De novo não morri*

Uma personagem entre o trágico e o cômico aparece de soslaio em “Minha Vida”, de A. P. Tchekhov (1860-1904). Trata-se de Andréi Ivanov, pintor de paredes ou, como ele próprio dizia, “empreiteiro de serviços de pintura”. Um pobre diabo que já passava dos cinquenta, ou seja, um velho para a época. Nas palavras de Tchekhov, era “magro e pálido, de peito chupado, de têmporas encovadas e olheiras, com uma aparência até assustadora”. Sempre doente, de uma dor que o enfraquecia, de modo que a cada outono anunciavam que aquela seria sua derradeira estação. Não obstante, depois de um tempo acamado, levantava-se e dizia surpreso: “De novo não morri!”.

Andréi Ivanov é a metáfora perfeita da débil vida institucional da cultura catarinense. Sorte que a cultura transcende a esfera oficial das secretarias, fundações, presidentes, diretores, gestores, enfim, a parafernália estatal que deveria regular e facilitar mas que, na maior parte das vezes, só dificulta aquele que está na ponta, a pensar e produzir. E não é que inventaram que a restauração da Ponte Hercílio Luz seria uma tarefa para a super Lei Rouanet? Para quem não conhece os meandros da Lei Federal de Incentivo à Cultura – mais conhecida pelo sobrenome de seu instituidor, (Sérgio Paulo) Rouanet, mandatário da cultura do Governo Collor – vale a pena explicar. A coisa funciona assim: uma ínfima parte do imposto de renda devido por pessoas físicas e jurídicas à Receita Federal (entre 4% e 6% do montante, sendo que não são todas as empresas que podem deduzir seus impostos por meio deste mecanismo, apenas aquelas cujas contas forem baseadas em lucro real) pode ser utilizada como verba de patrocínio aos projetos culturais aprovados pelo Conselho Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC). De modo geral, as empresas não mexem em um centavo de seu caixa e assim patrocinam projetos com dinheiro público, numa inversão absolutamente tresloucada. Nessa operação, o dinheiro público se torna verba de publicidade das grandes empresas posto que a realização dos projetos implique na inserção de logomarcas, stands promocionais e dentre outras ações que o departamento de marketing agradece.

No caso do projeto “Ponte Hercílio Luz, patrimônio de Santa Catarina, patrimônio do Brasil”, aprovado pela CNIC em março deste ano, significa dizer que as obras da Ponte Hercílio Luz só serão finalizadas quando a bagatela de R$ 64,5 milhões for captada a partir da “doação espontânea” de pessoas físicas e, sobretudo, jurídicas (lembrando que até aqui já foram gastos mais de R$ 60 milhões em obras na Ponte). Trocando em miúdos, se a ideia era terminar a obra ainda nesta década, podem esquecer. E se o gigante de ferro que outrora ligava a ilha ao continente estiver cansado demais de esperar nas cabeceiras e não mais conseguir sustentar seu próprio peso, ela cairá placidamente sem ao menos dizer “Fui!”. Para agravar, vale avisar que teremos que aguentar a repetição constante na mídia televisiva das imagens da tragédia que, certamente, será registrada pelas câmeras de vigilância do entorno.

A questão é que qualquer profissional que conhece, minimamente, o funcionamento da Lei Rouanet (e esse seria o papel dos gestores públicos, não?), em sã consciência, não apostaria todas as fichas nesta opção para se angariar os recursos necessários para se finalizar a recuperação da estrutura da década de 1920. Entretanto, alguns iluminados que executam as políticas públicas no Estado de Santa Catarina, em seus gabinetes com ar condicionado, em meio a repartições regadas a cafezinho e conversa fiada, decidiram que assim seria melhor. Na verdade, decidiram não decidir. A coisa vai se arrastar por anos, tenham certeza.

Alguém precisa avisá-los que essa estratégia insana já começou a dar errado. Até agora, meses após a autorização para o início da captação dos recursos (sendo que o prazo máximo para a captação é de dois anos), menos de R$ 500 mil foram creditados na conta do projeto, com o agravante de que para se iniciar a movimentação dos recursos é necessário, por força da lei, ao menos, a captação de 20% do total pleiteado, ou seja, cerca de R$ 12,9 milhões.

O que é difícil compreender, nessa altura do campeonato, é o motivo pelo qual foi preciso dar essa imensa volta para se reunir os recursos. Ora, a outra opção era abrir os cofres públicos e empenhar a verba a partir do orçamento da União e do próprio Estado de Santa Catarina. E o mais importante: por uma questão lógica, os recursos deveriam ser oriundos da Secretaria de Obras e do Ministério dos Transportes, afinal, a Ponte será utilizada como via pública, antes de qualquer coisa. Essa é uma indagação simples, que o gestor que estiver alcançado essa parte do texto (geralmente eles leem pouco e/ou não têm tempo, mas como o assunto é polêmico, eles chegarão até aqui para depois, com um sorriso no canto dos lábios, dizer que aquele que vos fala não entende nada de “administração pública”).

Pois bem, eu pagaria até o meu último centavo para ver uma cena improvável de se concretizar, mas possível de se imaginar: no início de um outono qualquer, num desses dias ensolarados e coloridos que só a estação sabe proporcionar, o debilitado Andréi Ivanov atravessaria lentamente a Ponte Hercílio Luz, com um sorriso besta na face (tanto faz se fosse a pé, de bicicleta, de carro, de esqui, de metrô com ou sem superfície, de nave espacial, afinal, já se falou em tantas coisas que passariam sobre a Ponte após a reforma que só falta prometerem inaugurá-la com os trenós do Papai Noel). Esse maldito Ivanov, que costumava dizer “de novo não morri!”, seria como que o espírito de uma velha Ponte, cansada de esperar por seu próprio ocaso.

Além do mais

Nota de arrependimento
Eu não deveria ter escrito sobre o Papai Noel atravessando alegremente a Ponte Hercílio Luz no dia de sua inauguração. Vai que algum iluminado, desta vez funcionário da municipalidade ilhéu, goste da ideia. A julgar pela bestialidade da programação natalina que tem brindado à Capital nos últimos anos, é bem capaz que tragam o bom velhinho, suas renas e coisas do tipo para inaugurá-la. Bem, como Papai Noel não existe e como também não há qualquer planejamento sério para se restaurar a Ponte, podemos ficar tranquilos porque isso ainda vai demorar a acontecer.

Um futuro diferente para a Ponte
Um amigo soprou-me ao ouvido a seguinte alternativa: se houvesse um laudo técnico independente de engenharia, com conhecimento de causa, atestando que o processo de deterioração da Ponte Hercílio Luz é irreversível (como algumas pessoas defendem), seria o caso de se pensar que os R$ 64,5 milhões que serão gastos poderiam receber outro destino. Por exemplo, que tal imaginar a construção de dois equipamentos culturais (um museu e um teatro?) nas cabeceiras da Ponte, como forma de marcar uma nova visão da cidade em relação à cultura e ao patrimônio? A manutenção das duas torres seria suficiente para sugerir o desenho de uma arquitetura inovadora e ainda sobraria dinheiro para, finalmente, promover uma programação cultural de qualidade para a cidade e o Estado.

Blackout
O vídeo “Blackout”, de Teresa Siewerdt, é uma espécie de sinfonia luminosa cujo suporte é a Ponte Hercílio Luz. Ao menos para alguma coisa a Ponte serviu nestes últimos anos. Confira em http://vimeo.com/6584865

O caso do Badesc
Os bancos, sempre os bancos a aprontar. Na Europa, estão a quebrar nações inteiras com seu apetite irrefreável. Pelas bandas de cá, o banco público que nos orgulhava por ter criado uma referência para a vida cultural local, a Fundação Cultural Badesc, ao que tudo indica, cansou do “brinquedinho”. Sinceramente, dias atrás, quando os boatos e notícias sobre uma possível transferência da Fundação Cultural Badesc para a administração da Fundação Catarinense de Cultura circulou pela cidade, uma espécie de labirintite intelectual me invadiu e me deixou tonto a ponto de esquecer algumas poucas e boas palavras que caberiam para a ocasião.

* Texto publicado no jornal Diário Catarinense, caderno Cultura, coluna “Penso”, no dia 7 de julho de 2012.


3 comentários:

  1. Cristiano says:

    Fernando,
    Acho que o museu e o teatro de que falou seriam uma alternativa boa à obra de não sei quantos milhões de reais estimada para a ponte. Suspeito que esse valor obsceno está mais do que superestimado. Seja lá como for, não me parece que a ponte esteja para desabar, e penso que o raciocínio deve ser construir museus, teatros e restaurar a ponte também. Tudo! Sem binarismos. Acho que a ponte Hercílio Luz é um “lugar de afetos” importante para toda a gente. Transformar a restauração dela numa obra descomunal já é outro assunto. “Pra quê somar se a gente pode dividir?” Dividimos esses milhões todos e fazemos uma farra: restauração da ponte, museu e teatro. Maravilha!

  2. Luis Francisco E Camargo says:

    Fernando,
    Gostei do texto. Vou ser mais radical. Sou da opinião que se deve desmontar a Ponte Hercílio Luz e vender o ferro. É o objeto que condensa nada mais que o desejo de isolamento de Florianópolis. Uma ponte impossível de atravessar, um projeto de reforma impossível de realizar, um projeto feito para não dar certo. Ela está lá para mostrar o desejo recalcado de não se confrontar com a diferença sexual, de manter inabalado os semblantes do paraíso, da magia, de uma terra privilegiada. Nada do que um pequeno “pipi”. A Ponte Hercílio Luz é o símbolo deste narcisismo florianopolitano. Sabemos que as consequências de manter o falo erigido podem ser catastróficas. Você anuncia muito bem, ela está condenada e pode desabar provocando uma tragédia.
    Abraços,
    Luis Francisco

  3. Claude Faria says:

    Deliciosa crônica, bem escrita e humorada, digna de um cultor das letras e do livre pensar. Parabéns.

Comente: