A Biblioteca Errante de Márcia Cardeal*

Uma biblioteca é um espaço do saber, certo? Errado. Livros, não necessariamente, são sinônimos de saber. Por sinal, é bem possível que a maioria deles seja um amontoado de palavras, frases e parágrafos repletos de toda a grande tolice que a civilização conseguiu reunir e catalogar ao longo dos séculos. Sorte minha que não estou sozinho neste entendimento: Gustave Flaubert e seus homenzinhos que copiavam os livros (“Bouvard e Pécuchet”); Jorge Luis Borges e a infinita Biblioteca de Babel:

“Já se sabe: para uma linha razoável com uma correta informação, há léguas de insensatas cacofonias, de confusões verbais e de incoerências. (Sei de uma região montanhosa cujos bibliotecários repudiam o supersticioso e vão costume de procurar sentido nos livros e o equiparam ao de procurá-lo nos sonhos ou nas linhas caóticas da mão… Admitem que os inventores da escrita imitaram os vinte e cinco símbolos naturais, mas sustentam que essa aplicação é casual, e que os livros em si nada significam).” (Jorge Luis Borges, A Biblioteca de Babel)

Márcia Cardeal opera a partir das contradições desse sistema de saber engendrado pelos livros. Ora, esses objetos que, muitas vezes, assumem a posição de verdadeiros objetos de culto – os bibliófilos que o digam – tornam-se o suporte onde a artista desata seu precioso universo próprio, repleto de delicadezas.

É aqui, propriamente, que reside o caráter singular de Márcia Cardeal: transformar os livros implica em um deslocamento do sentido e da forma dos mesmos, fazendo surgir algo que não é nem exclusivamente do domínio das artes visuais, nem da biblioteconomia. É esse procedimento que permite o aparecimento, em meio aos livros, de um desentupidor de sombras, um manual de sobrevivência, o escorrer de letras, um quase novelo a percorrer páginas e figuras que se projetam no espaço superando à bidimensionalidade livresca.

Por sinal, um detalhe importante é que os livros que ela se utiliza para esta exposição são oriundos do descarte realizado, gentilmente, pela Biblioteca Municipal de Brusque. O que era destinado ao saber (não por acaso, um dos títulos dos livros desta exposição se chama “Biblioteca do Saber”) torna-se matéria do sentir e do errar. Justo ele – o errado, o equivocado, o desviado – que teoricamente deveria ser expurgado dos livros.

Mais propriamente, poderíamos dizer que a artista assume o papel do errante: aquele que erra por gosto deliberado.

Essa é a biblioteca de Márcia. E como toda biblioteca pessoal, ela pode dizer muito sobre a personalidade daquele(a) que a reúne. Portanto, olhar atento sobre as opções da artista! Ao invés de estantes, os volumes repousam livremente ao longo do espaço; no lugar do catálogo, a liberdade do ir e vir entre um livro e outro; o ruído dissonante de um local de sociabilidade em detrimento ao silêncio e aos recintos fechados (condição imperativa de quase todas as bibliotecas).

* Texto para o catálogo da exposição Biblioteca Errante, da artista Márcia Cardeal, de 30 de abril a 1 de junho de 2013, na UNIASSELVI, em Brusque (SC), numa realização do SESC.


Comente: