Dar tempo ao tempo*

Cada vez mais penso que, apesar dos pesares, a vida nos reserva mais momentos alegres do que tristes. O problema é que alguns momentos tristes são tão chocantes que não conseguimos processá-los num curto período de tempo, tornando-se, muitas vezes, traumas que passam a constituir aquilo que somos ou julgamos ser. Contudo, é evidente que há um gozo na dor. Freud abordou esse paradoxo e Paulo Leminski versou: “Um homem com uma dor / é muito mais elegante / caminha assim de lado / como se chegando atrasado / andasse mais adiante / (…) não me toquem nessa dor / ela é tudo que me sobra / sofrer, vai ser minha última obra”. Quem não conheceu ou conhece alguém que muito sofre e que não consegue sair dessa condição justamente porque a dor se tornou parte fundamental dela própria?

Como vivemos num mundo em que tudo é para anteontem, inclusive o processo de recuperação de perdas afetivas, as coisas ficam um pouco mais difíceis. Meu avô, um homem inteligente, costumava dizer algo absurdo: “Quero morrer numa sexta-feira: no sábado será o velório; no domingo, o enterro. Segunda-feira vocês voltam ao trabalho normalmente”. Ele morreu em 1998 e até hoje guardo na boca o gosto amargo desse final de semana, prova de que as coisas não funcionam tão rápido quanto se espera.

Uma imagem hipotética para a contemporaneidade: se o deus cristão tivesse que criar o mundo novamente, ele não teria seis dias, mas sim uma noite mal dormida para fazê-lo. Aí talvez não existissem as canções, as ameixas, o caldo de cana, as crianças, enfim, essas coisas boas da vida, que ficariam de fora por falta de tempo divino. Talvez nem tivéssemos um céu azul, mas sim uma lona preta a cobrir o teto do mundo. E o pior: após a noite de criação, o velhinho de barbas brancas teria que acordar cedo e avaliar o processo criativo. Certamente, seria criticado por não ter realizado, com a devida antecedência, um planejamento estratégico que embasasse o seu trabalho.

“Dar tempo ao tempo” é uma expressão tão redundante quanto sábia. Ela está em desuso, afinal, time is money (tempo é dinheiro). É lamentável que o atropelo e a correria (você já percebeu como as pessoas estão sempre dizendo que estão “na correria”?) estejam regendo desde a redação dos jornais até a produção cultural. É bem mais compreensivo que o jornalismo seja pautado pela urgência, contudo, pautar o trabalho artístico e cultural com cronogramas de execução e planos de trabalho me parece uma violência sem tamanho (por favor, deem um tempo e me deixem de fora dessa lógica da administração de empresas que invadiu o mundo!).

Há algum tempo, encontrei no sebo um livro. Nele, havia um conto chamado “Pequenos Desencontros”, de Silveira de Souza, um escritor florianopolitano extraordinário. O tempo passou, o acaso fez o favor de providenciar um encontro com o autor e o desejo tratou de enredar uma vontade imbatível de fazer um filme a partir desse livro. Desde o dia que o li até o lançamento do curta-metragem no ano passado, mais de cinco anos se passaram. As ideias precisam de tempo para amadurecer, tanto que o roteiro teve mais de cinco tratamentos diferentes. O tempo de um processo criativo não cabe num cronograma de trabalho (por mais que nos forcem a acreditar nisso): lidar com arte não é uma gincana.
Hoje, ao assistir ao filme, pergunto-me: “quem fez esse filme?”. Um outro qualquer, menos eu. É uma sensação boa perceber que o tempo passou, que me tornei outro, que o filme virou coisa outra e que mesmo a história original do Silveira de Souza transformou-se em algo completamente distinto na tela do cinema (sorte minha que ele gostou dessas mudanças).

Recordo-me que o primeiro dia de filmagens foi cancelado por conta do mau tempo: uma chuva torrencial caiu sobre a Grande Florianópolis e a cidade de Antônio Carlos, onde se encontravam as primeiras locações, ficara debaixo d´água. Lembro-me de arrancar os poucos cabelos que me restavam sobre a cabeça, preocupado, porque tínhamos pouco tempo para as filmagens, muitas tomadas externas e o primeiro dia de filmagem havia sido cancelado. Eis que o tempo ruim passou e os demais dias foram perfeitos. Muito sol e uma temperatura agradável abençoaram o resto das filmagens. Para que tanto desespero? Para nada. A vida dá voltas e certamente essas voltas são cúmplices do eterno retorno dos ponteiros do relógio de uma velha catedral.

Além do mais

1.
Sopraram-me ao ouvido: “O tempo é uma criança ensolarada que não sabe a quem recorrer quando fica perdido: se para o relógio ou para o meteorologista”.

2.
Passou no cinema: “Feitiço do tempo” (Groundhog Day, 1993), filme belo e divertido. Bill Murray é um repórter que cobre o clima e vai para uma pequena cidade fazer uma reportagem sobre o Dia da Marmota, uma festa local. Ele odeia ter que cobri-la todos os anos. Então, algo incrível acontece: os dias começam a se repetir e ele acorda todas as manhãs no mesmo hotel. E agora, como lidar consigo em um único e eterno dia?

* Texto publicado no caderno Cultura, coluna “Penso”, do jornal Diário Catarinense, no dia 9 de junho de 2012.


Comente: