Arquivo de maio 2010
O grande detonador noturno (29/05/10)
Esqueci-me de que um dia fui artista – e criança. Meu irmão fez a gentileza de me lembrar, enviando-me diretamente da seção de “Achados e Perdidos” de sua casa o desenho abaixo. Essa é do tempo do iôiô. Detalhe: na época, meu irmão não era tão generoso assim. O projeto de gente assinara a obra por mim, grafando meu nome no feminino (canto esquerdo inferior). O amor entre irmãos é sempre uma perversidade assistida, não?
Eixos 12, rodas 24 (11/05/10)
Doze eixos. Tão-somente vinte e quatro rodas. Certamente, cinquenta e tantas toneladas. A romper o ladrilho daquela cidade. Preto ouro. A cena abrupta estendida pelo estrondo desenho, rua retorcida pela massa imensa de um cargueiro rodoviário, a decidir invadir território alheio. Violento. O patrimônio rasgado: entortado. Cidade tomada pelo inadvertido veículo. Impróprio. Jamais autorizado a estar ali. Naquele lugar, naquela noite. Corpo que invade o estabelecido. O milho para frangos histéricos: peso transportado, era tanto e tão pouco. A carga norte-sul. Noite adentro. Dia afora. O desejo de vencer o trópico, ver capivaras à beira dos rios. De água doce. Não obstante, a desforra de nunca chegar. E decidir adentrar ao espaço tombado. Foi assim, caminhão rasgou o centro histórico de Ouro Preto, fez cindir casarios seculares, derrubou paredes tombadas e decidiu por fim a toda aquela ficção. Já interrompida.
Occo, de Marcela Reichelt (7/05/10)
do corpo
ensaio solo de corpo. a direção corajosa de apostar nesse corpo, de afastá-lo do excesso. de conjugá-lo no singular, de grafá-lo em minúsculo. com isso, o cenário abolido, adereços reduzidos – quase a zero. de início, corpo sobre salto alto constragedor. sem dúvida alguma, o mal estar da civilização está todo ali, naquele sapato, na exposição do corpo sobre ele. do alto de nada.
do silêncio
música ocupa a brevidade. o silêncio invade o espaço. toma conta de tudo: do público (que sequer ousa reacomodar-se nas cadeiras), das coxias (espaço do silêncio por excelência e que assim permanece, onde tudo é cego e santo), dos refletores e das caixas de som (que, não obstante, revoltam-se contra o silêncio e emitem ruídos constantes da tensão elétrica, como a dizer estamos aqui para tornar esse corpo visível).
queda cadente
um corpo a atravessar o tempo. arrastar-se no espaço. uma poética do micro em que cada gesto assume a densidade de uma queda. assim, a porção final torna o chão o local onde tudo ocorre, sendo que o difícil é prosseguir. a vida ao rés-do-chão. a sutileza de perceber a queda não como histeria coletiva (tal qual nas espetacularizações do Cena 11) mas como um trânsito da (de)cadência . não assistimos a um espetáculo, mas sim o seu avesso. o corpo ali. todo ele.
pinturas – roberta tassinari* (7/05/10)
“Todo corpo continua em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em uma linha reta, a menos que seja forçado a mudar aquele estado por forças aplicadas sobre ele.” (Primeira Lei de Newton)
roberta tassinari dá a ver um mundo decaído. uma pintura que se precipita. ainda assim, suave, translúcida. o gosto em ver essas cores é inegável. o desejo de tocá-las ainda maior.
uma pintura em movimento, quase cinema. porque há aqui o movimento implícito (do alto para baixo). e existe um resto, um excedente dessa operação da artista que se acumula diante de nossos pés.
nos filmes: há trechos que ficam de fora. em contrapartida, na pintura de roberta tassinari: a sobra é incorporada, faz-se obra por meio do excesso.
se pensarmos em todo o esforço da história da pintura, ao menos até o século XIX, em fazer caber as linhas e as cores no espaço delimitado de um quadro (sendo a pintura em tela a principal representante desse desejo e claude monet o sujeito que o frustrou ao fazer seus barcos atravessarem o limite das molduras e depositar esse resto de imagem no vazio). se tivermos em mente também o não menos laborioso desafio que o cinema se lançou ao decidir enquadrar as ações de modo a caberem na tela de projeção. assim, o trabalho de roberta tassinari será desconcertante. porque não diz respeito ao quadro, à tela branca de projeção. ele desliza no terreno do improvável.
e ainda: ao contrário de nossos pés, que servem para sustentar o peso de um corpo em constante luta contra a gravidade, estes trabalhos apostam na queda, na justaposição da força da gravidade com seu próprio gesto. afinal, ao posicionar-se no alto do painel para ali depositar e fazer cair a amoeba (trata-se da famosa geleca, brinquedo infantil, mas que se torna instrumento plástico no processo da artista), o que ela faz é dizer: “sim, estou aqui com meu corpo, aplicando essa massa de cor; no entanto, além do meu corpo há o acaso, que vai sobredeterminar o desenho que essa cor ganhará até alcançar o solo”.
e é nessa conjunção entre o acaso e o desejo da artista que surge esse belo trabalho. porque sim, a beleza está aqui, travestida de arte contemporânea.
—–
* Texto escrito a convite da artista para a exposição “Pinturas – Roberta Tassinari”, em Joinville/SC, na Galeria Municipal de Arte Victor Kursancew, de 7 de maio a 11 de junho de 2010.
Entre dois nadas*, Fabíola Scaranto (5/05/10)
1.
o sopro.
o gesto da criação, por excelência.
do efêmero.
scaranto reinveste o arcaico:
soprar uma película transparente esférica
seu corpo, presente em cena, é o princípio
- e também o fim
condutor de uma poética do frágil
2.
utsuroi: termo japonês utilizado por roland barthes para abordar o haikai.
“utsuroi: momento frágil que separa e junta dois estados de uma coisa e fica suspenso no vazio (em suma: é dizer pouco!) antes de reintegrar ‘outra’ → Para os japoneses, dizem, não é propriamente a flor de cerejeira que é bela: é o momento em que, perfeitamente desabrochada, ela vai murchar → Tudo isso diz o quanto o haicai é uma ação (de escrita) entre a vida e a morte.” (A preparação do romance, v. 1, p. 114)
3.
como flor de cerejeira
instante a conceder à matéria
esplendor do belo e do frágil
tempo do oco, do pouco
nada pesa
a não ser sobre si.
—-
* Para visualizar o vídeo “Entre Dois Nadas”, de Fabiola Scaranto, acesse a Current Virtual Gallery Interartive # 20
Nelson Rodrigues, o homem que não terminava frases com três pontinhos (2/05/10)
Nelson escrevia como quem toma cafezinho. Ainda assim, tinha úlceras: “O antiácido tem sido a minha mais recente fé”, escreveu em 1968. A infernal sinceridade impressa a cada asserção. Frases onde bastavam tão-somente uma palavra. Períodos interrompidos subitamente com um deslocado ponto final (quando o senso comum encerraria com reticências). O saber dizer sobre picolés Chicabons com a mesma importância com que se referia a Guimarães Rosa. O comicamente trágico.
Por essas e outras impressões de um iniciante que me ponho a ler de maneira sistemática sua obra teatral completa. Até então, devo ter assistido a meia dúzia de montagens de suas peças. Lembro-me sobretudo de “Vestido de Noiva”, d’Os Satyros, “Senhora dos Afogados”, de Antunes Filho e “As Noivas de Nelson”, da Cia. Paulista de Artes. O cinema e a televisão acrescentaram algum repertório (sobretudo os filmes de Arnaldo Jabor). Além disso, li esparsamente peças como “Bonitinhas, mas ordinária”, “Beijo no asfalto” e “A Serpente” assim como os textos que compõem “A vida como ela é”.
p.s.: Alguns dias após escrever as linhas acima sonhei com Nelson. Ele estava em minha frente, repartindo comigo uma mesa quadrada. Tinha uma pilha de livros nas mãos e tentava reuni-las com um cordão e um prendedor que, no entanto, rasgava o livro situado abaixo dele, cujo autor era Virgilio Várzea (colega de Cruz e Sousa, destacou-se na prosa). Disse-lhe: “Que cena ótima, o escritor que mais adoro furando o autor que eu mais admiro”. Nelson ficou feliz com minha fala e decidiu me presentear com um exemplar autografado de um livro dele. Não sei donde tirei a declarada adoração por Várzea. Será saudades de jogar futebol/várzea?
Por essas e outras impressões de um iniciante que me ponho a ler de maneira sistemática sua obra teatral completa. Até então, devo ter assistido a meia dúzia de montagens de suas peças. Lembro-me sobretudo de “Vestido de Noiva”, d’Os Satyros, “Senhora dos Afogados”, de Antunes Filho e “As Noivas de Nelson”, da Cia. Paulista de Artes. O cinema e a televisão acrescentaram algum repertório (sobretudo os filmes de Arnaldo Jabor). Além disso, li esparsamente peças como “Bonitinhas, mas ordinária”, “Beijo no asfalto” e “A Serpente” assim como os textos que compõem “A vida como ela é”.
A edição dedicada ao teatro completo de Nelson Rodrigues da editora Nova Aguilar, organizada por Sábato Magaldi, prezou pela distribuição dos textos em três grandes grupos não-cronológicos: “Peças psicológicas”, “Peças míticas” e “Tragédias cariocas”. A proposta é seguir tal sequência na primeira leitura. Após o término, encarar o prefácio e a fortuna crítica de Magaldi situados no início do livro. Ao término de cada peça, redigirei breves notas e as postarei aqui.
p.s.: Alguns dias após escrever as linhas acima sonhei com Nelson. Ele estava em minha frente, repartindo comigo uma mesa quadrada. Ele tinha uma pilha de livros nas mãos e tentava reuni-las com um cordão e um prendedor que, no entanto, rasgava o livro situado abaixo dele, cujo autor era Virgilio Várzea (colega de Cruz e Sousa, destacou-se na prosa). Disse-lhe: “Que cena ótima, o escritor que mais adoro furando o autor que eu mais admiro”. Nelson ficou feliz com minha fala e decidiu me presentear com um exemplar autografado de um livro dele. Não sei donde tirei a declarada adoração por Várzea. Será saudades de jogar futebol/várzea?
Indisposto (1/05/10)
O bilhete apócrifo dirigido a Lucien Chardon, o desavisado protagonista de “Ilusões Perdidas”, de Honoré Balzac. Redigido em forma de recusa. Expedido sem o contato com aquele que se nega. As senhoras Bargeton e a marquesa d’Espard não desejam mais compartilhar de sua presença. O perverso expediente: um papel deixado por outrem em casa de Lucien. O conteúdo pouco importa, as senhoras estão indispostas. É impressionante como era simples resolver as coisas no século XIX: “Ela está indisposta” era a senha para se desobrigar da vida pública. O desejo de se tornar nobre é vedado ao plebeu Lucien por meio de um simples pedaço de papel, com as poucas linhas de Bargeton:
“A senhora d’Espard está indisposta, não poderá recebê-los amanhã. Eu vou me levantar e fazer companhia a ela. Sinto muito por esse contratempo, mas o seu talento me tranquiliza”.
