As asas de galinha da necessidade*

Por que teimamos em dar importância a tudo aquilo que, na verdade, não passa de poeira? Afinal de contas, de onde vem o imperativo que invoca a necessidade? Por que, ultimamente, temos usado tanto a expressão “é preciso”?

Por todos os lados, se nos observamos – desde o fora, mas mesmo do dentro – conclui-se que poeira somos e poeira seremos. Indefectivelmente. Aliás, sabe-se disso desde o princípio, antes mesmo do verbo. Foi quando na escola alguém nos contou – um professor manco ou um amigo mais sabido – que o universo é infinito. Nesse instante, nesse mísero instante, desabou sobre nós a devastadora consciência da amplidão inesgotável na qual estamos imersos.

Ou seja, não passamos de migalha cósmica. Ou menos que isso. Ainda assim, somos parte de algo, correto? Temos alguma importância, não é mesmo? Pode até ser, mas mínima. Ou menos que mínima. Daí para deduzirmos que somos nada (ou coisa alguma, o que é pior) é um passo.

O excessivo zelo dos pais em relação aos filhos cria a falsa impressão egocêntrica, que se demora a desfazer mais a frente. Embora alguns nunca percam esse sentimento e se tornam tiranos de suas necessidades, incapazes de se descentrarem.

É a infantilização das subjetividades a qual temos assistido nos últimos tempos. O problema é que são essas “neo-crianças” quem controlam o joystick do capitalismo contemporâneo. E elas construíram um mundo edificado sobre “coisas importantes”. E o pior: com sua neurose, acabaram por estender o que julgam ser importante aos outros. “Ora, se elas são importantes para mim, por que não seriam imprescindíveis para o meu semelhante?”

Sendo assim, passam a ser necessários partidos e bandeiras para defenderem as “importâncias”. Mais a frente, as ideias não bastam, e se torna necessário apelar para as armas e ao genocídio. Tudo embasado teoricamente.

Feito o estrago, os corpos começam a surgir violentados e sem vida ao longo das trincheiras da ética. Eles mostram que nada daquilo era importante, que o que vale mesmo é a débil vida, o fato de respirarmos e nos alimentarmos como qualquer outro animal. A partir de então, tem início o processo em busca de se relativizar as importâncias, desconstruir identidades e, consequentemente, condenar o dogmatismo das certezas. Antes tarde do que nunca. Mas por que não fizemos isso antes ou agora mesmo? Por que precisamos sempre chegar ao limite do suportável?

Infelizmente, as “importâncias” são as guias fiéis da civilização. Elas se engajam, serelepes, no sonho da família, da democracia, da espiritualidade, do conhecimento. Delas brotam um sem número de valores, replicados aos quatro ventos, sem questionamentos, em conversas, redes sociais, veículos de comunicação, livros de história e ad infinitum. E desejamos isso, com a maior boa vontade e toda a força de nosso coração.

Pobre coração, tão inflacionado nesses dias nebulosos. Além do cardiologista, ele tem ido a toda parte, afinal, tudo precisa vir do coração, não é mesmo? Ele bem que poderia dividir o trabalho com o cérebro, mas ele também anda sobrecarregado com a neurobiologia que, histérica, afirma: “Todos os males vêm da mente. Podemos corrigir isso, basta enfiar-lhes remédios boca abaixo. Custa tanto”. E assim o capital continua a girar, lépido e feliz.

Se soubéssemos que a “necessidade tem asas de galinha” pouparíamos muito esforço (e toneladas de guaraná em pó). Como Molloy, personagem de Samuel Beckett (19 XXX), poderíamos lidar com os desejos de modo não automático. Isso porque, ultimamente, parece que se é obrigado a saciá-los todas as vezes que eles surgem no horizonte: “Você precisa correr atrás dos seus desejos, é isso que importa”.

Mas não necessariamente precisa ser assim, como diria Beckett: “Pois parece haver duas maneiras de se comportar na presença das vontades, a ativa e a contemplativa, e mesmo que ambas dêem os mesmos resultados, é para a segunda que vão as minhas preferências, questão de temperamento sem dúvida”.

Sempre haverá aqueles que dizem: “O amor é a coisa mais importante em nossa vida”. “Precisamos ter amigos”. Em primeiro lugar, não temos ou possuímos amigos, nós os encontramos ao longo da vida e eles continuam tendo a posse sobre si depois disso. Em segundo lugar: a amizade é desimportante, podemos viver sem ela, muito bem obrigado. Mas justo por ser desnecessária, como o amor, ela se torna tão bem vinda.

Admitamos uma vez na vida (dizem que o mais difícil é a primeira vez, depois fica mais fácil) que fazer nada, é disso que gostamos mesmo. Deitar na grama, no sofá e restar, devaneando feito nuvem, entre a vigília e o desacordo.

Sobre o nada, disso que podemos falar, desde o sempre.

* Texto publicado no jornal Diário Catarinense, coluna Penso, em 8 de junho de 2013.


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