Arquivo de junho 2010
TUDO QUE É VIVO INCOMODA (10/06/10)
O texto abaixo é parte da exposição “TUDO QUE É VIVO INCOMODA”, com minha curadoria, que se encontra na galeria do SESC-Joinville, de 10 de junho a 17 de julho de 2010. Ao longo de uma estada de três dias no início do mês de maio de 2010 na cidade de Joinville, a convite do SESC-SC, tive a oportunidade de conhecer aproximadamente 20 artistas.
Joinville, cidade plana. Um breve morro faz surgir o tridimensional. É possível entender, todavia, o mesmo morro em outros termos. Na simples dissonância entre o substantivo e o verbo, depara-se com a finitude. Assim, torna-se possível dizer morro de morrer. Afinal, em qualquer vila ou vida está instalado o germe de seu ocaso.
Sérgio Adriano é o ponto de partida e de chegada desse circuito: mostra-nos, de uma parte, sua mãe desfalecida e, de outra parte, o prenúncio “TUDO QUE É VIVO INCOMODA”, que aporta o trágico e o cômico no mesmo gesto. Essa sentença foi tomada de empréstimo para o título e seu sentido é o leitmotiv desta exposição.
Em seguida, Fábio Salun apresenta um caudaloso rio e acaba por instalar um diálogo com a palavra que se tornará verbo com Jefferson Kielwagen. É preciso rir afinal Joinville tem rio que se chama Cachoeira (uma piada pronta e em movimento) e artista que faz de um brownie um princípio construtivo. Arte pode ser coisa pouca e leve, muito menos do que um algodão-doce. Eduardo Baumann e Melanie Peter nos lembram disso ao passo que Juliano Jahn faz o espaço expositivo mofar a olhos vistos. Há ainda: Priscila dos Anjos com seu corpo todo e o que sobrou dele em disputa – os cabelos em trança. Rogério Negrão com seu polvo disfarçado de aparelho de parque de diversões a tecer improváveis relações com a eternidade celeste. Por fim, há risco aqui, acolá: Ricardo Kolb.
Multidão de nevoeiro. Que insiste. Neblina que se opõe ao traço. Porque ela é difusora. Torna diferença coisa única. Densa. Mas inevitável. Como a morte. Apesar disso, fiquem tranquilos, afinal, como dizia Marcel Duchamp, “são sempre os outros que morrem”.
Epítáfio para o término desta exposição:
“Nós tentamos reproduzir a realidade, mas por mais que nos empenhemos, mais se impõem a nós as imagens batidas que compõem o espetáculo da história: o tamborileiro caído, o soldado de infantaria que acaba de apunhalar outro, o olho de um cavalo que salta da órbita, o imperador invulnerável cercado pelos seus generais, em meio ao turbilhão da batalha que se congela num átimo.” (W. G. Sebald, Austerlitz, p. 74-75)
Egídio Rocci (9/06/10)
Um novo trabalho de Egídio Rocci. Com movimento – que sempre esteve presente em seu percurso (como na sombra de avião a circular dentro de um armário, um trenzinho a dar voltas por dentro de três outros móveis, entre outros). São três linhas sutis: horizontais e paralelas entre si, sendo que a linha do meio é acionada por um pequeno motor que produz um discreto movimento circular. Percebemos aí que esta linha não era traço bidimensional, mas sim um pequeno fio, disfarçado de desenho. O mimetismo é desconstruído no exato instante em que se faz o movimento – ao contrário do cinema, quando a película em movimento, ao ser atravessada pela luz, produz o efeito ilusionista.
Nos trabalhos de Rocci há sempre um disparate: seus móveis improváveis produzem inquietação. Ao observarmos, por exemplo, ao arquivo azul embutido em um armário, parece haver qualquer coisa de assombroso naquilo. e no silêncio da entrega deste móvel mutante diante de nossos olhos. Quem fez isso? Qual operação tresloucada produziu esse objeto?
Nota: vale uma visita à edição 21 da galeria Interative que traz fotografias dos trabalhos de Egídio Rocci e ótimo texto de Lucila Vilela: http://interartive.org/
o que falta (9/06/10)
triste. bem triste.
não porque vida machuque
ou morte cá perto esteja.
é tão-só porque falta.
sem cheiro sem desespero
não da ordem do impossível
mas como braço dormente: mexe e não sente
triste.
bem triste.
não porque vida machuque
ou morte cá perto esteja.
é tão-só porque falta.
sem cheiro sem desespero
não da ordem do impossível
mas como braço dormente: mexe e não sente