Democracia oligárquica*

Teoricamente, a democracia seria o oposto da oligarquia. Não é exatamente o que ocorre no Brasil, o país dos oximoros. Por aqui, basta um jogo de palavras e pronto: tudo está resolvido. A democracia tem sido um mero recurso retórico, dirigido às massas, mas manipulado por poucos.

Quando o jogo termina em discórdia, entram em campo os bacharéis em Direito * promotores, advogados, juízes, enfim, a turma do “deixa disso”, engravatada, bem alimentada, quase sempre reacionária, mestre em jogar com as palavras. Constroem argumentos cujo pressuposto ético é facilmente questionável e deixam tudo ainda mais inacessível ao cidadão comum. É assim que se afasta a população do diálogo aberto e do exercício dos direitos básicos de cidadania. Somente poucos “doutores” são autorizados a lidar com a justiça.

Nos poderes Executivo e Legislativo, por sua vez, o objetivo pragmático da maior parte dos mandatos é a construção ou ampliação do poder econômico das oligarquias e a manutenção do status quo. Não é difícil constatar isso, basta observar o jogo político nos feudos do Pará ou de Santa Catarina.

É o arcaísmo como projeto nacional, conforme assinalaram os historiadores João Fragoso e Manolo Florentino. Ambos estudaram o mercado e a sociedade brasileira na virada do século 18 para o 19 e chegaram a seguinte conclusão: trata-se de um sistema econômico e político baseado na “reiteração de uma hierarquia social fortemente excludente”.

O grande paradoxo dos século 20 e 21 é que esse poder instituído e desfrutado por uma minoria, anterior à ideologia democrática, está sendo legitimado por um discurso que propagandeia (demagogicamente, é claro) o poder da maioria.
Tendo em vista a manutenção dos privilégios que desfrutam em relação a uma maioria miserável, as oligarquias possuem uma grande capacidade de assimilação e adaptação de discursos ideológicos. Não por acaso, as grandes empresas e bancos que apoiaram a ditadura militar brasileira também estiveram ao lado do governo Lula. E isso não é um fenômeno tupiniquim. No poder, Adolf Hitler teve o aval inestimável da Volkswagen e do Vaticano.

Embora quase todos se apropriem do discurso * posto ser de bom tom dizer publicamente: “Sou a favor da democracia” * poucos participam das instâncias decisórias básicas relativas à cidade, ao Estado e ao país. As ações regulamentadas pelos parlamentares, comandadas por políticos (escolhidos pela via eleitoral, pressuposto de toda democracia) e julgadas por bacharéis não são condizentes, na maior parte das vezes, com a demanda dos cidadãos. Caso contrário, há muito tempo ter-se-ia solucionado o impasse nos hospitais e no transporte público, o analfabetismo e a desnutrição infantil.

Até quando a democracia será a roupagem ideológica de regimes sociais e econômicos excludentes? “Precisamos aprimorar o regime democrático brasileiro”. Onze em cada 10 políticos repetem esse jargão. Não se engane: é uma frase feita, lugar-comum, esvaziada de qualquer consequência. Falar em nome da democracia é o grande trunfo do poder estabelecido.

Você se lembra da Vovó do conto da Chapeuzinho Vermelho? Pois bem, esta personagem bem pode servir como metáfora da ordem democrática que se vive no Brasil: doente, desprotegida, na posição de vítima e a demandar atenção. A conclusão radical desta figura de linguagem não vem ao caso agora, mas poderíamos discuti-la numa outra oportunidade: o fato é que a democracia não deixa de ser uma velha histérica.

Além do mais…
Chapeuzinho “Cruel” Vermelho

Passagens cruéis estão por trás da aparente inocência dos contos de fadas. A menina com um capuz vermelho cruza a floresta para levar pães a sua avó adoentada. O Lobo Mau chega antes do que ela à casa da Vovó e a devora por inteiro. Depois, veste-se com as roupas da velhinha e se deita para esperar Chapeuzinho, que também é devorada! Um caçador que passava por ali ouve gritos e após abrir as entranhas do Lobo, retira as duas, ilesas. Por sinal, a versão mais antiga que se tem conhecimento, registrada por Charles Perrault (1628-1703), é ainda cruel, já que a menina é devorada e ponto final. Mais tarde, imortalizada pelos irmãos Grimm, é que a história ganharia um happy end.

O melhor negócio
O Vaticano continua sendo o melhor negócio do mundo. O dinheiro só sobe, nunca desce. Ou alguém aí já viu o papado investir algum centavo para construir uma igreja? E quem paga a conta de luz, de água, o telefone, o salário dos funcionários (entre os quais, os padres) e as demais despesas da paróquia? Evidente: os fiéis. O melhor de tudo é que a Santa Sé vende algo subjetivo. Salvar a alma sempre foi e continuará sendo o melhor negócio, até mesmo porque sempre haverá pecado, conditio sine qua non do ser humano.

A virtude da Santa Sé
O Vaticano possui uma qualidade: seus líderes são honestos sobre o que pensam. Insistem em manter posições não mais viáveis na atualidade, seja por saúde pública, seja porque a liberdade é um direito inalienável. E fazem questão de deixar claro. Talvez, essa falta de flexibilidade seja porque seus sócios, ou melhor, cardeais (aqueles que mandam e
desmandam), são velhinhos ultrapassados. Alguém deveria avisá-los que aquelas roupas e rituais todos já estão fora de moda, o que me faz lembrar daquilo que disse um índio Kaxinawá, após ter se encontrado com o papa João Paulo II: “Tive que beijar a mão de um homem vestido de mulher”.

* Texto publicado na coluna “Penso” do Caderno Cultura do jornal Diário Catarinense em 4 de agosto de 2012.


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