Isto (não) é um filme?*

Penso que discordo de Fabio Brüggemann. Em texto publicado sábado último, nesta mesma coluna*, inflamado, como de costume, meu nobre colega se dedicou a espinafrar “Argo”, vencedor do Oscar de melhor filme: “Como cinematografia, não vale um dólar furado”. O arremate me fez lembrar a declaração do Ministro da Cultura e de Orientação Islâmica do Irã, Mohammad Hosseini: “Este filme antiiraniano carece de quaisquer aspectos artísticos”. Bem, queria ter esse dólar furado no bolso e esse não-filme de arte no meu currículo. Isso porque, de alguma forma, ele conseguiu agitar o marasmo da política internacional.

Dirigido e protagonizado por Ben Affleck, “Argo” narra a operação da CIA e do Estado do Canadá para exfiltrar, desde o território iraniano, seis funcionários fugitivos da embaixada dos Estados Unidos em Teerã, tomada de assalto por uma revolta estudantil decorrente da Revolução Islâmica em 1979. Cerca de 50 funcionários estadounidenses foram mantidos reféns durante 444 dias, num dos impasses diplomáticos mais graves do século XX, que se arrastou até o término do mandato do presidente Jimmy Carter (1977-1981).

Concordo plenamente, em termos estéticos, no que diz respeito a pouca inventividade do filme. É mais do mesmo. Os elementos básicos e já tradicionais do modo de se fazer cinema em Hollywood: os heróis e os vilões, a história de amor, os cidadãos dos Estados Unidos em risco (o que me fez lembrar os antigos filmes de Chuck Norris), a montagem paralela e, por fim, o clímax seguido do happy end. Nada de novo no front, portanto (ainda que eu tenha uma ressalva: se no Brasil fosse, o saber acumulado em torno do fazer roteiros cinematográficos em Hollywood seria tombado como patrimônio imaterial, algo que se deveria valorizar…).

Muita calma nessa hora, porém. Como historiador preciso lembrar que filmes, não necessariamente, tornam-se importantes por questões artísticas. Reduzir o cinema aos “aspectos artísticos” ou àquilo que se entende por “cinematografia” significa reduzir o alcance simbólico desses produtos culturais. Os filmes de Leni Riefenstahl deixam de ser fulgores cinematográficos por que propagandeavam o regime nazista? Ou, para ficarmos no cinema hollywoodiano, as películas de Clint Eastwood são furadas por deixarem transparecer o lado republicano e conservador do diretor?

Para sustentar seu ponto de vista sobre “Argo”, Brüggemann citou José Geraldo Couto, crítico de cinema (e também excelente tradutor, jornalista esportivo e jogador de futebol, nas horas vagas) que assinalou “a total falta de interesse dos realizadores em conhecer o ‘outro’, em tentar, ao menos por um instante, se aproximar do seu ponto de vista, buscar compreender suas motivações. O que há é um ‘nós’ e um ‘eles’, como nos velhos filmes de índios, ou de alienígenas”.

A primeira sequência de “Argo” é uma espécie de prefácio que retoma os eventos históricos que deram origem à crise contemporânea entre Estados Unidos e Irã, evidenciando a participação da Grã-Bretanha e dos ianques no golpe de estado que levou ao poder o xá Reza Pahlevi, em 1953. O regime opressivo e pró-ocidente exercido por ele foi a principal causa da revolta que declararia, em 1979, oficialmente, o Irã como uma república islâmica cuja autoridade suprema estaria destinada a um chefe religioso, o aiatolá Khomeini (que apoiou a invasão à embaixada). Em outros momentos do filme, líderes femininas declaram publicamente que os reféns só seriam libertados quando os Estados Unidos revogassem o asilo político concedido em seu território ao xá Reza Pahlevi, que fugiu do Irã para não ser julgado por seus crimes.

Embora os minutos (ou talvez segundos) dedicados ao “outro” iraniano sejam mínimos, eles existem e são marcantes ao longo do filme. Continuamos não sabendo quem é aquela gente e suas histórias. O estrangeiro ainda é o bárbaro, contudo há um reconhecimento da parte de culpa que lhes cabe – o que talvez não passe de uma forma barata de expiação cristã – mas que em termos simbólicos não mais legitima o governo e os cidadãos dos Estados Unidos na condição de vítimas do terrorismo. Um dos primeiros planos de “Argo”, por sinal, mostra a bandeira do país sendo queimada pelos revoltosos em Teerã, anúncio emblemático da crise que a nação vivia e, sobretudo, vive. Vale lembrar que há menos de um ano, o diplomata Christopher Stevens foi morto na Líbia durante a invasão do consulado motivada pela divulgação do trailer de um filme que ridicularizava Maomé e acabou incendiando o mundo islâmico. Seu corpo foi arrastado como despojo de guerra pelas ruas de Benghazi.

“Argo” é tacanho ao fazer reaparecer, ao final, a bandeira tremulante, intacta, no quintal da casa do herói da CIA que retorna após a missão e é recebido calorosamente pela esposa e filho, reconstituindo o aspecto de normalidade tranquila à vida que se encontrava outrora em risco. A derrocada do império está em marcha e “Argo” a coloca em discussão, a partir de um episódio pretérito, que continua a repercutir na atribulada relação que os Estados Unidos mantêm com o Oriente Médio.

E se o Ministro da Cultura e Orientação Islâmica aproveitou a onda para se juntar à crítica politicamente correta a “Argo”, não custa lembrar que o Irã baniu um dos diretores mais aclamados pelo cinema de arte, vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza em 2003, Jafar Panahi. Autor de pérolas como “O Balão Branco” (1995), “O Espelho” (1997) e “O Círculo” (2000), ele foi acusado e condenado por “conluio com a intenção de cometer crimes contra a segurança nacional e propaganda contra a República Islâmica”. A pena outorgada em 2010 foi de 6 anos de prisão e de 20 anos de proibição em fazer filmes.

Não é o caso, aqui, de defender os Estados Unidos ou o Irã, mas sim de lembrar que os Estados Nacionais não deixam de ser instâncias de legitimação da violência e da exploração do homem sobre o homem, cada qual com seu fundamentalismo ideológico que lhes é próprio. Se o Irã assume o fundamentalismo religioso islâmico, o EUA é o grande representante do fundamentalismo de consumo onde Hollywood é sua principal agência de propaganda.

Além do mais

O Eu é um Outro?

Cada vez mais, começo a nutrir certa restrição à ética antropológica que vem sendo aplicada à sociedade como um todo. O discurso de que é preciso compreender o outro está se alastrando por todos os domínios da cultura ocidental, criando uma espécie de valor universal. Evidente desconfiar dos consensos, até porque eles se tornam verdades que passam a normatizar a criação artística e cultural: livros, filmes, peças, bienais, enfim, uma infinidade de trabalhos passa a ser baseado nesse preceito. A verdade, contudo, é que nem sempre somos capazes de entender o outro e a tolerância constante pode gerar recalques nada saudáveis.

Isto não é um filme

Em 2011, proibido de filmar, Jafar Panahi não conseguia parar de pensar em um roteiro. Ele chamou um colega, Mojtaba Mirtahmasb, ao seu apartamento e ambos começaram a registrar o cotidiano do diretor que, na ocasião, aguardava a decisão do tribunal de apelação iraniano. Realizado com 3.200 euros, a partir de imagens captadas em câmera de vídeo e do IPhone do próprio Panahi, o documentário foi finalizado e enviado para o Festival de Cannes onde seria premiado em 2011. Detalhe: o filme chegou à França em um drive USB dentro de um bolo. As cenas em que Panahi conta a história que gostaria de filmar e desenha as locações sobre o tapete de sua sala são antológicas.

Por falar nos franceses…

O correspondente da Folha de São Paulo no Irã, Samy Adghirni, recebeu uma lição de política internacional que nunca mais irá esquecer. Ingenuamente, questionou Hamid Dabashi, professor de estudos iranianos e literatura comparada da Universidade de Columbia, em Nova Iorque: “Diante das pressões de algumas comunidades islâmicas na Europa para influenciar as leis locais, não seria compreensível os europeus enxergarem os imigrantes como ameaça a sua cultura e identidade?”. Resposta: “Os muçulmanos não foram à Europa atrás de clima agradável e generosa hospitalidade, mas em busca de trabalho. Os franceses não têm nenhum direito de falar em cultura e identidade. Eles deveriam ter pensado nisso quando saíram de seu país para colonizar a África e a Ásia. Os franceses cruzaram suas fronteiras nacionais muito antes dos africanos. O que os franceses estão fazendo no Mali neste exato momento? Quando enviam caças para bombardear a África, eles não estão preocupados com identidade nacional nem fronteiras. Mas, quando africanos vão até a Europa, acabam martelados com o discurso sobre fronteira nacional e identidade. Portanto, muçulmanos e africanos têm o pleno direito de estar na França. E, se isso gera confusões de identidade para franceses racistas, eles podem pedir ao seu governo que ensine direito a sua história imperial.

* Texto publicado na Coluna Penso do caderno Cultura no jornal Diário Catarinense em 16 de março de 2013.


Um comentário:

  1. lengo says:

    Camus disse um amigo, também escritor: ‘estranhar é duvidar’

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