Férias: porque eu prefiro os dias inúteis*

Por um lado, o sujeito enfrenta um ano inteiro cujos dias dedicados ao trabalho são chamados de “úteis” – o que me faz pensar que, por esta lógica, os finais de semana e feriados seriam inúteis. Para se adequar ao ritmo do mundo do trabalho, que quase nunca coincide com o seu próprio, o mesmo sujeito trata de estabelecer alguns hábitos. Por exemplo, o modo como se desloca ao trabalho ou como pronuncia “bom-dia”; o horário que costuma acordar, almoçar e assim por diante.

As férias, por outro lado, desregulam os comportamentos estabelecidos que se tornaram, por força da repetição, rotina (muitas vezes compreendida como enfado, cansaço, recorrência). Assim – e somente assim – torna-se possível acordar mais tarde sem culpa, ir à praia em pleno dia de semana, restar-se absolutamente inerte sobre um sofá ou então, no caso do Carnaval, sair às ruas com máscaras e pouca roupa sem correr o risco de parecer louco ou indecente. Para muitos, as férias parecem devolver o sabor adocicado de viver. E mesmo para aqueles que não têm direito às férias, o Carnaval é outro momento para essa apoteose do ser.

Penso que há um mecanismo pendular em funcionamento. As pessoas costumam encarar o calendário com uma lógica cristã. Isso porque o imperativo moral, primeiro, ordena muito trabalhar – ação que leva ao sofrimento já que todo excesso pode ocasionar a dor. Somente depois é que o sujeito pode alcançar o justo direito de gozar da existência. Por sinal, para o cristianismo essa redenção final, quase orgástica, ocorrerá tão-somente quando o paraíso for instituído após o Julgamento Final.

Férias, como se diz com a graça do idioma: “Ficar de pernas para o ar”, “sombra e água fresca”. Ou, como diria a destrambelhada Emília, em todos os meses de abril (quando eram proclamadas as férias gerais, inclusive para a negra Tia Anastácia, no Sítio do Pica-Pau Amarelo): a ordem é lagartear! A boneca de pano de Monteiro Lobato exercitava um verbo esquisito (lagartear) ao invés do substantivo (lagarto) porque queria tornar humano um procedimento animal: descansar de modo retumbante, sem maiores preocupações, simplesmente deixar-se estar. Para se curtir as férias é preciso se des-programar, tornar-se um pouco animal e um pouco Emília.

O senso comum diria: “sair da rotina”. Fazer uma viagem tem sido a solução mais recorrente da modernidade. Há aqueles que vivem para viajar (uma condição utópica de nossos dias: viajar sempre e não precisar trabalhar). Abandonar o conforto do lar para se aventurar em outras paragens. É pena que viajar se tornou sinônimo de turismo nos dias de hoje. O turismo, de modo geral, é uma prática e um pensamento inócuo, uma indústria voltada para o deslocamento de imensos contingentes populacionais de um lado para o outro do globo terrestre, sem fazer com que esses trajetos possibilitem quaisquer efeitos intelectuais ou espirituais – salvo exceções.

Uma viagem bem poderia ser o momento para se vivenciar as diferenças de um outro que habita uma realidade distinta daquela do viajante. Contudo, cada vez mais, em termos turísticos, viajar é sinônimo do mesmo: se for à França é preciso ir ao Museu do Louvre (sendo que muitas vezes o indivíduo jamais pisou em um museu na sua própria cidade de origem), se você estiver em Buenos Aires deverá conhecer a Recoleta. O sujeito já sai de casa com um caminhão de compromissos e não deixa o acaso de um percurso tomar conta daquele momento. Sem falar naqueles que dizem conhecer um país após terem passado um ou dois dias lá: tinham “pouco tempo” porque era necessário conhecer outros países. Retornam com centenas de fotos enfadonhas e um repertório limitado de histórias. 

O cineasta alemão Wim Wenders realizou recentemente no Brasil a exposição “Lugares, estranhos e quietos”. Gigantescas fotografias ocupavam um andar do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Cada uma delas havia sido tirada em um local diferente do planeta. No texto de abertura, ele narrou que quando chegava em qualquer cidade (Wenders é um viajante assíduo por conta de seu trabalho como cineasta) e alguém lhe informava que bastava virar à direita para encontrar um famoso ponto turístico, ele tomava o caminho oposto. Seu olhar estava interessado pelas coisas menos grandiloquentes de uma cidade. Seus cliques destacam coisas mínimas e quase invisíveis; o banal instalado em uma imensa superfície coberta pela imagem fotográfica. 

Além do mais 

As Férias do Sr. Hulot, de Jacques Tati

Uma sugestão: se houve um homem do cinema, esse foi Jacques Tati. Seus filmes eram poesias em movimento, marcados pela compreensão precisa da relação entre as imagens e os sons. O riso surge pela sutileza e a atuação do próprio Tati encarnando o ingênuo personagem do Sr. Hulot é um dos pontos altos de todas as suas obras. Talvez, o autor mais brilhante da cinematografia (evidentemente, isso fica por conta da minha modesta opinião). Para quem não o conhece, fica aqui a dica. Aqueles que já o conhecem, um convite para revê-lo. Por sinal, existe um site interessantíssimo dedicado ao cineasta, chamado a “Cidade de Tati”: http://www.tativille.com 

Guia de viagem

Se eu fosse um guia de viagens em Florianópolis, recomendaria o seguinte percurso: 1º) Estreito: apanhe uma fila na ponte. Descontraia. Ligue o som. Afinal, o que é uma hora de sua vida? Dirija-se ao bairro do Estreito, mais precisamente ao Balneário. É ali que moram os velhinhos – ou seja, grande parte da sabedoria desta cidade; 2º) Feiras: visite uma feira de bairro. As pessoas contam histórias ótimas, compram frutas frescas e biscoitos caseiros deliciosos (a maior iguaria brasileira, na minha opinião, não é a feijoada, mas sim os biscoitos de feira); 3º) Não fique apenas nessa Ilha vaidosa, há outros locais tão interessantes quanto Florianópolis. Vale a pena conhecer Jaguaruna, Laguna, Imbituba, Palhoça, entre outros locais próximos.

Ócio criativo

Recentemente, o Governo do Estado de Santa Catarina trouxe o filósofo Domenico de Masi para proferir palestras e consultorias sobre o dito “ócio criativo” aos tupiniquins. A idéia era embasar o turismo catarinense. Bastava conversar com um índio de qualquer etnia que ele teria muito mais a dizer sobre o assunto. Porém, como falar em italiano é mais chique do que qualquer idioma indígena, até que faz algum sentido. O resultado é a forma de turismo que hoje se pratica pelas bandas de cá – algo entre o abjeto e o estúpido – e jantares regados com champanhe entre o então governador Luiz Henrique da Silveira e o ilustre pensador. Talvez não por acaso, a bebida predileta nas areias de Jurerê Internacional seja o champanhe/espumante. É a bebida que supõe a exceção, que traz consigo a idéia de ser ingerida apenas em momentos muito especiais, que produz a fantasia de que se é diferente em meio à maioria.    

* Texto originalmente publicado na coluna “Penso” do caderno “Cultura” do  jornal Diário Catarinense, no dia 21 de janeiro de 2012.


6 comentários:

  1. Felipe Obrer says:

    Fernando, mais uma vez, muito bom te ler.

    O texto flui tranquilamente, é agradável a leitura, mesmo que a reflexão seja crítica. Percebo coisas parecidas sobre o turismo aqui na cidade… Enquanto lia, além de lembrar de ti pessoa, ex-colega, solidário salvador numas horas, lembrei também de uma viagem minha. Foi em agosto de 2008, ao Rio de Janeiro. Desde a infância não viajava de avião, então o próprio deslocamento já foi novidade, vi um amanhecer muito bonito acima das nuvens, valeu por isso, muitas cores, mas senti calafrios desagradáveis tanto na decolagem quanto no pouso, além daqueles momentos em que acontece uma descida abrupta e o instinto manda segurar firme nas laterais do assento. Costumo dizer que de um veículo rodoviário em movimento ainda é possível sair por alguma porta de emergência, ou quebrar um vidro, sei lá, e que num barco, sabendo nadar, é possível ainda sobreviver a um naufrágio. Num avião, mesmo que as poltronas sejam flutuantes, acho que isso vale apenas para a água, é improvável que levitem no céu. Como asas não temos e uma queda daquela altura não é idéia (mantenho o acento como resistência) agradável, prefiro manter os pés no chão.

    Bom… voltando ao Rio: quando fui, a trabalho, às reuniões na sede do Overmundo, em Botafogo, que lançava na época o Instituto Overmundo e me contratou como representante regional no Sul do Brasil, fiquei hospedado no Hotel Novo Mundo, no aterro do Flamengo, que até então era pra mim apenas um time de futebol com torcida grande e, como não acompanho futebol há anos, patrocínio defasado da lubrax.

    O fato é que passei lá apenas 4 dias, dois dos quais envolvido em reuniões, livre só à noite (e na primeira fomos para um bar em Botafogo, não lembro o nome, depois das reuniões). Abri mão de ver, aqui na ilha, um show gratuito do Hermeto Pascoal na pracinha da Lagoa e pedi para agendarem a passagem para dois dias depois, pensei que assim teria tempo de conhecer um pouco mais a cidade durante o fim de semana. Ainda bem, consegui conter meu ímpeto de seguir os clichês: nem fui até a beira da praia. Passei os dois últimos dias, saído do novo mundo, num hostel chamado Art Hostel Rio, que foi feito no prédio, reformado, onde ficava antes um hotel chamado hispano-brasileiro, algo assim. Convivi com um monte de gente de todo lugar, tinha uns europeus artistas, o pessoal fazia comida comunitária e o acesso à geladeira de cervejas (que eu ainda apreciava na época, agora lá se vão quase três anos zero álcool) era livre, bastava anotar o consumo numa caderneta pendurada na porta do refrigerador. Se não me engano o nome da rua era Silveira Martins. Lembro de ter ficado esses dias entre Flamengo e Botafogo, sem ir à Lapa, nem a Copacabana, nem a Santa Tereza, nem ao Maracanã, nem nada… Conversei bastante com um cara que estudava antropologia, joguei jogos de tabuleiro com a garotada da recepção do hostel, coloquei músicas pra tocar, mostrei fotos, vi a arte dos outros… Caminhei bastante entre o Palácio do Catete e o Largo do Machado, vi a feira na praça, conversei com gente na rua, reencontrei sem procurar o Maza, cantor e violonista negro, que usa dreads e era figura garantida na Felipe Schmidt ao longo dos anos 90 e início dos 2000. Enfim…

    Todo este blá-blá-blá pra dizer que sim, concordo com teu texto, e acredito que o acaso é fundamental quando se trata de férias de fato: descondicionamento e algum grau de liberdade a mais. Se quiser conferir as fotos que fiz no Rio, aí vai o link: http://www.overmundo.com.br/banco/cenas-do-rio Grande abraço e aproveita bem pra não fazer nada obrigatório, se ainda estiveres em vacaciones (essa palavra em espanhol vem de vazio, o mesmo que se procura com a meditação e que existe universo adentro).

  2. Sérgio says:

    Do inútel, não indicado, muitas vezes pode ser a origem da inovação.
    Inovar tem sido uma das palavras de ordem, principalmente daqueles que não conseguem viver o diferente.
    Bom texto Boppré, e vamos viver, viver dias inúteis.
    Abç

  3. Joseane says:

    Oi, Fernando, gostei muito do texto. Fala de coisas importantes. Eu também prefiro virar a esquina e conhecer o inusitado. Abraço, Joseane

  4. Chris says:

    Querido amigo,
    em conversas paralelas, assistimos o quanto o inútil e o útil em tempos modernos tem sido o avesso do avesso do avesso …. Turismo, champagne e diferenças, são contrapontos de um lado útil, necessário que seja discutido, porque a estupidez e as diferenças sempre são melhores digeridas com espumantes. O turismo na Ilha é sofrível, pois detona as belezas vendidas a preço de ouro e repassa a este espaço de terra-mar os restos da casca da banana. Melhor desfrutar as férias sem turismo, sem estupidez e claro vez ou outra com pessoas especiais e brindes de espumante, sem diferenças com inclusão e carinho. Obrigada pelo belo texto, beijos

  5. Adorei, Boppré ….

    como Manoel de Barros

    Nasci para administrar o à-toa
    o em vão
    o inútil.

    Pertenço de fazer imagens.
    Opero por semelhanças.
    Retiro semelhanças de pessoas com árvores
    de pessoas com rãs
    de pessoas com pedras
    etc etc.

    Retiro semelhanças de árvores comigo.
    Não tenho habilidade pra clarezas.
    Preciso de obter sabedoria vegetal.
    (Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
    E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral.

  6. É natural que a casa de férias tenha acesso ao exterior e eventualmente acesso à estrada. Se for este o caso, tem duas soluções possíveis: ou não deixa o animal sair de casa, o que é sempre difícil, ou então terá que proteger a área dos grandes perigos que surgem através do acesso ao exterior. Pode vedar a varanda/terraço/jardim para inviabilizar a saída do seu animal.

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