Arquivo de janeiro 2012

Férias: porque eu prefiro os dias inúteis* (24/01/12)

Por um lado, o sujeito enfrenta um ano inteiro cujos dias dedicados ao trabalho são chamados de “úteis” – o que me faz pensar que, por esta lógica, os finais de semana e feriados seriam inúteis. Para se adequar ao ritmo do mundo do trabalho, que quase nunca coincide com o seu próprio, o mesmo sujeito trata de estabelecer alguns hábitos. Por exemplo, o modo como se desloca ao trabalho ou como pronuncia “bom-dia”; o horário que costuma acordar, almoçar e assim por diante.

As férias, por outro lado, desregulam os comportamentos estabelecidos que se tornaram, por força da repetição, rotina (muitas vezes compreendida como enfado, cansaço, recorrência). Assim – e somente assim – torna-se possível acordar mais tarde sem culpa, ir à praia em pleno dia de semana, restar-se absolutamente inerte sobre um sofá ou então, no caso do Carnaval, sair às ruas com máscaras e pouca roupa sem correr o risco de parecer louco ou indecente. Para muitos, as férias parecem devolver o sabor adocicado de viver. E mesmo para aqueles que não têm direito às férias, o Carnaval é outro momento para essa apoteose do ser.

Penso que há um mecanismo pendular em funcionamento. As pessoas costumam encarar o calendário com uma lógica cristã. Isso porque o imperativo moral, primeiro, ordena muito trabalhar – ação que leva ao sofrimento já que todo excesso pode ocasionar a dor. Somente depois é que o sujeito pode alcançar o justo direito de gozar da existência. Por sinal, para o cristianismo essa redenção final, quase orgástica, ocorrerá tão-somente quando o paraíso for instituído após o Julgamento Final.

Férias, como se diz com a graça do idioma: “Ficar de pernas para o ar”, “sombra e água fresca”. Ou, como diria a destrambelhada Emília, em todos os meses de abril (quando eram proclamadas as férias gerais, inclusive para a negra Tia Anastácia, no Sítio do Pica-Pau Amarelo): a ordem é lagartear! A boneca de pano de Monteiro Lobato exercitava um verbo esquisito (lagartear) ao invés do substantivo (lagarto) porque queria tornar humano um procedimento animal: descansar de modo retumbante, sem maiores preocupações, simplesmente deixar-se estar. Para se curtir as férias é preciso se des-programar, tornar-se um pouco animal e um pouco Emília.

O senso comum diria: “sair da rotina”. Fazer uma viagem tem sido a solução mais recorrente da modernidade. Há aqueles que vivem para viajar (uma condição utópica de nossos dias: viajar sempre e não precisar trabalhar). Abandonar o conforto do lar para se aventurar em outras paragens. É pena que viajar se tornou sinônimo de turismo nos dias de hoje. O turismo, de modo geral, é uma prática e um pensamento inócuo, uma indústria voltada para o deslocamento de imensos contingentes populacionais de um lado para o outro do globo terrestre, sem fazer com que esses trajetos possibilitem quaisquer efeitos intelectuais ou espirituais – salvo exceções.

Uma viagem bem poderia ser o momento para se vivenciar as diferenças de um outro que habita uma realidade distinta daquela do viajante. Contudo, cada vez mais, em termos turísticos, viajar é sinônimo do mesmo: se for à França é preciso ir ao Museu do Louvre (sendo que muitas vezes o indivíduo jamais pisou em um museu na sua própria cidade de origem), se você estiver em Buenos Aires deverá conhecer a Recoleta. O sujeito já sai de casa com um caminhão de compromissos e não deixa o acaso de um percurso tomar conta daquele momento. Sem falar naqueles que dizem conhecer um país após terem passado um ou dois dias lá: tinham “pouco tempo” porque era necessário conhecer outros países. Retornam com centenas de fotos enfadonhas e um repertório limitado de histórias. 

O cineasta alemão Wim Wenders realizou recentemente no Brasil a exposição “Lugares, estranhos e quietos”. Gigantescas fotografias ocupavam um andar do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Cada uma delas havia sido tirada em um local diferente do planeta. No texto de abertura, ele narrou que quando chegava em qualquer cidade (Wenders é um viajante assíduo por conta de seu trabalho como cineasta) e alguém lhe informava que bastava virar à direita para encontrar um famoso ponto turístico, ele tomava o caminho oposto. Seu olhar estava interessado pelas coisas menos grandiloquentes de uma cidade. Seus cliques destacam coisas mínimas e quase invisíveis; o banal instalado em uma imensa superfície coberta pela imagem fotográfica. 

Além do mais 

As Férias do Sr. Hulot, de Jacques Tati

Uma sugestão: se houve um homem do cinema, esse foi Jacques Tati. Seus filmes eram poesias em movimento, marcados pela compreensão precisa da relação entre as imagens e os sons. O riso surge pela sutileza e a atuação do próprio Tati encarnando o ingênuo personagem do Sr. Hulot é um dos pontos altos de todas as suas obras. Talvez, o autor mais brilhante da cinematografia (evidentemente, isso fica por conta da minha modesta opinião). Para quem não o conhece, fica aqui a dica. Aqueles que já o conhecem, um convite para revê-lo. Por sinal, existe um site interessantíssimo dedicado ao cineasta, chamado a “Cidade de Tati”: http://www.tativille.com 

Guia de viagem

Se eu fosse um guia de viagens em Florianópolis, recomendaria o seguinte percurso: 1º) Estreito: apanhe uma fila na ponte. Descontraia. Ligue o som. Afinal, o que é uma hora de sua vida? Dirija-se ao bairro do Estreito, mais precisamente ao Balneário. É ali que moram os velhinhos – ou seja, grande parte da sabedoria desta cidade; 2º) Feiras: visite uma feira de bairro. As pessoas contam histórias ótimas, compram frutas frescas e biscoitos caseiros deliciosos (a maior iguaria brasileira, na minha opinião, não é a feijoada, mas sim os biscoitos de feira); 3º) Não fique apenas nessa Ilha vaidosa, há outros locais tão interessantes quanto Florianópolis. Vale a pena conhecer Jaguaruna, Laguna, Imbituba, Palhoça, entre outros locais próximos.

Ócio criativo

Recentemente, o Governo do Estado de Santa Catarina trouxe o filósofo Domenico de Masi para proferir palestras e consultorias sobre o dito “ócio criativo” aos tupiniquins. A idéia era embasar o turismo catarinense. Bastava conversar com um índio de qualquer etnia que ele teria muito mais a dizer sobre o assunto. Porém, como falar em italiano é mais chique do que qualquer idioma indígena, até que faz algum sentido. O resultado é a forma de turismo que hoje se pratica pelas bandas de cá – algo entre o abjeto e o estúpido – e jantares regados com champanhe entre o então governador Luiz Henrique da Silveira e o ilustre pensador. Talvez não por acaso, a bebida predileta nas areias de Jurerê Internacional seja o champanhe/espumante. É a bebida que supõe a exceção, que traz consigo a idéia de ser ingerida apenas em momentos muito especiais, que produz a fantasia de que se é diferente em meio à maioria.    

* Texto originalmente publicado na coluna “Penso” do caderno “Cultura” do  jornal Diário Catarinense, no dia 21 de janeiro de 2012.