Arquivo de ‘Blog’ Category

PROTESTA* (22/07/13)

Acreditava-se, ordinariamente, na estabilidade da terra e das coisas que por ela se distribuíam. Meses antes, no entanto, alguns moradores perceberam fenômeno ímpar: rebocos rachavam, estruturas trincavam. Parte de duas residências e mesmo prédio público inteiro foram ao chão. Avisados pela população, as empresas de engenharia e as autoridades tratavam de responder, laconicamente, que nada havia a temer, que os materiais estavam “trabalhando conforme suas dinâmicas internas”.

Sabe-se agora que se tratava do início de uma atividade sísmica que culminaria no 29 de fevereiro do ano do centenário da morte do prefeito C. S. Filho. Os historiadores convencionaram referir-se a esta data, hoje, simplesmente, como “o 29”.

Neste dia, as rachaduras se fizeram fendas, as fendas crateras; as portas foram escancaradas, os telhados se descobriram. A certidão das coisas dadas foi arraigada. Era como se a própria terra, imensa, acordasse por alguns segundos para um exercício qualquer, após milênios de inércia. Um alongamento, uma flexão ordinária, não fosse o fato de estarem agarradas, sobre ela, milhares de toneladas de construções humanas. Como num liquidificador, tudo parecia com tudo. A terra estava arrasada.

Depois fez frio. E caiu um aguaceiro, por dias. Até que se fez uma imensa claridade crua. A luz foi tanta que os olhos cegaram; tamanho clarão, que foi preciso reconstruir paredes, tetos, cerrar cortinas nas janelas. Rearranjar aquilo que o abalo deixara vazio.

Esse processo de reconstrução levou mais de quatro anos, para que do caos sobreviesse, novamente, algo parecido com uma cidade. Ao cabo de mais dois invernos, as coisas novamente pareciam estáveis e, por analogia, as pessoas passaram a reconsiderar o mundo como algo duradouro. Durante este período, no entanto – mesmo após a reconstrução de casas e hospícios, padarias e redações de jornais, escolas e canis, hospitais e salas de tortura, enfim, das construções vitais para se viver em comunidade e em paz – um impasse se instalou.

A praça central daquela cidade não podia ser reinaugurada, embora os recursos, materiais e mão de obra estivessem a disposição. Ocorria que todos, sem exceção, estavam esquecidos dos desenhos que ornavam o piso antes do tremor. É caso de se dizer que não se tratava de simples calçada, mas sim de um mosaico português, tombado como patrimônio histórico, trabalho que remontava aos mestres calceteiros lisboetas. Feito com pedras portuguesas ou petit-pavés, esse tipo de revestimento predispõe-se ao decorativo e ao figurativo, entre a pedra preta e a branca, com jogos possíveis de alternâncias, repetições e ausências, a depender do arabesco almejado e do humor do artífice.

A força da lei que a declarava patrimônio, impeditiva, não autorizava que se reinventasse um novo piso sem que se mantivesse as características originais do de outrora (embora esse fosse o desejo íntimo do prefeito C. S. Neto: dar outra forma àquilo, reinaugurá-la o quanto antes já que se transformara na maior polêmica de seu mandato).

Mas não lhe foi possível. E ele entrou para o anedotário da história política da cidade como o prefeito sem memória, que não conseguira lembrar das imagens que estavam no piso da praça pela qual passava todos os dias antes do abalo. Na verdade, nem ele, nem seu sucessor, muito menos qualquer outro cidadão de bem (ou de mal) conseguiram se recordar de imagem alguma. Estavam ocupados demais em planejar o futuro e enterrar os seus mortos.

Além do mais

Largado

Antes da construção do piso com pedras portuguesas, conta-se que a praça era simplesmente um largo. Termo aberto, “largo” presta-se a definir lugares ainda não definidos: não são praças, nem parques, nem mirantes, nem jardins, nem coisa alguma. São apenas espaços amplos, vastos, enfim, largos. Arrastam-se pelo tempo, desclassificados.

Nos anais da história

Fenômeno singular, registrado pelos historiadores, é que este e outros largos possuíam uma imanente capacidade para atrair vagabundos, águas paradas, animais baldios, prostitutas, pernilongos, enfim, uma variedade de tipos que compõe não exatamente a paisagem mais apreciada pela boa gente da sociedade local.

O Brasil não está em crise, portanto, esqueçam

“Em sua fase de prosperidade, as sociedades industriais não suscitam revolução, ainda que eu seu seio se desenvolvam grupos revolucionários. A ressurgência, em 1968, de todo o velho socialismo utópico e libertário que os políticos de esquerda haviam lançado nas lixeiras da história é capital, não por causa de seu impacto, que permaneceu medíocre, mas por sua presença difusa na consciência humana, como alternativa eventual a uma situação explosiva. Eis o tesouro que devemos cultivar.” (Maurice Joyeux, “Reflexões sobre a anarquia”)

* Publicado na coluna Penso do caderno Cultura do jornal Diário Catarinense em 6 de maio de 2013.

As asas de galinha da necessidade* (8/06/13)

Por que teimamos em dar importância a tudo aquilo que, na verdade, não passa de poeira? Afinal de contas, de onde vem o imperativo que invoca a necessidade? Por que, ultimamente, temos usado tanto a expressão “é preciso”?

Por todos os lados, se nos observamos – desde o fora, mas mesmo do dentro – conclui-se que poeira somos e poeira seremos. Indefectivelmente. Aliás, sabe-se disso desde o princípio, antes mesmo do verbo. Foi quando na escola alguém nos contou – um professor manco ou um amigo mais sabido – que o universo é infinito. Nesse instante, nesse mísero instante, desabou sobre nós a devastadora consciência da amplidão inesgotável na qual estamos imersos.

Ou seja, não passamos de migalha cósmica. Ou menos que isso. Ainda assim, somos parte de algo, correto? Temos alguma importância, não é mesmo? Pode até ser, mas mínima. Ou menos que mínima. Daí para deduzirmos que somos nada (ou coisa alguma, o que é pior) é um passo.

O excessivo zelo dos pais em relação aos filhos cria a falsa impressão egocêntrica, que se demora a desfazer mais a frente. Embora alguns nunca percam esse sentimento e se tornam tiranos de suas necessidades, incapazes de se descentrarem.

É a infantilização das subjetividades a qual temos assistido nos últimos tempos. O problema é que são essas “neo-crianças” quem controlam o joystick do capitalismo contemporâneo. E elas construíram um mundo edificado sobre “coisas importantes”. E o pior: com sua neurose, acabaram por estender o que julgam ser importante aos outros. “Ora, se elas são importantes para mim, por que não seriam imprescindíveis para o meu semelhante?”

Sendo assim, passam a ser necessários partidos e bandeiras para defenderem as “importâncias”. Mais a frente, as ideias não bastam, e se torna necessário apelar para as armas e ao genocídio. Tudo embasado teoricamente.

Feito o estrago, os corpos começam a surgir violentados e sem vida ao longo das trincheiras da ética. Eles mostram que nada daquilo era importante, que o que vale mesmo é a débil vida, o fato de respirarmos e nos alimentarmos como qualquer outro animal. A partir de então, tem início o processo em busca de se relativizar as importâncias, desconstruir identidades e, consequentemente, condenar o dogmatismo das certezas. Antes tarde do que nunca. Mas por que não fizemos isso antes ou agora mesmo? Por que precisamos sempre chegar ao limite do suportável?

Infelizmente, as “importâncias” são as guias fiéis da civilização. Elas se engajam, serelepes, no sonho da família, da democracia, da espiritualidade, do conhecimento. Delas brotam um sem número de valores, replicados aos quatro ventos, sem questionamentos, em conversas, redes sociais, veículos de comunicação, livros de história e ad infinitum. E desejamos isso, com a maior boa vontade e toda a força de nosso coração.

Pobre coração, tão inflacionado nesses dias nebulosos. Além do cardiologista, ele tem ido a toda parte, afinal, tudo precisa vir do coração, não é mesmo? Ele bem que poderia dividir o trabalho com o cérebro, mas ele também anda sobrecarregado com a neurobiologia que, histérica, afirma: “Todos os males vêm da mente. Podemos corrigir isso, basta enfiar-lhes remédios boca abaixo. Custa tanto”. E assim o capital continua a girar, lépido e feliz.

Se soubéssemos que a “necessidade tem asas de galinha” pouparíamos muito esforço (e toneladas de guaraná em pó). Como Molloy, personagem de Samuel Beckett (19 XXX), poderíamos lidar com os desejos de modo não automático. Isso porque, ultimamente, parece que se é obrigado a saciá-los todas as vezes que eles surgem no horizonte: “Você precisa correr atrás dos seus desejos, é isso que importa”.

Mas não necessariamente precisa ser assim, como diria Beckett: “Pois parece haver duas maneiras de se comportar na presença das vontades, a ativa e a contemplativa, e mesmo que ambas dêem os mesmos resultados, é para a segunda que vão as minhas preferências, questão de temperamento sem dúvida”.

Sempre haverá aqueles que dizem: “O amor é a coisa mais importante em nossa vida”. “Precisamos ter amigos”. Em primeiro lugar, não temos ou possuímos amigos, nós os encontramos ao longo da vida e eles continuam tendo a posse sobre si depois disso. Em segundo lugar: a amizade é desimportante, podemos viver sem ela, muito bem obrigado. Mas justo por ser desnecessária, como o amor, ela se torna tão bem vinda.

Admitamos uma vez na vida (dizem que o mais difícil é a primeira vez, depois fica mais fácil) que fazer nada, é disso que gostamos mesmo. Deitar na grama, no sofá e restar, devaneando feito nuvem, entre a vigília e o desacordo.

Sobre o nada, disso que podemos falar, desde o sempre.

* Texto publicado no jornal Diário Catarinense, coluna Penso, em 8 de junho de 2013.

A gente que vive no alto da costa (14/05/13)

-         Até só dez metros da margem. Depois, você some. Desaparece. Vira spleen. Como se nunca tivesse existido.

-         Você quer café?

Ele sai. Trás há casa, quartoecozinha. É onde estende as tralhas: rabiscos de toda sorte, séries fotográficas, lápis dermatográficos, papéis de várias espécies e gêneros, ganchos e varais onde pendura os mais recentes trabalhos. Ou aqueles que fazem sentido naquele momento. Tudo disputa espaço com os objetos da utilidade do lar. Sacolas, louças, roupas (que nunca se dobram ao dono), armário semi-aberto, uma cama recém-instalada. Consegue pagar as contas ali, ir ao trabalho a pé e, o mais importante, manter a lagoa mansa aos seus pés. Chimarrão e cigarros.

Voltou com apenas uma xícara de café.

-         Você quer?

Uma cachorrada arredia fazia um espetáculo na andar de cima. Estávamos logo abaixo de uma varanda cujo deque era de madeira, quase pendente sobre as águas. A matilha ia de um lado ao outro e o estalido de suas unhas contra o piso criava um som interessante e perturbador, juntava-se aos latidos. Nem nessa hora consigo pensar em amarrar todos num saco e jogá-los da ponte. Nem assim! Que raça boa me ungiu, quanto sangue azul escorre pelas minhas veias!

-         Sabe lá para aqueles cantos?

Indicou sem apontar, apenas com o olhar, para nordeste donde estávamos, numa encosta verde da lagoa, salpicada por um punhado de casas.

-         Lá tem uma gente que não desce nunca. Fica sempre ali. Não sai para nada.

O mundo se revestiu da feiticeira curiosidade: “Como pode, em plena cidade, essa gente inóspita ao mundo decidir não descer à estrada para comprar um quilo de café?” “De onde vieram essas pessoas que vivem brincando de esconde-esconde?” A imaginação tomou lugar de qualquer outra faculdade que porventura operasse em meu espírito.

Lembro-me ainda de ver o débil espetáculo de uma lancha preta (a cor da embarcação até me convenceu, mas as manobras…). De lá para cá, com um motor estridente, rasgando lagoa ao meio, como um zíper branco, desnecessário. Carregava atrás de si um suposto esquiador das águas. Era tão patético que numa determinada manobra, o esquiador caiu esquálido. Não fosse a água, bastaria ali deixá-lo, jaz, pelo caminho.

Agora, paciente, ele me contava uma outra história, de um estrangeiro, que por ali passara, décadas atrás, em tempos de estrada de chãoepoeira, arregimentando o povo  nativo para o corte das palmeiras. A mais-valia era rudimentar: aquela gente pobre ia para o meio do mato, tirava o palmito, limpava-o ali mesmo e só levava o fino da bossa para à beira da estrada. É lá que o caminhão com placa de fora esperava, entregando míseros trocados aos mateiros.

-           E foi dessa vez que o pessoal lá daquele canto foi visto pela última vez entre os demais moradores da região: entregando pau de palmito. Depois disso, sumiram!

Modernismo: os novos e os velhos* (13/05/13)

Em novembro de 1957, ocorria a abertura da I Exposição de Pinturas e Desenhos de Motivos Catarinenses, de Hassis Corrêa e Ernesto Meyer Filho, no Instituto Brasil-Estados Unidos, em Florianópolis. A segunda geração de modernistas nas artes plásticas locais estruturar-se-ia em torno desta mostra, sucedendo nomes como Eduardo Dias, Martinho de Haro, Franklin Cascaes, Willy Zumblick e Malinverni Filho.

Até o ano de 1961, o Grupo de Artistas Plásticos de Florianópolis (GAPF), cujo primeiro salão fora realizado em 1958, agitaria o panorama artístico, reunindo Pedro Paulo Vecchietti, Tércio da Gama, Hugo Mund Júnior, Aldo Nunes, Thales Brognoli, Dimas Rosa e Rodrigo de Haro, além de Hassis e Meyer Filho. O GAPF deu continuidade ao processo instaurado na década passada pelo Círculo de Arte Moderna (CAM), no campo da literatura e do cinema (o primeiro longa metragem catarinense, O Preço da Ilusão, título sintomático, seria produzido pelo Grupo em 1957). O CAM, que passaria a ser conhecido como Grupo Sul, pode ser definido, resumidamente, como uma rede de artistas e intelectuais que propuseram a discussão, produção e veiculação da arte moderna em Florianópolis, lançando assim novos valores. O principal meio do grupo seria a Revista Sul, publicada de 1948 a 1957, num total de trinta números.

Apesar de propagandearem um suposto marasmo que seria característico do estado das coisas da arte e da cultura na cidade, em 1957, por exemplo, é possível identificar ao menos outras cinco exposições de arte ocorrendo na cidade. Na Agência da A.F.L., à rua Felipe Schmidt, o lageano Ruy Ghiorzi expunha dois crayons e um bico-de-pena, devidamente registrados no jornal O Estado, em 14 de novembro. Já o IIº Salão Catarinense de Arte Fotográfica era realizado no edifício do prédio do IAPC e recebia matéria de capa do Diário da Tarde de 4 de dezembro. Acary Margarida, “o poeta de nossa terra”, segundo a capa do jornal O Estado de 23 de novembro, assinada por Paschoal Apóstolo, também estava expondo. A mostra que mais se destacava era a XXIIIª Exposição de Pinturas de Willy Zumblick, que recebia ampla cobertura dos jornais. A sua abertura havia sido um ato “(…) solene, contando com as mais altas autoridades civis, militares e eclesiásticas, além de pessoas de nossa melhor sociedade (sic) e grande número de convidados e representantes de todas as classes sociais”, conforme o jornal O Estado de 12 de novembro. No dia 20 do mesmo mês, surgia nas páginas dos diários o nome de Emeric Marcier – “artista húngaro ligado por laços familiares a gente de nossa terra”, de acordo com Egas Godinho, pseudônimo de Osvaldo Rodrigues Cabral – que inaugurava exposição na antiga residência “do dr. Manoel Pedro Silveira, à esquina das ruas Trajano e Tenente Silveira”. No mesmo texto, descobre-se que o artista era casado com a catarinense filha do “saudoso General Vieira Rosa”. É pena que a exposição de Emeric Marcier, um vigoroso artista modernista, que chegou a ser professor de Djanira, tenha se tornado assunto para as colunas sociais (aliás, algo corriqueiro ainda hoje). O fato é que a repercussão crítica foi quase nula. Será que os modernistas de plantão não tiveram olhos para avaliar a importância da passagem de Marcier pela Ilha de Santa Catarina?

O ambiente cultural na segunda metade da década de 1950 não era, portanto, tão modorrento como se costumava, ordinariamente, afirmar (isso que nos detivemos apenas nas artes plásticas). Em verdade, dizer que “nada acontece”, que há um “vazio” ou mesmo julgar que se está “atrasado” não deixa de ser uma estratégia, ainda hoje muito útil a alguns, para se tomar de assalto determinado circuito e, sobretudo, seu capital simbólico (capaz de lhes prover recursos e prestígio). É um agitprop desprovido de consequência política, arranjado para se tomar o lugar de, em nome de.

Desvalorizar o antigo é tática do capital. A indústria eletrônica, por exemplo, não nos permite manter um equipamento por mais de dez anos. Indefectivelmente, eles estragam antes disso, no ciclo da obsolescência programada. Nas artes, os modernistas – mesmo porque, no Brasil, eles apareceram em tempos de guerra e de industrialização – se apropriaram dessa estratégia e, antes de iniciarem seus trabalhos, costumavam “limpar o terreno”. Por meio de seus veículos de comunicação (revistas, suplementos culturais, etc.), espalhavam aos quatro ventos que antes deles não havia nada ou quase nada. De modo geral, eles tiveram pouco gosto pela pesquisa. Estavam muito ocupados em se deslumbrar com a tecnologia, ocupar cargos públicos e em cuidar de seus egos. Talvez por isso, costumavam mostrar apenas a si próprios, como num jogo de espelhos. Sorte nossa que os modernistas oficialescos em tempos da ditadura de Getúlio Vargas, capitaneados por Gustavo Capanema, foram menos egóicos e souberam retomar, por exemplo, o barroco mineiro (que, na verdade, era rococó, mas tudo bem).

O ideal modernista teve fértil terreno também na arquitetura e no urbanismo. O sonho de Le Corbusier, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e companhia era construir a partir do nada. Para eles, era muito complicado criar em um tecido urbano já existente, com seus vestígios, memórias, vícios e tradições (deve ser porque realmente dá algum trabalho compreender a história). Por isso, foram até o Planalto Central erguer a Capital Federal em meio ao descampado, acreditando que seria possível construir uma cidade moderna e eficiente, numa loucura desvairada patrocinada pela presidência da república em tempos de JK. Em Florianópolis, a herança maldita dos modernistas continua a funcionar: constróem-se aterros e mais aterros, numa esperança de que as vias, passeios e prédios que ali se fundam funcionem numa lógica mais ordenada.

Batidíssima coisa é a questão do “novo” e do “velho” e nem mesmo é exclusividade da modernidade. Como dizia aquele poeta: “Il est des morts, qu´il faut qu´on tue” (“Há mortos que precisamos matar”). A querela entre os antigos e os modernos agitou a academia francesa no século XVII, opondo Nicolas Boileau (1636-1711) e Charles Perrault (1628-1703). E na Antiguidade Clássica, Ésquilo (526-456 a.C.), não podendo suportar os triunfos de Sófocles (495-406 a.C.), abandonou Atenas e foi morrer na Sicília, num gesto que assinalou o recuo do “velho” glorioso ante as investidas da “nova” técnica. Como dizia meu bisavô, Altino Flôres, são “ressacas mais ou menos violentas, depois das quais os estragos se remedeiam”.

 

Além do mais

Originalidade abracadábrica

Os abracadábricos excessos modernistas em busca da originalidade suprema podem ser refutados pelo bom e velho Goethe, em suas conversações com Eckermann: “Fala-se sempre de originalidade; mas, que quer dizer isso? Logo que nascemos, começa o mundo a atuar sobre nós e assim prossegue até a nossa morte. E, além disso, que poderemos chamar de nosso, verdadeiramente, a não ser a energia, a força, o querer? Se eu pudesse especificar o que devo aos grandes antepassados e contemporâneos, não ficaria muito que referir como sendo meu”.

 

A prole dos pequenos animais

“Movimento algum deu jamais no Brasil tantos poetas (surgiam até aos magotes, três, quatro, cinco, pelas cidadezinhas do interior, subscrevendo cadernos desenxabidos de poemas) como o Modernismo. Foi um movimento prenhe de poetas exíguos e numerosos tal qual a prole dos pequenos animais”. Jorge de Lima pegou pesado com os modernistas mas, pensando bem, não é que ele tinha razão?

* Texto publicado na coluna Penso do jornal Diário Catarinense em 11 de maio de 2013.

A Biblioteca Errante de Márcia Cardeal* (30/04/13)

Uma biblioteca é um espaço do saber, certo? Errado. Livros, não necessariamente, são sinônimos de saber. Por sinal, é bem possível que a maioria deles seja um amontoado de palavras, frases e parágrafos repletos de toda a grande tolice que a civilização conseguiu reunir e catalogar ao longo dos séculos. Sorte minha que não estou sozinho neste entendimento: Gustave Flaubert e seus homenzinhos que copiavam os livros (“Bouvard e Pécuchet”); Jorge Luis Borges e a infinita Biblioteca de Babel:

“Já se sabe: para uma linha razoável com uma correta informação, há léguas de insensatas cacofonias, de confusões verbais e de incoerências. (Sei de uma região montanhosa cujos bibliotecários repudiam o supersticioso e vão costume de procurar sentido nos livros e o equiparam ao de procurá-lo nos sonhos ou nas linhas caóticas da mão… Admitem que os inventores da escrita imitaram os vinte e cinco símbolos naturais, mas sustentam que essa aplicação é casual, e que os livros em si nada significam).” (Jorge Luis Borges, A Biblioteca de Babel)

Márcia Cardeal opera a partir das contradições desse sistema de saber engendrado pelos livros. Ora, esses objetos que, muitas vezes, assumem a posição de verdadeiros objetos de culto – os bibliófilos que o digam – tornam-se o suporte onde a artista desata seu precioso universo próprio, repleto de delicadezas.

É aqui, propriamente, que reside o caráter singular de Márcia Cardeal: transformar os livros implica em um deslocamento do sentido e da forma dos mesmos, fazendo surgir algo que não é nem exclusivamente do domínio das artes visuais, nem da biblioteconomia. É esse procedimento que permite o aparecimento, em meio aos livros, de um desentupidor de sombras, um manual de sobrevivência, o escorrer de letras, um quase novelo a percorrer páginas e figuras que se projetam no espaço superando à bidimensionalidade livresca.

Por sinal, um detalhe importante é que os livros que ela se utiliza para esta exposição são oriundos do descarte realizado, gentilmente, pela Biblioteca Municipal de Brusque. O que era destinado ao saber (não por acaso, um dos títulos dos livros desta exposição se chama “Biblioteca do Saber”) torna-se matéria do sentir e do errar. Justo ele – o errado, o equivocado, o desviado – que teoricamente deveria ser expurgado dos livros.

Mais propriamente, poderíamos dizer que a artista assume o papel do errante: aquele que erra por gosto deliberado.

Essa é a biblioteca de Márcia. E como toda biblioteca pessoal, ela pode dizer muito sobre a personalidade daquele(a) que a reúne. Portanto, olhar atento sobre as opções da artista! Ao invés de estantes, os volumes repousam livremente ao longo do espaço; no lugar do catálogo, a liberdade do ir e vir entre um livro e outro; o ruído dissonante de um local de sociabilidade em detrimento ao silêncio e aos recintos fechados (condição imperativa de quase todas as bibliotecas).

* Texto para o catálogo da exposição Biblioteca Errante, da artista Márcia Cardeal, de 30 de abril a 1 de junho de 2013, na UNIASSELVI, em Brusque (SC), numa realização do SESC.

OVOADOR, A DOR OVO, A DOR VOA (17/04/13)

João é menino interior, igrejamente educado. Dia após dia, ele fazia pescarias lá para as bandas do sertão. Ocorre que ao contrário da maioria das gentes, ele não gostava de pescar usando a lei da gravidade. Cof-cof. Permitam-me explicar, ou melhor, é mais razoável que o próprio João preste conta de sua pescaria antigravitacional:

- “É assim, ó, não joga o anzol na água não, até porque aqui só tem água no fundinho do poço e olhe lá!”

Certo, João, mas como devemos lançar a linha, então?

- “É, simples, menino! Só amarrar bem amarradinho o anzol na rabiola de uma pipa e soltar ela bem lá no alto. Aí, é só esperar”.

E assim João passava os dias a olhar para o céu azulzinho, esperando que vento soprasse a pipa cada vez mais para cima, até ficar bem pequenininha em seus olhos que chegavam a amarelar quando a linha alinhava com o Sol.

No início, João não queria pescar coisas para se comer, mas sim para se beber. Umas gotas d’água e ele já estaria satisfeito. Ele a dividiria entre os animais que a cada dia desidratavam mais e mais. Mas o diacho é que nem isso ele conseguia.

O vilarejo onde morava parecia ser oco de tão seco. Era mais seco do que os olhos de seu pai, donde nunca saia lágrima alguma. Bem que João preferia o clima feito os olhos da mãe, que faziam água feito fundo de poço por muito pouco.

- “Larga mão dessa bestalhada!!!”, da boca do pai ouviu. “Não tem nada de coisa de pescar no ar! Isso é pra maluco. Água só cai do céu, não adianta nadinha a gente ir buscar lá nas alturas. É assim que deus quis e assim será. Além do mais não tem espaço aqui em casa pra guardar essas coisas que vêm dessas pescarias de doido!”.

Sim, é verdade que até hoje nem uma única gota d´água fora pescada por João. Mas o fato é que, ao acaso (aliás, como em toda pescaria), ele fisgava umas coisinhas que, digamos assim, começavam a fazer volume no quintal da casa simples onde viviam.

Ao pastor, sabedor de que a comunidade agora contava com um menino que pescava no céu, João teve que se explicar:

- “Das coisas do céu, cuido eu!”, asseverou o representante divino, antes que João pudesse lhe dizer “Bom dia”.

O pastor encafifara de querer saber o por quê dessa “pescaria maléfica”. Com tranquilidade bovina, João respondeu:

- “Cada um tem seu ofício. O senhor tem o seu, eu tenho o meu. Para o seu entendimento, eu sou pescador aeroespacial. E o que tenho que fazer, feito será. Amém”.

Virou as costas e deu no pé. Não se sabe exatamente donde ele tirava expressões como “pescador aeroespacial”, mas certamente tinha parte nisso a televisão da bodega: sempre ligada num contraponto energético à dona do estabelecimento (João jurava que a vira babando sobre o sobre o balcão enquanto assistia um programa vespertino televisivo).

* * *

Dia desses, por exemplo, João pescou urubu todo preto, só mesmo as rodelas dos olhos eram brancas. Eis o que o negro bicho lhe falou:

- “Ser urubu é dureza. Sou grande demais para a aérea natureza. Quando bate o sol fico mais quente do que pão quando sai do forno. Eu preciso voar bem alto, lá pra cima, e me limpar das porcarias que como todo dia. As pessoas me confundem com uma lixeira voadora que traz mau agouro e maldição. Eu me alimento de carniça. E carniça tem gosto de morte. Lá de longe eu vejo coisas vivas e preferiria mesmo era ser pequenino, voar baixo e comer alpiste feito os canários-da-telha. Eles são amarelos porque aprenderam a cantar”.

João interrompeu dizendo que gostava de urubus, que ele não precisava ficar assim ressentido. Deliberou que o levaria para casa e amarrou sua pata em um cordão bem longo, preso a uma árvore do quintal.

Num outro dia, era cedo, manhãzinha, João estava a postos para lançar o anzol outra vez. Pouco demorou para a linha ficar mais leve do que o normal. Parecia que o ar não mais a sustentava e que agora manejava a linha como se fosse uma pluma. Quando recolheu pipa e anzol de volta à terra, entendeu o que acontecera.

- “Uma nuvem!”, gritou feliz a pular na terra dura feito as palavras do pai. Logo percebeu que a nuvem era toda dispersa, não conseguia tocar uma conversa. Falava sem sentido, mas tinha rima e ritmo, para acompanhar os seus motivos. João bem quietinho ouvia, para ver se entendia o que aquele cumulus dizia:

- “Lá é cá, lado para outro, não sou dona de mim. É vento quem forja o meu ser. Melhor, nunca sou, sempre estou, perdida entre o nada e o lugar nenhum”.

A nuvem fez uma pausa que gerou um clima. Ficou toda escura e a falar continuou, mas agora vertendo lágrimas, que logo temporal virou:

- “Depois que chovo, esqueço de mim. É como se nunca tivesse existido. Eu sou amnésia, não sei quem é minha mãe e nem quando nasci. Todos passam dentro de mim e ninguém fica, até o desgraçado urubu. Eu mordo as bordas, fico preta, branca, nem sei mesmo a minha cor. Dependo de correntes, mas não sou prisioneira. Dizem que sou livre, mas o céu é minha cadeia”.

João a interrompeu, “Para de resmungar, desanuvia!” e logo anunciou que nunca mais precisaria se preocupar. Ele cuidaria dela, levando-a para sua casa onde na geladeira moraria.

Tempos depois, João correu para nova pescaria. Já era mestre em erguer o que ele chamava de “pipanzol”. Mas não sabia se da sexta série passaria. O que não tinha conhecimento era que naquela tarde tanta dificuldade teria. É que quando anzol fisgou, percebeu que era “peixe grande” e que o peso era maior que o de uma roda gigante. Bravo e safo, em torno do corpo amarrou a linha, não sem antes se vestir com uma folha de bananeira que ali havia. Demorou mais de hora e meia, pouco importa, pois fez a colheita.

- “Welcome to… Where is here?!?”

Um avião pouso forçado fez, espantado, João pediu para ele não falar inglês:

- “Ah, desculpe. É que sou voo internacional. Mas no fundo é sempre bom ter imprevistos. Você me pescar foi a melhor coisa que me ocorreu nos últimos anos. Quando temos contratempos, geralmente são trágicos: caímos no mar ou na terra e não sobra ninguém para contar história”.

João pediu e o avião se dispôs a contar outras histórias.

- “João, essa vida de avião é fácil não. Sempre um destino a cumprir, uma cidade a partir, uma torre a sorrir. Quando estamos parados, é para mexerem dentro da gente com a desculpa de que é manutenção. Eu fui inventado para planar solto por aí, mas não posso fazer isso porque sempre tenho horários a cumprir”.

Com a triste história, João compadecido ficou. Sem demora o colocou numa sacola e para a casa o levou.

* * *

A parte estranha dessa história, ninguém no vilarejo acredita. É quando se conta do dia em que ao invés de pescar, João, pescado foi.

- “Eu estava em meu posto, começando a preparar a instrumentação da pescaria aeroespacial. Eu tava agachado, com a cara para a terra, tentando prender o anzol na pipa. Foi quando senti uma fisgada no meu pescoço e comecei a voar sem precisar fazer força alguma. Eu olhei para meus braços e não vi par de asas nenhum. Foi aí que comecei a estranhar a minha repentina capacidade de levitação. Eu não sabia para onde ia, só sentia que alguma coisa, como se fosse uma linha, me puxava cada vez mais para o alto. Durante um tempo, eu resisti, mas no momento em que minhas forças acabaram, comecei a subir ainda mais. Ao chegar bem lá no alto, fui recebido por uma codorna pescadora:

- “Menino, você sabia que no Mar Tirreno, há muitos anos atrás, havia pescaria de codornas?”

“Eu não sabia onde era o mar Tirreno muito menos que havia cordornas vivendo na nossa região:”

- “Isso não tem importância: apenas confie que no Mar Tirreno, os pescadores pescavam mais codornas do peixes, geralmente no mês de outubro, isso por volta do ano 1500”.

- “E o que eu tenho que ver com isso, senhora Cordona?”

- “Nada, eu só lhe pesquei para dizer que você não é nada original. Tenha um bom dia”.

Desde então, João se aposentou das pescarias aeroespaciais. Dizem, até, que ele vai entrar para a universidade.

Além do mais

“Por que é que as codornas seguem um guia de outra espécie que não a delas, chamado pelos gregos de ortugometra? Resposta: É um fato provado por longa experiência, que as codornas vão e vem em grandes bandos, e tentam passar os rios e o mar sob a guia do Ortugometra (…), contanto que não sejam forçadas a se afogarem, estando cansadas de um trecho excessivamente longo de seu voo; disso deriva que os pescadores tiram maior proveito, em vários lugares, da pesca das codornas que dos peixes, principalmente à margem do mar da Sicília e do mar Tirreno”. (Jean Bodin, Universae naturae theatrum, 1596)

 

* Este texto foi publicado, reduzido, no caderno Cultura, coluna Penso, do jornal Diário Catarinense, em 13 de abril de 2013. Esta é a versão integral da história, com o título original OVOADOR, A DOR OVO, A DOR VOA.

Isto (não) é um filme?* (18/03/13)

Penso que discordo de Fabio Brüggemann. Em texto publicado sábado último, nesta mesma coluna*, inflamado, como de costume, meu nobre colega se dedicou a espinafrar “Argo”, vencedor do Oscar de melhor filme: “Como cinematografia, não vale um dólar furado”. O arremate me fez lembrar a declaração do Ministro da Cultura e de Orientação Islâmica do Irã, Mohammad Hosseini: “Este filme antiiraniano carece de quaisquer aspectos artísticos”. Bem, queria ter esse dólar furado no bolso e esse não-filme de arte no meu currículo. Isso porque, de alguma forma, ele conseguiu agitar o marasmo da política internacional.

Dirigido e protagonizado por Ben Affleck, “Argo” narra a operação da CIA e do Estado do Canadá para exfiltrar, desde o território iraniano, seis funcionários fugitivos da embaixada dos Estados Unidos em Teerã, tomada de assalto por uma revolta estudantil decorrente da Revolução Islâmica em 1979. Cerca de 50 funcionários estadounidenses foram mantidos reféns durante 444 dias, num dos impasses diplomáticos mais graves do século XX, que se arrastou até o término do mandato do presidente Jimmy Carter (1977-1981).

Concordo plenamente, em termos estéticos, no que diz respeito a pouca inventividade do filme. É mais do mesmo. Os elementos básicos e já tradicionais do modo de se fazer cinema em Hollywood: os heróis e os vilões, a história de amor, os cidadãos dos Estados Unidos em risco (o que me fez lembrar os antigos filmes de Chuck Norris), a montagem paralela e, por fim, o clímax seguido do happy end. Nada de novo no front, portanto (ainda que eu tenha uma ressalva: se no Brasil fosse, o saber acumulado em torno do fazer roteiros cinematográficos em Hollywood seria tombado como patrimônio imaterial, algo que se deveria valorizar…).

Muita calma nessa hora, porém. Como historiador preciso lembrar que filmes, não necessariamente, tornam-se importantes por questões artísticas. Reduzir o cinema aos “aspectos artísticos” ou àquilo que se entende por “cinematografia” significa reduzir o alcance simbólico desses produtos culturais. Os filmes de Leni Riefenstahl deixam de ser fulgores cinematográficos por que propagandeavam o regime nazista? Ou, para ficarmos no cinema hollywoodiano, as películas de Clint Eastwood são furadas por deixarem transparecer o lado republicano e conservador do diretor?

Para sustentar seu ponto de vista sobre “Argo”, Brüggemann citou José Geraldo Couto, crítico de cinema (e também excelente tradutor, jornalista esportivo e jogador de futebol, nas horas vagas) que assinalou “a total falta de interesse dos realizadores em conhecer o ‘outro’, em tentar, ao menos por um instante, se aproximar do seu ponto de vista, buscar compreender suas motivações. O que há é um ‘nós’ e um ‘eles’, como nos velhos filmes de índios, ou de alienígenas”.

A primeira sequência de “Argo” é uma espécie de prefácio que retoma os eventos históricos que deram origem à crise contemporânea entre Estados Unidos e Irã, evidenciando a participação da Grã-Bretanha e dos ianques no golpe de estado que levou ao poder o xá Reza Pahlevi, em 1953. O regime opressivo e pró-ocidente exercido por ele foi a principal causa da revolta que declararia, em 1979, oficialmente, o Irã como uma república islâmica cuja autoridade suprema estaria destinada a um chefe religioso, o aiatolá Khomeini (que apoiou a invasão à embaixada). Em outros momentos do filme, líderes femininas declaram publicamente que os reféns só seriam libertados quando os Estados Unidos revogassem o asilo político concedido em seu território ao xá Reza Pahlevi, que fugiu do Irã para não ser julgado por seus crimes.

Embora os minutos (ou talvez segundos) dedicados ao “outro” iraniano sejam mínimos, eles existem e são marcantes ao longo do filme. Continuamos não sabendo quem é aquela gente e suas histórias. O estrangeiro ainda é o bárbaro, contudo há um reconhecimento da parte de culpa que lhes cabe – o que talvez não passe de uma forma barata de expiação cristã – mas que em termos simbólicos não mais legitima o governo e os cidadãos dos Estados Unidos na condição de vítimas do terrorismo. Um dos primeiros planos de “Argo”, por sinal, mostra a bandeira do país sendo queimada pelos revoltosos em Teerã, anúncio emblemático da crise que a nação vivia e, sobretudo, vive. Vale lembrar que há menos de um ano, o diplomata Christopher Stevens foi morto na Líbia durante a invasão do consulado motivada pela divulgação do trailer de um filme que ridicularizava Maomé e acabou incendiando o mundo islâmico. Seu corpo foi arrastado como despojo de guerra pelas ruas de Benghazi.

“Argo” é tacanho ao fazer reaparecer, ao final, a bandeira tremulante, intacta, no quintal da casa do herói da CIA que retorna após a missão e é recebido calorosamente pela esposa e filho, reconstituindo o aspecto de normalidade tranquila à vida que se encontrava outrora em risco. A derrocada do império está em marcha e “Argo” a coloca em discussão, a partir de um episódio pretérito, que continua a repercutir na atribulada relação que os Estados Unidos mantêm com o Oriente Médio.

E se o Ministro da Cultura e Orientação Islâmica aproveitou a onda para se juntar à crítica politicamente correta a “Argo”, não custa lembrar que o Irã baniu um dos diretores mais aclamados pelo cinema de arte, vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza em 2003, Jafar Panahi. Autor de pérolas como “O Balão Branco” (1995), “O Espelho” (1997) e “O Círculo” (2000), ele foi acusado e condenado por “conluio com a intenção de cometer crimes contra a segurança nacional e propaganda contra a República Islâmica”. A pena outorgada em 2010 foi de 6 anos de prisão e de 20 anos de proibição em fazer filmes.

Não é o caso, aqui, de defender os Estados Unidos ou o Irã, mas sim de lembrar que os Estados Nacionais não deixam de ser instâncias de legitimação da violência e da exploração do homem sobre o homem, cada qual com seu fundamentalismo ideológico que lhes é próprio. Se o Irã assume o fundamentalismo religioso islâmico, o EUA é o grande representante do fundamentalismo de consumo onde Hollywood é sua principal agência de propaganda.

Além do mais

O Eu é um Outro?

Cada vez mais, começo a nutrir certa restrição à ética antropológica que vem sendo aplicada à sociedade como um todo. O discurso de que é preciso compreender o outro está se alastrando por todos os domínios da cultura ocidental, criando uma espécie de valor universal. Evidente desconfiar dos consensos, até porque eles se tornam verdades que passam a normatizar a criação artística e cultural: livros, filmes, peças, bienais, enfim, uma infinidade de trabalhos passa a ser baseado nesse preceito. A verdade, contudo, é que nem sempre somos capazes de entender o outro e a tolerância constante pode gerar recalques nada saudáveis.

Isto não é um filme

Em 2011, proibido de filmar, Jafar Panahi não conseguia parar de pensar em um roteiro. Ele chamou um colega, Mojtaba Mirtahmasb, ao seu apartamento e ambos começaram a registrar o cotidiano do diretor que, na ocasião, aguardava a decisão do tribunal de apelação iraniano. Realizado com 3.200 euros, a partir de imagens captadas em câmera de vídeo e do IPhone do próprio Panahi, o documentário foi finalizado e enviado para o Festival de Cannes onde seria premiado em 2011. Detalhe: o filme chegou à França em um drive USB dentro de um bolo. As cenas em que Panahi conta a história que gostaria de filmar e desenha as locações sobre o tapete de sua sala são antológicas.

Por falar nos franceses…

O correspondente da Folha de São Paulo no Irã, Samy Adghirni, recebeu uma lição de política internacional que nunca mais irá esquecer. Ingenuamente, questionou Hamid Dabashi, professor de estudos iranianos e literatura comparada da Universidade de Columbia, em Nova Iorque: “Diante das pressões de algumas comunidades islâmicas na Europa para influenciar as leis locais, não seria compreensível os europeus enxergarem os imigrantes como ameaça a sua cultura e identidade?”. Resposta: “Os muçulmanos não foram à Europa atrás de clima agradável e generosa hospitalidade, mas em busca de trabalho. Os franceses não têm nenhum direito de falar em cultura e identidade. Eles deveriam ter pensado nisso quando saíram de seu país para colonizar a África e a Ásia. Os franceses cruzaram suas fronteiras nacionais muito antes dos africanos. O que os franceses estão fazendo no Mali neste exato momento? Quando enviam caças para bombardear a África, eles não estão preocupados com identidade nacional nem fronteiras. Mas, quando africanos vão até a Europa, acabam martelados com o discurso sobre fronteira nacional e identidade. Portanto, muçulmanos e africanos têm o pleno direito de estar na França. E, se isso gera confusões de identidade para franceses racistas, eles podem pedir ao seu governo que ensine direito a sua história imperial.

* Texto publicado na Coluna Penso do caderno Cultura no jornal Diário Catarinense em 16 de março de 2013.

Jandira Lorenz: um albatroz no cotidiano* (16/02/13)

A crítica de arte praticamente desapareceu dos jornais brasileiros. As páginas agora dedicadas à cultura estão abarrotadas de press-releases (“comunicados de imprensa” divulgados por assessorias pagas para divulgar produtos culturais). Raros são os espaços midiáticos onde se pode ler e discutir de maneira aprofundada sobre trabalhos artísticos.

Por esse motivo tenho dedicado alguns artigos desta coluna Penso para debater exposições, filmes, instituições culturais e outros assuntos. Tarefa um tanto inglória: é como escrever no escuro já que há pouquíssimo retorno de todas as partes. Mas talvez seja este o sinal de que se trilhe a vereda correta: onde existe silêncio e solidão, há também espaço para a reflexão (sobre si e o entorno).

Somos filhos de um tempo cujos valores são determinados pela capacidade do sujeito produzir e consumir. O excesso e a repetição são ingredientes indispensáveis dessa lógica. Um contraponto a isso é a obra da artista visual Jandira Lorenz: nela, encontra-se a possibilidade de uma existência serena em meio ao ambiente múltiplo e convulsivo em que vivemos.

Desde o seu canto, o mundo fulgura-lhe um rico repertório de formas, histórias e estados da alma que são traçados sobre grandes folhas de papel espesso. Residindo há décadas em Santo Antônio de Lisboa, em Florianópolis, é lá que ela se dedica a tecer, como uma fiandeira, uma obra precisa e generosa, comunicando-nos passagens em que a paz do espírito e a sanidade do corpo são a tônica. Para tanto, faz ecoar vozes de outras eras, estabelecendo pontes entre lugares distantes.

A cada desenho é como se erguesse uma catedral de esplêndida luminosidade. Não por acaso, Jandira também é vitralista. Em sua arquitetura interior, mostra-nos seres também iluminados (por dentro) a contemplar a natureza. A artista da luz, confessa, também adora o escuro: a sábia Jandira sabe muito bem que os opostos prescindem um do outro.

Assim como nós que olhamos seus desenhos, as personagens de Jandira se posicionam de modo reflexivo fazendo uso da quietude do observar e do pensar. Não por acaso, ela ama os animais, sobretudo cães e gatos. Assim como eles, a artista está sempre à espreita. Contemplar sua obra é um exercício de entrega a um universo singular cujas referências à mitologia e à própria experiência cotidiana possibilitam um mergulho intenso. Tornamo-nos outros ao senti-la, revestimo-nos de um tempo distante, transportamo-nos para um espaço ficcional mais forte do que o plano do real. Eu queria viver entre as linhas de Jandira, virar aquele ser mitológico que nos encara de frente.

Embora o seu fazer (ou seja, a técnica, o modo como aplica o traço sobre o papel e como estrutura os planos) responda por toda uma tradição da arte ocidental, definitivamente, há algo de oriental no procedimento da artista. Trata-se de um modo de ver o mundo, de uma busca pela experiência espiritual da contemplação e da sutileza. Por isso, antes de qualquer coisa, fica o convite para se viajar pelo universo onírico e pelas dimensões de sentido que nos são, generosamente, compartilhadas pela artista.

Há artistas que trabalham no silêncio, numa espécie de obscuridade em relação ao circuito artístico. A presença de Jandira Lorez na arte feita em Santa Catarina tem o efeito de uma ilha em meio ao oceano: é terra firme cercada de plenitude por todos os lados.

 

Além do mais

Jandira na Fundação Cultural Badesc

Até o dia 15 de março, uma oportunidade para conhecer ou rever a obra de Jandira Lorenz encontra-se na Fundação Cultural Badesc (Rua Visconde de Ouro Preto, 216, Centro, Florianópolis). A mostra é uma realização do SESC-SC e irá itinerar por mais de 20 municípios catarinenses nos próximos anos. No texto que escreveu especialmente para a exposição, o artista e crítico João Otávio Neves Filho (Janga), diz: “Com uma tranquila segurança [Jandira] comunica-nos conteúdos humanistas esclarecedores e críticos, harmonizando-nos com o processo em que vivemos. Assume corajosamente uma postura humanista num mundo cada vez mais niilista e brutal”.

Interartive

Por falar em arte, um dos espaços para se ver arte contemporânea hoje não tem paredes e existe apenas na nuvem virtual. É o Interartive (http://interartive.org/), website que mensalmente apresenta exposições em sua galeria virtual, além de publicar interessantes artigos. É realizado colaborativamente entre a Espanha, Grécia, Itália e o Brasil (por cá, é organizado por Lucila Vilela).

 

Dois

Duas frases a me perseguir nestes dias de verão (ou talvez seja eu quem as procure): “Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu” (Helio Pellegrino). A outra: “Normalidade é um excesso de adaptação ao mundo, um sintoma de quando a tolerância ao sofrimento se mostra elevada.” (C. I. Dunker).

* Texto publicado na coluna Penso do caderno Cultura do jornal Diário Catarinense em 16 de fevereiro de 2013.

 

O Esteves da Tabacaria* (20/01/13)

Há um poema que me acompanha há anos, sempre em algum canto, na maior parte das vezes, inconsciente do meu pensamento. Certamente, ele não caminha apenas ao meu lado. Assim como eu, muitos fazem de “Tabacaria”, de Fernando Pessoa (1888-1935), uma espécie de “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944): um texto para ser lido no gerúndio, com leitura e releituras ao longo do tempo. Afinal, a cada fase da vida, ele parece nos dizer algo de fundamental.

É claro que, ao menos no meu fraco entendimento, Fernando Pessoa coloca o escritor e aviador francês no bolso. Talvez por viver nas alturas, Saint-Exupéry não tinha a verve do poeta português e de seus colegas imaginários Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Bernardo Soares, Ricardo Reis. Não por acaso, escolheu um planeta fora de órbita para a morada do Pequeno Príncipe, mais precisamente, o asteroide B 612. Nele, bastava que o principezinho podasse os baobás e limpasse o vulcão (isso até que nasceu uma rosa e ele descobriu o amor, mas isso é assunto para um outro departamento…).

Fernando Pessoa era habitado pelo desejo obsessivo de compreender por que a morte tem a mania de “por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens”. Inquietava-o a ideia do Destino (com “d” maiúsculo) que se encarrega de “conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada”. E para buscar respostas sobre o insondável, que nenhum deus nos concede ao nascer, foi-lhe preciso apanhar a lava do vulcão com as próprias mãos: “Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente / O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo”. Pessoa foi aquele quem decidiu podar e enterrar toda e qualquer metafísica (ao invés de baobás): “Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. / Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria”.

O que há de fenomenal em Fernando Pessoa é a intensidade de seus pensamentos assim como a incrível capacidade e clareza para comunicar as suas impressões por meio dos poemas. Quase sempre, ele chega à conclusão de que não é preciso se preocupar tanto com as coisas – embora não consiga parar de pensar e escrever sobre isso, o que configura a contradição da escrita.

Mas hoje, nesse momento em especial, gostaria de refletir sobre um trecho específico de “Tabacaria”. Na verdade, ater-me-ei aos últimos versos: é quando aparece o Esteves, que chega à tabacaria (“para comprar tabaco?”) situada em frente à janela donde o poeta se encontra. É nesse instante que Pessoa acende um cigarro que antecede uma espécie de epifania às avessas que se apresentará ao término do poema: “E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. / Sigo o fumo como uma rota própria, / E gozo, num momento sensitivo e competente, / A libertação de todas as especulações”.

O poeta desce do alto de suas fantasias ontológicas após a simples e casual chegada de um conhecido que lhe saúda do outro lado da rua. O universo se reordena perante o banal, conforme suas palavras “reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança”. Até ali, ao longo do extenso poema, Álvaro de Campos (heterônimo de Pessoa que assina a composição) parecia estar num verdadeiro transe em busca do sentido e do não-sentido do existir: acessa profundidades abissais e as contradições do ser; constata o horror e o encanto de se estar vivo. Porém, a cada instante duvida de si e da realidade em seu entorno, atingindo um grau de angústia em relação a tudo aquilo que o cerca e que traz dentro de si.

Quando era mais jovem, deleitava-me com os trechos mais dramáticos: “Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? / Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! / E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!”. Prefiro, agora, cada vez mais, a brevidade de um adeus de até logo do Esteves, o sorriso gratuito do dono da Tabacaria. Gosto mais das pessoas de carne e osso que Fernando Pessoa viu e descreveu do que do próprio poeta.

Cansei de seguir a estratégia também adotada por Enrique Vila-Matas que, até então sempre havia funcionado bem: “esse sistema de viajar pela angústia de outros para reduzir a intensidade da minha”. Ou ainda, utilizando-me novamente das palavras de Pessoa, estou fatigado de buscar “o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres”. Quem dera ser um ruminante! E perambular distraído pelo pasto, afinal “nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras”.

 

Além do mais

Indicação de leitura

Enrique Vila-Matas é autor de um livro essencial sobre a arte do não. Em “Bartleby e companhia” (Cosac Naify), o narrador relata a vida e a obra de escritores que, em determinado momento, abandonaram a literatura e se negaram a continuar escrevendo. Conscientemente, Vila-Matas deixou de fora (salvo merecidas exceções) o caso de escritores que optaram pelo suicídio para interromper suas vidas e obras: “Penso em minha dor já superada e digo a mim mesmo que se vive uma sensação muito prazerosa quando o mal desaparece, pois então se assiste de novo a uma representação do dia em que, pela primeira vez, nós nos sentimos vivos, estivemos conscientes de que éramos um ser humano, nascido para a morte, mas vivo naquele instante”.

 

“Total Cinema” em galeria de arte

Dica de uma exposição que abrirá na semana que vem: “Total Cinema”, de Giba Duarte. O artista tem sido uma das ótimas novidades no circuito da arte contemporânea, com um trabalho fotográfico que recebe interferências da pintura e de outras imagens. É um dos herdeiros do caminho trilhado por artistas como Carlos Asp. Dia 17 de janeiro, às 19h, na Cor Galeria de Arte, localizada na SC-401 (número 7135), no caminho das praias do norte de Florianópolis. Na abertura, o som estará por conta de Ledgroove. Visitações até 2 de fevereiro. corgaleriadearte.blogspot.com

* Texto publicado na coluna Penso do caderno Cultura do jornal Diário Catarinense em 19 de janeiro de 2013.

Como se exerce o poder?* (16/12/12)

Um filme, atualmente em cartaz, retoma a tradição do cinema político. “O Exercício do Poder”, escrito e dirigido pelo francês Pierre Schöller, exige que você inicie a sessão atento. Logo de partida, a melhor cena do filme. Uma mulher atravessa gabinetes governamentais, nua. Senta-se no chão, abre as pernas e… eis que surge um crocodilo, imenso. Ela engatinha em direção ao animal e… se deixa engolir.

Essa sequência funciona como epígrafe poética e metáfora para aquilo que se passará doravante: o ministro dos transportes da França (interpretado pelo ator de nome gastronômico, Olivier Gourmet) será deglutido pelo mundo da política institucional.

Nem mesmo graves acidentes de trânsito – a força pedagógica do acaso, por assim dizer – são capazes de mudar a postura e a visão de mundo do protagonista. Suas certezas, uma a uma, são postas por terra em nome da manutenção no poder. Talvez por isso o Estado seja o não-sentido: é preciso esvaziar-se por inteiro para se trabalhar, nos altos escalões, em seu nome.

Nestes termos, a figura do motorista substituto do ministro funciona como o contraponto ético a esse mundo encharcado de álcool, mentiras e fumaça. Ele é silencioso, falta-lhe ambição, mora num trailer e é casado com uma estrangeira. E é justo ele quem paga o preço mais alto pelas idas e vindas do poder que gira em seu entorno.

Um filme cuja maior parte dos diálogos se passa ao telefone celular. Porque é assim que se faz a política: junto ao ouvido (já que estamos todos de olhos bem fechados diante do abuso que os Estados cometem sobre os indivíduos todos os dias, a começar pelos impostos).

Em alguns momentos, o modo de posicionar a câmera junto às personagens lembra o procedimento do Cinema Direto (movimento da virada da década de 1950 para 1960): agilidade, proximidade e objetividade em relação àquilo que se filma. É interessante conferir como um procedimento do documentário se torna parte da estrutura narrativa de uma ficção, confundindo ainda mais os chamados “gêneros cinematográficos”.

Uma oportunidade de se refletir politicamente através de um filme. Excetuando-se Jean-Luc Godard e poucos outros (inclua-se aqui os irmãos Dardenne, produtores da película), os cineastas abandonaram as trincheiras do pensamento e da ação política. O amor, afinal, é a apoteose das narrativas contemporâneas. Após o filme, uma conclusão inevitável: o Estado não passa de uma sórdida conjugação de interesses de particulares que se utilizam da máquina pública para legitimá-los. A crise da Europa está aí para nos mostrar isso.

 

Além do mais

Joan Brossa em português

Uma resposta à ilegitimidade do Estado foi dada pela poesia do catalão Joan Brossa (1919-1998). Em tempos do franquismo, cada poema deveria ser como um tiro. Um trabalho meticuloso de tradução para o português está sendo levado a cabo, há anos por Ronald Polito.

 

Notas sobre o debate

No último sábado, Ronald Polito esteve em Florianópolis participando de um debate ocorrido durante o lançamento do livro “Escutem esse silêncio” (Lumme Editor, 2012, R$ 30,00), com cerca de 50 poemas inéditos de Brossa em português, cujo prefácio é assinado por Victor da Rosa. Uma das melhores frases de Polito foi: “A poesia não tem nada a ver com a literatura. É música, é pintura, é cinema, menos literatura”. E o acaso se rendeu ao evento: não é que dois clowns catalães que conheceram Joan Brossa – e que estavam passeando por Florianópolis – acabaram participando do debate contando as suas experiências com o poeta? Foi incrível.

 

O que são os ervais?

Para o sul do País, entender a lógica fundiária injusta existente nos campos de produção da erva-mate, seria um ótimo começo. “O que são os ervais?” é o título de um conjunto de textos breves sobre os ervais no Paraguai, numa crônica anarquista “contra a escravidão, tortura e morte do peão ervateiro” (fragmento do prefácio “Sobre fronteiras e ervais: cem anos sem Barrett”, de Alai Garcia Diniz). O livro foi lançado pela ótima editora Cultura e Barbárie (www.culturaebarbarie.org).

* Texto publicado na coluna Penso do caderno Cultura do jornal Diário Catarinense em dezembro de 2012.