Bispo do Rosário: Longa é a arte, tão breve a vida*

Um artista é capaz de desafiar o silêncio esmagador suscitado pela ausência de um corpo. A arte bem poderia ser compreendida como um fazer contra o aspecto inexorável da morte. No dizer de Hipócrates, “ars longa, vita brevis” (“a vida é curta, a arte é longa”). Se não é possível vencer o ocaso, eis que é criada uma série de testemunhos sobre o viver em forma de imagens, textos, sons ou mesmo a partir de objetos, do intelecto, seja o que for. É isso que ficará em meu lugar quando eu for morte e silêncio. Há um flerte com a eternidade em cada obra de arte, em cada página escrita.

Arthur Bispo do Rosário é um dos nomes mais incríveis da história recente do Brasil. Não fosse sua imensa obra, certamente teria passado pela vida como um mero dado estatístico referente à população pobre, negra, insana e excluída do Brasil. Nascido na cidade de Japaratupa, em Sergipe, no ano de 1909 (ou 1911, não se tem certeza), morreu em 1989. Se o errante é aquele que erra por gosto (ou pelo destino), então Bispo foi um deles: de marinheiro a faxineiro, de imigrante a interno de um manicômio, de religioso a artista consagrado após a morte.

Diagnosticado com esquizofrenia paranóide em 1938, no então Hospital para Alienados, na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, ele passaria por algumas instituições de atenção à saúde mental até ser internado na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, onde esteve até o fim da vida. Por décadas, dedicou-se a produzir aquilo que alguns consideram, hoje, um dos maiores monumentos da contemporânea arte brasileira e mesmo internacional.

O trabalho de Bispo consistia, primeiramente, em retirar objetos comuns de circulação para depois rearranjá-los junto a outros materiais obtidos da mesma maneira. Para tanto, ele os amarrava entre si (muitas vezes, por meio da costura), criando assim uma composição improvável que acabava produzindo um caráter estético para cada novo objeto que surgia. Após isso, ele os depositava num conjunto de celas localizadas no interior do Pavilhão 10, onde habitava na Colônia Juliano Moreira. Lá, de acordo com suas indicações, eles deveriam ficar até o dia do Juízo Final.

É preciso levar em conta a miséria material da maior parte dos hospícios brasileiros de então. Não era nada fácil conseguir objetos, sejam eles quais fossem. Para tanto, alguns relatos dão conta de que Bispo era uma espécie de xerife dentro da Colônia, exercendo autoridade e obtendo materiais por meio de sua presença e de sua força física (por sinal, ele chegou a lutar boxe, num período anterior a sua internação).

Em boa medida, Bispo era muito mais um obreiro do que um artista posto que direcionasse o fruto de seu trabalho ao Deus com “D” maiúsculo (no caso, um Deus cristão, esse mesmo que costuma alternar drasticamente os humores e distribuir culpas aos homens). Encarava o seu labor como uma espécie de sacrifício já que muitas vezes chegou a se auto-exilar durante meses na solitária para poder executá-lo. Bispo nunca desejou expor suas obras num museu, porém certamente sonhou em rezar missas. Na verdade, Bispo não cabe num museu e, mesmo se coubesse, sinceramente, não sei se os museus teriam os conhecimentos necessários para entendê-lo.

Um detalhe curioso: Bispo adorava jogar xadrez, metáfora ideal para se compreender sua visão de mundo, já que aquele que o joga faz uso de um conjunto de regras estruturadas hierarquicamente. Há reis, rainhas, bispos, torres, cavalos e peões dispostos em um tabuleiro cujas peças possuem movimentos delimitados. Só é possível elaborar e executar uma jogada a partir destas categorias. Bispo respeitava a hierarquia cristã (se bem que é preciso, ainda, estudar devidamente a influência das religiões e ritos africanos em sua trajetória). Seu nome – Bispo do Rosário – já remete a elementos simbólicos do catolicismo. Certa vez, declarou: “Eu escuto Jesus Filho e para mim é o bastante”. Em última instância, Bispo sempre trabalhou no espaço da sacristia, longe dos holofotes.

Ao morrer, foi desautorizado a fazer aquilo que mais almejava em vida. Isso porque ao longo dos anos, Bispo trabalhou na confecção daquilo que chamava de “Manto da Anunciação”. Obra fundamental, hoje pertencente ao Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea (localizado na antiga Colônia Juliano Moreira), trata-se de peça tecida pelas suas próprias mãos para ser a vestimenta utilizada por ele no dia de seu enterro. Era a síntese da grande narrativa que ordenara em sua passagem pelo planeta. Era com esse “Manto” que ele se decidira se apresentar aos céus. Contudo, alguns estudiosos da arte decidiram que era melhor guardá-lo em um museu de arte. É pena, porque uma vida sofrida bem que poderia ter se findado com um desejo realizado.

Além do mais

Documentário de Fernando Gabeira

No link http://www.youtube.com/watch?v=x9wc-_XoCcw é possível encontrar o documentário “Bispo”, realizado pela série “Vídeo-Cartas”, dirigido por Fernando Gabeira na década de 1980. Em uma das cenas, Bispo está em plena ação diante de um tabuleiro: é quando jornalista e interno disputam uma partida.

Bispo em exposição

Até o dia 29 de abril, encontra-se em cartaz no Santander Cultural, na cidade de Porto Alegre, a mostra “Bispo do Rosário: a poesia do fio”, com curadoria de Helena Severo e Wilson Lázaro. É relativamente difícil encontrar um conjunto expressivo de suas obras em exposição, portanto, quem puder ir até lá, certamente valerá o deslocamento. No ano passado, mostras com obras de Bispo ocorreram também no Museu Art & Marge em Bruxelas na Bélgica, no Instituto Valenciano de Arte na Espanha e na 11ª edição da Bienal de Lyon. Neste ano, está previsto que ele será um dos destaques da 30ª Bienal de São Paulo, com curadoria do venezuelano Luis Pérez-Oramas.

Diálogos com Raimundo Camillo

O simpático Raimundo Camillo é interno, há mais de 40 anos, da Colônia Juliano Moreira. Ele também mantém uma estreita relação com a arte. Seus trabalhos se parecem com cédulas de dinheiro (em alguns, o suporte é realmente um papel moeda). Ele desenha e colore, acrescentando números, alterando o valor monetário. Raimundo não rasga dinheiro, mas faz arte sobre ele. Certo dia, durante uma viagem que fiz para conhecer a Colônia (que ainda hoje está em funcionamento, com outro nome, é claro, porque os absurdos institucionais sempre precisam mudar de nomes) e o Museu Arthur Bispo do Rosário Arte Contemporânea, aproveitei a oportunidade e perguntei se ele conhecera Bispo do Rosário.

- “O Bispo do 10?”, questionou-me (sendo o número uma referência ao Pavilhão 10, onde Bispo residiu).

- “Sim, conheci.”

- “Como ele era?”, indaguei.

- “Ele era preto.”

* Texto publicado na coluna “Penso”, do caderno Cultura, do jornal Diário Catarinense, em 14 de abril de 2012.


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