Diário de um desequilibrado
Publicado em 18 de janeiro de 2010
1. Não deixa de ser uma experiência interessante quebrar a perna num ano e, no seguinte, adquirir labirintite. Foi o que aconteceu comigo. Em ambos os casos, a praticidade de uma vida vertical é abandonada com a mesma facilidade com que se passa a flertar com a horizontalidade. Outrora, eu era retrato ao passo que manco ou labiríntico tornei-me paisagens diversas.
2. Do alto de uma muleta, um fraturado inspira respeito. Ainda que sem querer, ele porventura se aproxime de uma faixa de segurança, assistir-se-á um fenômeno sui generis: carros, motocicletas e até mesmo aeronaves hão de parar para permitir o prejudicado deslocamento da carcaça manca. Porém, façamos a experiência inversa: no início de uma manhã, envie um sujeito com labirintite aguda para atravessar a mesma via que outrora o manco se aproximara imprudentemente. Antes de chegar ao passeio – ele certamente será um trôpego a ensaiar passos no invisível, como quem brinca de pata-cega – não há dúvida que meia dúzia de almas há de dizer: “Bebeu a noite inteira”. Se houver crianças por perto, então, certamente a perversidade será ainda maior. Assim, nenhuma criatura cederá a via para o trânsito do labiríntico.
3. O grande problema do sujeito com labirintite é que ele não emite sinais. Ao contrário de um fraturado que carrega suas muletas ou de um cego que porta seus óculos escuros e bengala, o labiríntico é um sujeito cujo único sinal é ambíguo, da mesma natureza da embriaguez, a saber, uma tontura monumental. Com isso, ele não pode extrair nenhuma vantagem social.
4. No caso da fratura, é evidente que as muletas são uma extensão da vida horizontal que se leva nas camas, espaldares, divãs, entre outros suportes com quadro bases/pés. Para um labiríntico, muletas seriam uma confusão, um entre-pés.
5. Na primeira nota utilizei-me da locução conjuncional coordenativa adversativa “ao passo que” (designação que ao soletrar já me deixou zonzo). Antes tarde do que nunca, é preciso providenciar a correção. Afinal, ao passo que é a expressão menos apropriada a se utilizar nessas horas. Porque um manco pula, não dá passos. Um labiríntico perde-se, não caminha.
6. O manco e o labiríntico passam a negociar com o desequilíbrio. Apesar dele, executam-se algumas atividades e abdicam-se de outras. Aquilo que éramos antes do acidente, antes do labirinto, torna-se miragem. Julgamos ainda transitar por esse mundo, onde as coisas eram sólidas, a confiança na gravidade infinita. Mas quando decidimos ir até ele, verificamos que as regras mudaram e que já não é tão fácil manter a cabeça sobre os ombros.
O troço te afetou de tal forma que tu até escreveu “desiquilibrado”!