A gente que vive no alto da costa

-         Até só dez metros da margem. Depois, você some. Desaparece. Vira spleen. Como se nunca tivesse existido.

-         Você quer café?

Ele sai. Trás há casa, quartoecozinha. É onde estende as tralhas: rabiscos de toda sorte, séries fotográficas, lápis dermatográficos, papéis de várias espécies e gêneros, ganchos e varais onde pendura os mais recentes trabalhos. Ou aqueles que fazem sentido naquele momento. Tudo disputa espaço com os objetos da utilidade do lar. Sacolas, louças, roupas (que nunca se dobram ao dono), armário semi-aberto, uma cama recém-instalada. Consegue pagar as contas ali, ir ao trabalho a pé e, o mais importante, manter a lagoa mansa aos seus pés. Chimarrão e cigarros.

Voltou com apenas uma xícara de café.

-         Você quer?

Uma cachorrada arredia fazia um espetáculo na andar de cima. Estávamos logo abaixo de uma varanda cujo deque era de madeira, quase pendente sobre as águas. A matilha ia de um lado ao outro e o estalido de suas unhas contra o piso criava um som interessante e perturbador, juntava-se aos latidos. Nem nessa hora consigo pensar em amarrar todos num saco e jogá-los da ponte. Nem assim! Que raça boa me ungiu, quanto sangue azul escorre pelas minhas veias!

-         Sabe lá para aqueles cantos?

Indicou sem apontar, apenas com o olhar, para nordeste donde estávamos, numa encosta verde da lagoa, salpicada por um punhado de casas.

-         Lá tem uma gente que não desce nunca. Fica sempre ali. Não sai para nada.

O mundo se revestiu da feiticeira curiosidade: “Como pode, em plena cidade, essa gente inóspita ao mundo decidir não descer à estrada para comprar um quilo de café?” “De onde vieram essas pessoas que vivem brincando de esconde-esconde?” A imaginação tomou lugar de qualquer outra faculdade que porventura operasse em meu espírito.

Lembro-me ainda de ver o débil espetáculo de uma lancha preta (a cor da embarcação até me convenceu, mas as manobras…). De lá para cá, com um motor estridente, rasgando lagoa ao meio, como um zíper branco, desnecessário. Carregava atrás de si um suposto esquiador das águas. Era tão patético que numa determinada manobra, o esquiador caiu esquálido. Não fosse a água, bastaria ali deixá-lo, jaz, pelo caminho.

Agora, paciente, ele me contava uma outra história, de um estrangeiro, que por ali passara, décadas atrás, em tempos de estrada de chãoepoeira, arregimentando o povo  nativo para o corte das palmeiras. A mais-valia era rudimentar: aquela gente pobre ia para o meio do mato, tirava o palmito, limpava-o ali mesmo e só levava o fino da bossa para à beira da estrada. É lá que o caminhão com placa de fora esperava, entregando míseros trocados aos mateiros.

-           E foi dessa vez que o pessoal lá daquele canto foi visto pela última vez entre os demais moradores da região: entregando pau de palmito. Depois disso, sumiram!


2 comentários:

  1. lengo says:

    (d)escrever assim é tal qual magnetita. um conto iônico. maravilha!

  2. mariangela says:

    Brilhante!!!

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