Como se exerce o poder?*

Um filme, atualmente em cartaz, retoma a tradição do cinema político. “O Exercício do Poder”, escrito e dirigido pelo francês Pierre Schöller, exige que você inicie a sessão atento. Logo de partida, a melhor cena do filme. Uma mulher atravessa gabinetes governamentais, nua. Senta-se no chão, abre as pernas e… eis que surge um crocodilo, imenso. Ela engatinha em direção ao animal e… se deixa engolir.

Essa sequência funciona como epígrafe poética e metáfora para aquilo que se passará doravante: o ministro dos transportes da França (interpretado pelo ator de nome gastronômico, Olivier Gourmet) será deglutido pelo mundo da política institucional.

Nem mesmo graves acidentes de trânsito – a força pedagógica do acaso, por assim dizer – são capazes de mudar a postura e a visão de mundo do protagonista. Suas certezas, uma a uma, são postas por terra em nome da manutenção no poder. Talvez por isso o Estado seja o não-sentido: é preciso esvaziar-se por inteiro para se trabalhar, nos altos escalões, em seu nome.

Nestes termos, a figura do motorista substituto do ministro funciona como o contraponto ético a esse mundo encharcado de álcool, mentiras e fumaça. Ele é silencioso, falta-lhe ambição, mora num trailer e é casado com uma estrangeira. E é justo ele quem paga o preço mais alto pelas idas e vindas do poder que gira em seu entorno.

Um filme cuja maior parte dos diálogos se passa ao telefone celular. Porque é assim que se faz a política: junto ao ouvido (já que estamos todos de olhos bem fechados diante do abuso que os Estados cometem sobre os indivíduos todos os dias, a começar pelos impostos).

Em alguns momentos, o modo de posicionar a câmera junto às personagens lembra o procedimento do Cinema Direto (movimento da virada da década de 1950 para 1960): agilidade, proximidade e objetividade em relação àquilo que se filma. É interessante conferir como um procedimento do documentário se torna parte da estrutura narrativa de uma ficção, confundindo ainda mais os chamados “gêneros cinematográficos”.

Uma oportunidade de se refletir politicamente através de um filme. Excetuando-se Jean-Luc Godard e poucos outros (inclua-se aqui os irmãos Dardenne, produtores da película), os cineastas abandonaram as trincheiras do pensamento e da ação política. O amor, afinal, é a apoteose das narrativas contemporâneas. Após o filme, uma conclusão inevitável: o Estado não passa de uma sórdida conjugação de interesses de particulares que se utilizam da máquina pública para legitimá-los. A crise da Europa está aí para nos mostrar isso.

 

Além do mais

Joan Brossa em português

Uma resposta à ilegitimidade do Estado foi dada pela poesia do catalão Joan Brossa (1919-1998). Em tempos do franquismo, cada poema deveria ser como um tiro. Um trabalho meticuloso de tradução para o português está sendo levado a cabo, há anos por Ronald Polito.

 

Notas sobre o debate

No último sábado, Ronald Polito esteve em Florianópolis participando de um debate ocorrido durante o lançamento do livro “Escutem esse silêncio” (Lumme Editor, 2012, R$ 30,00), com cerca de 50 poemas inéditos de Brossa em português, cujo prefácio é assinado por Victor da Rosa. Uma das melhores frases de Polito foi: “A poesia não tem nada a ver com a literatura. É música, é pintura, é cinema, menos literatura”. E o acaso se rendeu ao evento: não é que dois clowns catalães que conheceram Joan Brossa – e que estavam passeando por Florianópolis – acabaram participando do debate contando as suas experiências com o poeta? Foi incrível.

 

O que são os ervais?

Para o sul do País, entender a lógica fundiária injusta existente nos campos de produção da erva-mate, seria um ótimo começo. “O que são os ervais?” é o título de um conjunto de textos breves sobre os ervais no Paraguai, numa crônica anarquista “contra a escravidão, tortura e morte do peão ervateiro” (fragmento do prefácio “Sobre fronteiras e ervais: cem anos sem Barrett”, de Alai Garcia Diniz). O livro foi lançado pela ótima editora Cultura e Barbárie (www.culturaebarbarie.org).

* Texto publicado na coluna Penso do caderno Cultura do jornal Diário Catarinense em dezembro de 2012.


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