Arquivo de dezembro 2009

Notas sobre “Hotel Atlântico” (Suzana Amaral, 2009) (13/12/09)

hotel_atlanticoUm corpo à deriva, instalado no percurso de uma geografia do acaso. Ator sem nome, fora de cena, desocupado. Este é o protagonista de “Hotel Atlântico”, livro de João Gilberto Noll retomado por Suzana Amaral na forma de um longa-metragem.

Estar em cena com um ator que vive um outro ator, mas um ator desativado. O filme nos diz de partida que o seu protagonista está fora de cena: a trajetória responderá pelo desencontro, pelo non-sense já que não há papel definido, qualquer traço de estruturação psicológica de personagem. É essa a radicalidade que a direção e o conjunto de atores levou a cabo ao longo de todo o filme.

Ator sem nome, família, estado, enfim, qualquer vestígio de origem. A incompletude como condição, um ser que se vê em ato apenas na relação com outrem. Deste modo, torna-se passageiro suspeito ao lado de uma polonesa morta tanto quanto promíscuo na casa de um sacristão. O abismo que separa suas ações é o mesmo que invade sua existência no momento em que amputam-lhe a perna. É uma personagem que não preza por qualquer empatia com o público. Enfim, um filme corajoso.

É bem possível colocar “Hotel Atlântico” na mesma estante de “Cão sem dono” de Beto Brant, como providenciou a crítica de Eduardo Valente (http://www.revistacinetica.com.br/hotelatlantico.htm). Ou então, confortar-se ao afirmar “Hotel Atlântico” como mais um exemplo do “cinema da distopia”, termo cunhado pela crítica para dar conta da recorrência da narrativa de personagens sem rumo pelas metrópoles brasileiras. A noção do todo pode se tornar perversa e impedir leituras do uno.

A aniquilação do ator se passa no Hotel Atlântico. Não há razão evidente. Mas ela ocorre neste lugar de passagem, por excelência, que é um hotel. É emblemático o instante em que o ator decide partir: na beira de um canal, observa um imenso navio carregado. A metáfora do peso culminará numa sequência de perdas. Uma trajetória perpassada de violência e mortes. Ao subir para o seu quarto no Hotel, depara-se com um defunto carregado em uma maca. O funcionário avisa: o crime ocorreu no quarto ao lado. A polonesa morre ao seu lado sem aviso prévio. Uma velha senhora falece após receber sua própria extrema-unção, no episódio em que aparece travestido de padre.É no instante que abdica de seu destino que ele passa a ser regido pelo gesto de outrem: Nelson quer matá-lo em uma fazenda, o médico decide amputá-lo. É sempre um gesto de violência que cerca sua existência já esvaziada.