o Planalto Central erguer a Capital Federal em meio ao descampado, acreditando que seria possível construir uma cidade moderna e eficiente, numa loucura desvairada patrocinada pela presidência da república em tempos de JK. Em Florianópolis, a herança maldita dos modernistas continua a funcionar: constróem-se aterros e mais aterros, numa esperança de que as vias, passeios e prédios que ali se fundam funcionem numa lógica mais ordenada.

Batidíssima coisa é a questão do “novo” e do “velho” e nem mesmo é exclusividade da modernidade. Como dizia aquele poeta: “Il est des morts, qu´il faut qu´on tue” (“Há mortos que precisamos matar”). A querela entre os antigos e os modernos agitou a academia francesa no século XVII, opondo Nicolas Boileau (1636-1711) e Charles Perrault (1628-1703). E na Antiguidade Clássica, Ésquilo (526-456 a.C.), não podendo suportar os triunfos de Sófocles (495-406 a.C.), abandonou Atenas e foi morrer na Sicília, num gesto que assinalou o recuo do “velho” glorioso ante as investidas da “nova” técnica. Como dizia meu bisavô, Altino Flôres, são “ressacas mais ou menos violentas, depois das quais os estragos se remedeiam”.

 

Além do mais

Originalidade abracadábrica

Os abracadábricos excessos modernistas em busca da originalidade suprema podem ser refutados pelo bom e velho Goethe, em suas conversações com Eckermann: “Fala-se sempre de originalidade; mas, que quer dizer isso? Logo que nascemos, começa o mundo a atuar sobre nós e assim prossegue até a nossa morte. E, além disso, que poderemos chamar de nosso, verdadeiramente, a não ser a energia, a força, o querer? Se eu pudesse especificar o que devo aos grandes antepassados e contemporâneos, não ficaria muito que referir como sendo meu”.

 

A prole dos pequenos animais

“Movimento algum deu jamais no Brasil tantos poetas (surgiam até aos magotes, três, quatro, cinco, pelas cidadezinhas do interior, subscrevendo cadernos desenxabidos de poemas) como o Modernismo. Foi um movimento prenhe de poetas exíguos e numerosos tal qual a prole dos pequenos animais”. Jorge de Lima pegou pesado com os modernistas mas, pensando bem, não é que ele tinha razão?

* Texto publicado na coluna Penso do jornal Diário Catarinense em 11 de maio de 2013.


Um comentário:

  1. Caro, Fernando, entre o Plínio velho e o novo qual é mais moderno? Quando surgiu o adjetivo “moderno” 1400, 1500?

    A desmoralização tácita no capitalismo dos planos de pesquisas artísticas se deve ao duradouro desejo efêmero de ser inusitado.
    Portanto a volta a terra, aos elementos físicos primários constitui a essência da modernidade, quer nas artes quer nas ciências.
    Fogo >+< água são as ferramentas. abs.

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