Jandira Lorenz: um albatroz no cotidiano*

A crítica de arte praticamente desapareceu dos jornais brasileiros. As páginas agora dedicadas à cultura estão abarrotadas de press-releases (“comunicados de imprensa” divulgados por assessorias pagas para divulgar produtos culturais). Raros são os espaços midiáticos onde se pode ler e discutir de maneira aprofundada sobre trabalhos artísticos.

Por esse motivo tenho dedicado alguns artigos desta coluna Penso para debater exposições, filmes, instituições culturais e outros assuntos. Tarefa um tanto inglória: é como escrever no escuro já que há pouquíssimo retorno de todas as partes. Mas talvez seja este o sinal de que se trilhe a vereda correta: onde existe silêncio e solidão, há também espaço para a reflexão (sobre si e o entorno).

Somos filhos de um tempo cujos valores são determinados pela capacidade do sujeito produzir e consumir. O excesso e a repetição são ingredientes indispensáveis dessa lógica. Um contraponto a isso é a obra da artista visual Jandira Lorenz: nela, encontra-se a possibilidade de uma existência serena em meio ao ambiente múltiplo e convulsivo em que vivemos.

Desde o seu canto, o mundo fulgura-lhe um rico repertório de formas, histórias e estados da alma que são traçados sobre grandes folhas de papel espesso. Residindo há décadas em Santo Antônio de Lisboa, em Florianópolis, é lá que ela se dedica a tecer, como uma fiandeira, uma obra precisa e generosa, comunicando-nos passagens em que a paz do espírito e a sanidade do corpo são a tônica. Para tanto, faz ecoar vozes de outras eras, estabelecendo pontes entre lugares distantes.

A cada desenho é como se erguesse uma catedral de esplêndida luminosidade. Não por acaso, Jandira também é vitralista. Em sua arquitetura interior, mostra-nos seres também iluminados (por dentro) a contemplar a natureza. A artista da luz, confessa, também adora o escuro: a sábia Jandira sabe muito bem que os opostos prescindem um do outro.

Assim como nós que olhamos seus desenhos, as personagens de Jandira se posicionam de modo reflexivo fazendo uso da quietude do observar e do pensar. Não por acaso, ela ama os animais, sobretudo cães e gatos. Assim como eles, a artista está sempre à espreita. Contemplar sua obra é um exercício de entrega a um universo singular cujas referências à mitologia e à própria experiência cotidiana possibilitam um mergulho intenso. Tornamo-nos outros ao senti-la, revestimo-nos de um tempo distante, transportamo-nos para um espaço ficcional mais forte do que o plano do real. Eu queria viver entre as linhas de Jandira, virar aquele ser mitológico que nos encara de frente.

Embora o seu fazer (ou seja, a técnica, o modo como aplica o traço sobre o papel e como estrutura os planos) responda por toda uma tradição da arte ocidental, definitivamente, há algo de oriental no procedimento da artista. Trata-se de um modo de ver o mundo, de uma busca pela experiência espiritual da contemplação e da sutileza. Por isso, antes de qualquer coisa, fica o convite para se viajar pelo universo onírico e pelas dimensões de sentido que nos são, generosamente, compartilhadas pela artista.

Há artistas que trabalham no silêncio, numa espécie de obscuridade em relação ao circuito artístico. A presença de Jandira Lorez na arte feita em Santa Catarina tem o efeito de uma ilha em meio ao oceano: é terra firme cercada de plenitude por todos os lados.

 

Além do mais

Jandira na Fundação Cultural Badesc

Até o dia 15 de março, uma oportunidade para conhecer ou rever a obra de Jandira Lorenz encontra-se na Fundação Cultural Badesc (Rua Visconde de Ouro Preto, 216, Centro, Florianópolis). A mostra é uma realização do SESC-SC e irá itinerar por mais de 20 municípios catarinenses nos próximos anos. No texto que escreveu especialmente para a exposição, o artista e crítico João Otávio Neves Filho (Janga), diz: “Com uma tranquila segurança [Jandira] comunica-nos conteúdos humanistas esclarecedores e críticos, harmonizando-nos com o processo em que vivemos. Assume corajosamente uma postura humanista num mundo cada vez mais niilista e brutal”.

Interartive

Por falar em arte, um dos espaços para se ver arte contemporânea hoje não tem paredes e existe apenas na nuvem virtual. É o Interartive (http://interartive.org/), website que mensalmente apresenta exposições em sua galeria virtual, além de publicar interessantes artigos. É realizado colaborativamente entre a Espanha, Grécia, Itália e o Brasil (por cá, é organizado por Lucila Vilela).

 

Dois

Duas frases a me perseguir nestes dias de verão (ou talvez seja eu quem as procure): “Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu” (Helio Pellegrino). A outra: “Normalidade é um excesso de adaptação ao mundo, um sintoma de quando a tolerância ao sofrimento se mostra elevada.” (C. I. Dunker).

* Texto publicado na coluna Penso do caderno Cultura do jornal Diário Catarinense em 16 de fevereiro de 2013.

 


3 comentários:

  1. Cristiano says:

    Caro Fernando,
    Como sempre, seu texto é impecável. Gostei muito da leitura e de conhecer um pouco de Jandira Lorenz. Aquele abraço.

  2. lengo d'noronha says:

    Fernando, esperamos e desejamos que você continue compartilhando seus textos e que fique onde está (para bom entendedor …). Forte abraço.

  3. Giba Duarte says:

    ……….Assume corajosamente uma postura humanista num mundo cada vez mais niilista e brutal………

    Ótimo texto e uma delicada “introdução” ao Mundo Jandira Lorez

    Gracias

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