Arquivo de janeiro 2010

Denso. Lúcio Cardoso. (22/01/10)

Inicio do percurso pelo fim. O inacabado “O Viajante”, numa edição póstuma da José Olympio, de 1973.

O poder da escrita: Lucio Cardoso redigia como quem remove pedras. Ou as atira sobre o mundo constituído. Por sinal, a primeira cena do livro é um estouro, tem a força de uma tronco quebrado, um crânio dilacerado: a narrativa do assassinato de um filho paraplégico e retardado (Zeca) pela própria mãe (Donana Lara).

“(Lentamente haviam chegado: ali estavam, no alto do morro. Como um só corte, de lado a lado, a paisagem se abria, seca, inóspita, destituída de qualquer espécie de graça. O barranco, desde o alto, vinha descendo em corcovas bruscas, semeado de pedras, até o leito quase seco do riacho. Lá, com a cabeça metida naquela água lamacenta, um bezerro apodrecia, com as víceras de fora, cercado de urubus que o disputavam com voracidade. Donana, enojada, ergueu a vista – e o céu que divisou, de um azul-turquesa sem amenidade, dilatou-lhe o peito num suspiro. Tocou o braço de Zeca, que se inclinava sobre o espetáculo dos urubus.

-         Lá!

Ele ergueu a cabeça lentamente, depois fitou a mãe de modo inquisidor.

-         Lá – exclamou impaciente – lá longe!

E como a mãe insistisse num gesto autoritário, tomou a rosa que conservava sobre o colo, ergueu-a ã altura da face – e neste instante, como um único grito, um sentimento absoluto e definitivo dilacerou-lhe as entranhas, e ele deixou escapar um gemido, estendendo para o céu distante as mãos, e com elas, a rosa vermelha. Donana não compreendeu, não poderia ter compreendido nunca, não era do seu temperamento adivinhar o mecanismo interno e humano das coisas. Mas para Zeca, para sua alma eternamente imatura, alguma coisa acabara de suceder, e era tão grave, tão decisiva como se lhe fosse outorgada uma maturidade postiça, e ele, a quem a infância fora dada como destino, viesse bruscamente a perceber o equilíbrio e o tempo, pois o que sentira, mais do que vira ou percebera, fora uma emoção funda e desgarradora, uma certeza sem palavra, sem nome, sem classificação, sem nada que pudesse admiti-la ou revelá-la, de que a vida existia – essa coisa infrene, cega, voluptuosa e azul, que do outro lado, com um poder sobrenatural erguia a paisagem e a sustinha em seus luminosos alicerces. Descobrindo a vida, Zeca ao mesmo tempo descobrira a si mesmo e aos outros – e tudo o que ele não identificara durante aquele tempo, Donana, o homem ensanguentado, a cortina, as vozes, aquela flor que sustinha na mão – tudo, todas essas realidades – rapidamente encaminharam-se para seus lugares, ocuparam os nichos vazios, deram consistência, cor e veracidade ao mundo. E descobrindo tudo isso, Zeca havia descoberto a morte. Rápido, seu olhar voltou-se para Donana, de preto – ela pressentiu a descoberta –, um grande túmulo se fez dentro dela enérgica, gritou: “Lá, o azul!” – e empurrando a cadeira, deixou-a escorregar pela ribanceira. Ainda dessa vez Zeca percebera o gesto e o seu significado, mas sem se importar com a cadeira, continuava a olhar para trás – o olhar, pensou Donana, o olhar amarelo, o olhar de Álvio, seu último olhar – e tanto era o ímpeto que acionava Zeca, que se ele se pôs um pouco de pé, e apoiava-se à borda da cadeira, meio erguido, a rosa na mão. A rosa na mão – foi a última imagem que ela viu. O movimento da cadeira descendo, ou o tremor do corpo de Zeca, o que quer que fosse, o certo é que a rosa se desfolhou. Ela fechou os olhos, escutando o barulho das rodas nas pedras. A cadeira bateu finalmente numa pedra, desviou-se, rodou um pouco mais, bateu noutra, atingiu uma rampa mais íngreme, acelerou a queda, e, finalmente, chocando-se violentamente contra outra pedra, virou para cima, atirando o corpo de Zeca – um, dois, três trambolhões – rolou em nova rampa, esfrangalhado, chocou-se contra um último obstáculo e afinal foi tombar, inerte, ensanguentado, a poucos metros da rês apodrecida. Então, Donana abriu os olhos).” (p. 12 – 14)

***

Rafael é o anti-herói. Um protagonista que surge na paisagem para realçar suas cores. Extrai a veladura dos desejos culminando, inexoravelmente, na prática do mal. Sua presença em uma pequena vila faz despertar vontades até então reprimidas. Homicídio, roubo, todo tipo de violência surge no seu entorno. Até mesmo o sacristão é corrompido: ele quer uma puta tanto quanto a morte da esposa. O carpinteiro deseja sua enteada e ao vê-la se apaixonar por outrem, a degola com um machado. Donana Lara mata o filho para se ver livre de um peso e poder assumir seu suposto amor por Rafael. Uma narrativa tensa já que repleta de verdades ditas a todo momento por meio da violência.

Diário de um desequilibrado (18/01/10)

1. Não deixa de ser uma experiência interessante quebrar a perna num ano e, no seguinte, adquirir labirintite. Foi o que aconteceu comigo. Em ambos os casos, a praticidade de uma vida vertical é abandonada com a mesma facilidade com que se passa a flertar com a horizontalidade. Outrora, eu era retrato ao passo que manco ou labiríntico tornei-me paisagens diversas.

2. Do alto de uma muleta, um fraturado inspira respeito. Ainda que sem querer, ele porventura se aproxime de uma faixa de segurança, assistir-se-á um fenômeno sui generis: carros, motocicletas e até mesmo aeronaves hão de parar para permitir o prejudicado deslocamento da carcaça manca. Porém, façamos a experiência inversa: no início de uma manhã, envie um sujeito com labirintite aguda para atravessar a mesma via que outrora o manco se aproximara imprudentemente. Antes de chegar ao passeio – ele certamente será um trôpego a ensaiar passos no invisível, como quem brinca de pata-cega – não há dúvida que meia dúzia de almas há de dizer: “Bebeu a noite inteira”. Se houver crianças por perto, então, certamente a perversidade será ainda maior. Assim, nenhuma criatura cederá a via para o trânsito do labiríntico.

3. O grande problema do sujeito com labirintite é que ele não emite sinais. Ao contrário de um fraturado que carrega suas muletas ou de um cego que porta seus óculos escuros e bengala, o labiríntico é um sujeito cujo único sinal é ambíguo, da mesma natureza da embriaguez, a saber, uma tontura monumental. Com isso, ele não pode extrair nenhuma vantagem social.

4. No caso da fratura, é evidente que as muletas são uma extensão da vida horizontal que se leva nas camas, espaldares, divãs, entre outros suportes com quadro bases/pés. Para um labiríntico, muletas seriam uma confusão, um entre-pés.

5. Na primeira nota utilizei-me da locução conjuncional coordenativa adversativa “ao passo que” (designação que ao soletrar já me deixou zonzo). Antes tarde do que nunca, é preciso providenciar a correção. Afinal, ao passo que é a expressão menos apropriada a se utilizar nessas horas. Porque um manco pula, não dá passos. Um labiríntico perde-se, não caminha.

6. O manco e o labiríntico passam a negociar com o desequilíbrio. Apesar dele, executam-se algumas atividades e abdicam-se de outras. Aquilo que éramos antes do acidente, antes do labirinto, torna-se miragem. Julgamos ainda transitar por esse mundo, onde as coisas eram sólidas, a confiança na gravidade infinita. Mas quando decidimos ir até ele, verificamos que as regras mudaram e que já não é tão fácil manter a cabeça sobre os ombros.

Brutus, Jobim e os militares (4/01/10)

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Nelson Jobim é o nosso Brutus. Capaz de matar seus próprios filhos, se merecesse ele um retrato, sequer o remorso haveria de estampar-lhe a face – tal qual a clássica tela de David (Les Licteurs rapportant à Brutus les corps de ses fils, 1789). Afinal, um homem que outrora encarnava o espírito do Judiciário, teoricamente, o guardião da democracia brasileira, agora se faz passar pelo advogado dos torturadores. De início, bastava-lhe aparecer fantasiado com uma farda do exército em suas excursões midiáticas pela Amazônia ou na operação de buscas do Air France. Agora, finalmente os militares de antanho encontraram seu defensor legal, instalado no interior do governo brasileiro, no cargo de Ministro da Defesa.

No apagar das luzes de 2009, Jobim e os três ministros das forças militares (exército, aeronáutica e marinha) ensaiaram um golpe de Estado ao colocar Lula contra a parede na questão que envolve a aprovação do Plano Nacional de Direitos Humanos. Colocaram seus cargos a disposição caso o Planalto sancionasse a matéria. Com isso, teria lugar um impasse delicado já que os convidados para assumir os cargos certamente não os aceitariam, sobretudo no caso das Casas militares, “por solidariedade corporativa”, como bem constatou Janio de Freitas, em artigo publicado na Folha de São Paulo deste domingo (clique aqui para acessá-lo).

A grande questão em torno desse imbróglio é a mesma que retorna a todo momento e que ainda não está resolvida pela democracia brasileira: por meio deste Plano proposto pela Secretaria Especial de Direitos Humanos do Governo Federal, estará aberto um caminho legal para a condenação de torturadores posto que a Lei da Anistia passará a ser lida como sempre deveria ter sido: não se trata de uma legislação estabelecida para anistiar torturadores, mas sim crimes políticos (onde tortura, assassinato e desaparecimento forçado não estão inclusos, sendo crimes de lesa-humanidade, portanto não podem ser objeto de anistia ou auto-anistia). Eis o temor dos militares: serem julgados por seus crimes.

Para conhecer e assinar a petição contra a anistia de torturadores, proposto pela Associação Juízes para a Democracia, clique aqui.

A doce vida de Fellini (4/01/10)

marcelloO espaço que ocupa o vazio. Perambulações de um jornalista de celebridades por uma Roma obscura. Não há como saber se ele está trabalhando ou a paisana. Um homem aspirado pela vida. É a triste imagem do protagonista de La dolce vita, de Fellini. Alguém que se deixou tragar pela esfera pública, pelo mundo do trabalho. Dividido entre a literatura e o jornalismo, Marcello já não tem opção: o máximo que pode fazer é apaixonar-se por cada bela mulher que atravessa o seu caminho. E, no entanto, qual lirismo atravessa-lhe a face abstrata.

Sobre os 2000’s (1/01/10)

Talvez a primeira coisa a ser anotada é que não existem mais vanguardas. A ideia de ação coletiva foi para o espaço junto com a Apollo 13. Agora, a psiquiatria aliada à neurologia tornaram-se o stablishment do indivíduo, produzindo medicamentos que anestesiam a dor de existir. Se no século passado a ausência de liberdade era o problema e animava as vanguardas, agora padecemos pelo excesso de tudo. Terminamos a década na gelada Copenhagen discutindo a impossibilidade de mais emissões de gases na atmosfera. Antes disso, a queda do muro de Berlim, que assinalou o início dos 1990, foi logo contraposta pela construção de uma outra muralha, desta vez maior e mais onerosa, aquela que hoje separa palestinos e israelenses. O capitalismo abstraiu todas as divisões e fez de computadores conectados plataformas portáteis do exercício do consumo. Foi por meio destas telas que soubemos em primeira mão do evento que realmente encerrou a década: no dia 25/06/2009, o negro Michael Jackson morreu branco e anestesiado em sua mansão em Los Angeles.

*** Este breve texto é uma resposta a questão lançada pela amiga e editora do jornal “Notícias do Dia”, Néri Pedroso, às vésperas de 2010: “A primeira década do século 20 foi uma das mais marcantes, um período que as vanguardas artísticas mudaram quase tudo. O que você destacaria no campo da existência e da cultura na primeira década do século 21?” As perguntas foram enviadas para várias pessoas do campo da arte e da produção cultural de Florianópolis. As respostas foram publicadas na edição do dia primeiro de janeiro de 2010.