Eli Heil: a cabeça vazada que reinventou o mundo completa 50 anos de criação artística

Em 2012, completam-se 50 anos da primeira exposição de Eli Heil (nascida em 1929, na Barra do Aririú, em Palhoça), na mítica Galeria Baú, de Pedro Paulo Vecchietti, o artista, tapeceiro, moldureiro que agitou as paragens florianopolitanas com visualidades e posturas modernistas nas décadas de 1950 e 1960. Pois bem, efemeridades como essas não significam absolutamente nada, são apenas datas fechadas, coincidências numéricas que acabam ganhando pompas simbólicas. Não obstante, são ótimos pretextos para se fazer coisas miúdas, como refletir.

Um fato determinante na trajetória de Eli: a artista germinou sua experiência poética e plástica somente após a experiência do parto. O nascimento do filho assinalou o adoecimento da artista que passaria mais de cinco anos enferma. Sobre esse período, Eli conta: “Jogaram no meu cérebro uma célula que foi esticando, sugando, sofrendo. Nasceu aquele monstrinho doce. Doce, porque constrói e não destrói. O ovo já estava bicudo. Houve ali uma explosão: a do meu cérebro com a explosão do meu ovário”. 

A imagem de um “ovo bicudo”, utilizada por Eli, é sintomática. Um invólucro que não mais suporta o que há dentro de si e passa a forçar seus limites, reinventando a própria forma. Após anos de doença, ela encontrou no trabalho artístico um espaço onde poderia esboçar novas formas para si.

Eli criou continentes, embora habite ilha; tem gosto doce, ainda que surgida da amargura. Olhá-la é como olhar rente a um espelho d´água: as figuras e as coisas se alongam, se fundem umas nas outras e, invariavelmente, (re)formam-se diante tamanha força criativa.

Observemos bem à pintura desta página. Um corpo feminino estende-se pela porção direita, em diagonal. É preciso que se contenha e se contorça para que não atravesse os limites do quadro. Pernas abertas, pescoço compridíssimo (“de tanto criar”, conforme o título da obra) chega a dar uma volta em 180 graus, manobra que lhe permite posicionar a cabeça no meio de suas próprias pernas. Detalhe: do pescoço inflacionado, surgem quinze “cordões-umbilicais” que se fecham sobre si como espécies de úteros: ali, desenvolvem-se formas diversas e multicolores. Promessas de corpos outros, de novas composições. A cabeça é vazada e, com isso, torna-se possível ver o fundo. Cachola feminina furada, portanto, onde tudo entra e tudo sai. Tanto ela, quando o pé direito parecem estar ligados a um outro corpo arredondado, forma enigmática (é um bicho, uma planta, um corpo?), portadora de uma mandala em seu centro. Aí estaria o equilíbrio da composição? Improvável, porque o equilíbrio é sempre precário na obra de Eli – como a vida, aliás – como esse corpo roxo donde, inesperadamente, surge uma haste em direção ao canto esquerdo superior que… de novo… de repente… interrompe-se.

Eli: o anúncio definitivo de que sempre há um outro modo de se ver o mundo. De que não existe o normal, de que não é preciso se (con)formar. Ela, plasticamente, reinventou o mundo. Paralelo, dissonante, próprio. A arte de Eli é assinalada pela dor profunda, um parir infindo de criaturas que passam a habitar o seu (e, felizmente, também nosso) mundo. É esse o espaço ocupado por Eli: o da vida, apesar da dor; o da cor, apesar da escuridão; o da fertilidade, apesar da esterilidade dos nossos dias.

 

Além do mais

Exposição comemorativa em novembro

Em 8 de novembro, na Fundação Cultural Badesc, em Florianópolis, será aberta a exposição “Barroco Bruto: Eli Heil, 50 anos de arte”. Organizada de modo cronológico, a mostra apresentará ao público um percurso pela obra de Eli Heil desde a década de 1960 até os anos 2000. Ao todo serão 50 obras oriundas de coleções particulares. Ou seja, uma chance única.

 

Publicações sobre Eli

Para quem quiser conhecer mais o universo de Eli, sugiro três publicações. “Eli Heil”, da Coleção Vida e Arte, foi publicado pela Tempo Editorial, com texto de Régis Mallmann, em 2010. “Óvulos de Eli”, organizado por Kátia Klock e Vanessa Schultz, editado em 2008, pela Contraponto. Já esgotado, mas que certamente pode ser encontrado em bibliotecas e sebos, “A obra plástica de Eli Heil”, escrito pela também (incrível) artista Jandira Lorenz, em 1985.

 

Museu Mundo Ovo

Quem ainda não foi ao Mundo Ovo de Eli Heil, sugiro, não deve perder a oportunidade de visitá-lo às margens da rodovia SC-401, em Florianópolis. Lá, uma obra leva a outra, uma técnica amarra-se à seguinte e é possível observar a fertilidade do universo de Eli. Para saber mais, acesse www.eliheil.org.br

* Texto publicado na coluna Penso do caderno Cultura do jornal Diário Catarinense em novembro de 2012.


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