Arquivo de fevereiro 2010
Nelson Rodrigues (1/02/10)
Nelson escrevia como quem toma cafezinho. Ainda assim, tinha úlceras: “O antiácido tem sido a minha mais recente fé”, escreveu em 1968. A infernal sinceridade impressa a cada asserção. Frases onde bastavam tão-somente uma palavra. Períodos interrompidos subitamente com um deslocado ponto final (quando o senso comum encerraria com reticências). O saber dizer sobre picolés Chicabons com a mesma importância com que se referia a Guimarães Rosa. O comicamente trágico.
Por essas e outras impressões de um iniciante que me ponho a ler de maneira sistemática sua obra teatral completa. Até então, devo ter assistido a meia dúzia de montagens de suas peças. Lembro-me sobretudo de “Vestido de Noiva”, d’Os Satyros, “Senhora dos Afogados”, de Antunes Filho e “As Noivas de Nelson”, da Cia. Paulista de Artes. O cinema e a televisão acrescentaram algum repertório (sobretudo os filmes de Arnaldo Jabor). Além disso, li esparsamente peças como “Bonitinhas, mas ordinária”, “Beijo no asfalto” e “A Serpente” assim como os textos que compõem “A vida como ela é”.
A edição dedicada ao teatro completo de Nelson Rodrigues da editora Nova Aguilar, organizada por Sábato Magaldi, prezou pela distribuição dos textos em três grandes grupos não-cronológicos: “Peças psicológicas”, “Peças míticas” e “Tragédias cariocas”. A proposta é seguir tal sequência na primeira leitura. Após o término, encarar o prefácio e a fortuna crítica de Magaldi situados no início do livro. Ao término de cada peça, redigirei breves notas e as postarei aqui.
p.s.: Alguns dias após escrever as linhas acima sonhei com Nelson. Ele estava em minha frente, repartindo comigo uma mesa quadrada. Ele tinha uma pilha de livros nas mãos e tentava reuni-las com um cordão e um prendedor que, no entanto, rasgava o livro situado abaixo dele, cujo autor era Virgilio Várzea (colega de Cruz e Sousa, destacou-se na prosa). Disse-lhe: “Que cena ótima, o escritor que mais adoro furando o autor que eu mais admiro”. Nelson ficou feliz com minha fala e decidiu me presentear com um exemplar autografado de um livro dele. Não sei donde tirei a declarada adoração por Várzea. Será saudades de jogar futebol/várzea?
Por essas e outras impressões de um iniciante que me ponho a ler de maneira sistemática sua obra teatral completa. Até então, devo ter assistido a meia dúzia de montagens de suas peças. Lembro-me sobretudo de “Vestido de Noiva”, d’Os Satyros, “Senhora dos Afogados”, de Antunes Filho e “As Noivas de Nelson”, da Cia. Paulista de Artes. O cinema e a televisão acrescentaram algum repertório (sobretudo os filmes de Arnaldo Jabor). Além disso, li esparsamente peças como “Bonitinhas, mas ordinária”, “Beijo no asfalto” e “A Serpente” assim como os textos que compõem “A vida como ela é”.
A edição dedicada ao teatro completo de Nelson Rodrigues da editora Nova Aguilar, organizada por Sábato Magaldi, prezou pela distribuição dos textos em três grandes grupos não-cronológicos: “Peças psicológicas”, “Peças míticas” e “Tragédias cariocas”. A proposta é seguir tal sequência na primeira leitura. Após o término, encarar o prefácio e a fortuna crítica de Magaldi situados no início do livro. Ao término de cada peça, redigirei breves notas e as postarei aqui.
p.s.: Alguns dias após escrever as linhas acima sonhei com Nelson. Ele estava em minha frente, repartindo comigo uma mesa quadrada. Ele tinha uma pilha de livros nas mãos e tentava reuni-las com um cordão e um prendedor que, no entanto, rasgava o livro situado abaixo dele, cujo autor era Virgilio Várzea (colega de Cruz e Sousa, destacou-se na prosa). Disse-lhe: “Que cena ótima, o escritor que mais adoro furando o autor que eu mais admiro”. Nelson ficou feliz com minha fala e decidiu me presentear com um exemplar autografado de um livro dele. Não sei donde tirei a declarada adoração por Várzea. Será saudades de jogar futebol/várzea?
A inversão de Oswald: Estrangeiros em todo o lugar (1/02/10)
Como realizar um Panorama da Arte Brasileira sem artistas brasileiros? Ainda que a exposição tenha ocorrido no segundo semestre do ano passado, vale a pena tecer alguns comentários. No embalo das duas últimas bienais de São Paulo, a polêmica estava colocada logo na porta de entrada – ou mesmo antes já que a imprensa cooperou para o alarde com a devida antecedência e frivolidade. A diferença é que ao contrário das exposições de Lisette Lagnado e de Ivo Mesquita, a curadoria de Adriano Pedrosa funcionou: inverteu-se a lógica antropofágica. Com a 31ª edição do Panorama da Arte Brasileira finalmente a cultura brasileira saiu do armário. Obviamente a reação moralista foi imediata: é possível acompanhar a avalanche chauvinista clicando aqui.
Pouco importa, o sentido inverso foi acionado: não mais aquele que aponta para a recepção da cultura estrangeira e sua posterior utilização pela sublimação antropofágico. A verdade é que Oswald de Andrade trabalhava sob a égide de um pressuposto que ocupava toda a sua hipótese: o intelectual e/ou artista brasileiro estaria na condição passiva de receptor – ao menos num primeiro momento. Adriano Pedrosa desassimilou essa rota e nos propõe diversas outras, num movimento que apresentou “a importância da cultura brasileira para um número significativo de artistas não brasileiros”, como anunciava o texto de abertura da mostra no Museu de Arte Moderna de São Paulo.
O genial disso tudo é que era possível atravessar toda a mostra alheio à polêmica estabelecida e, ainda assim, sair com a sensação de ter conhecido uma ótima exposição. O conjunto de trabalhos encabeçados por Jorge Macchi, Mateo López e Juan Perez Agirrregoika já seria o bastante. Macchi tomou como ponto de partida o papel jornal. Em “Ouro Preto”, a composição geometrizada conserva o texto e a veladura faz a tipografia ocupar espaço fundamental na composição. O mexicano José Dávila jogou com a forma quadrilátera, utilizando-se de uma pequena placa de vidro em diálogo com um recorte de vinil negro e retilíneo (a formar também outro quadrado, desta vez na bidimensionalidade da parede). Um trabalho simples e surpreendente. O colombiano Gabriel Sierra e o mexicano Damián Ortega estavam lado a lado, ambos a brincar com o pleno domínio do espaço, aquele em uma bandeja de frutas esquadrinhada com réguas, este por meio de uma composição tridimensional realizada com tortilhas.
Havia uma sala inteiramente ocupada pelo colombiano Mateo López onde estava disposto um projeto de exposição para o MuBe (Museu Brasileiro da Escultura). Há uma ironia implícita: foi preciso fazer um projeto de exposição no interior do MAM-SP para se pleitear uma mostra em um museu localizado no Jardim Europa cuja gestão tem sido pífia ao longo dos últimos anos. Afora o contexto institucional, era possível contemplar os trabalhos num misto de alegria com surpresas. As soluções plásticas são tão perfeitas quanto as idéias que o artista nos propunha. Um cubo tridimensional que como num passe de mágica tornava-se bidimensional diante de nossos olhos. Uma fita crepe que recorta e desenha a si própria. É sem dúvida um dos melhores momentos deste Panorama.
No interior da exposição parecia haver um diálogo institucional brasileiro acionado pelos artistas estrangeiros. Esse núcleo de trabalhos, espalhados ao longo do espaço expositivo, surgia logo na entrada, com a aquarela onde o espanhol Juan Perez Agirrregoika coloca fogo no MASP. Ao invés dos bombeiros para apagar o fogo, via-se o batalhão de choque da PM pronto para atacar. Mas talvez o MASP seja mesmo um caso de polícia, assim como a última administração da Fundação Bienal de São Paulo e mesmo o MAM-RJ que reduziu as brasas boa parte do seu acervo no incêndio em 1978.
Por fim, vale destacar ainda dois artistas: o estadounidense Sean Snyder, com suas impressionantes fotos de Brasília, apresentadas de maneira serializada. A imensidão dos espaços abertos em face a ausência do ser humano. O inglês Simon Evans traz para a exposição a lógica da coleção por meio de uma escrita minuciosa e obsessiva que se espalha sobre o plano. Sem dúvida alguma, o trabalho faz lembrar o aspecto minucioso da escrita plástico-poética de um Leonilson ou mesmo de um Arthur Bispo do Rosário.
p.s.: Texto redigido em dezembro de 2009 e publicado, com breves alterações, em fevereiro de 2010.